Política

Em SC, preferência à Bolsonaro é maior na Serra

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Foto: Adecir Morais/ArquivoCL

Uma pesquisa de avaliação do primeiro ano do mandato de Jair Bolsonaro (sem partido) feita em Santa Catarina, mostra que a popularidade do presidente é maior na Serra Catarinense – vale lembrar que, no segundo turno da eleição em 2018, o presidente obteve 73,83% dos votos em Lages.

O levantamento é do grupo Grupo ND e foi realizado pela Síntese Pesquisa, de Joinville. Numa escala de 0 a 10, os entrevistados atribuíram nota de 5,91 ao governo. Em todo o Estado, foram entrevistados 1.100 pessoas de 20 cidades.

Doutor em Sociologia e Ciência Política pela Universidade Federal de Santa Catarina, Artur Mazzucco Fabro diz que diversos fatores podem explicar o sucesso do presidente na região serrana de Santa Catarina. O primeiro deles diz respeito ao “imenso” sucesso eleitoral que Bolsonaro e o seu antigo partido, o PSL, obtiveram no Estado nas eleições de 2018.

“Aqui, o PSL conseguiu a façanha de eleger o governador do Estado, um cidadão até então desconhecido, além de quase eleger um dos senadores, feito considerado extremamente impactante, devido, também, aos adversários que estavam em partidos muito mais tradicionais que o PSL”, destaca Artur.

O segundo fator está nas características da população da Serra: um povo com costumes conservadores e mais ligados a ideais que se configuram como de “direita”, exatamente o perfil exaltado por Bolsonaro durante toda a eleição passada.

“Esses dois motivos, apesar de existirem muitos outros, parecem ser suficientes para entendermos, a primeira vista, o sucesso de Bolsonaro não somente na região serrana, mas em toda Santa Catarina”, acrescenta o especialista.

Para ele, ainda é cedo para que conclusões definitivas sejam tiradas a respeito do bom desempenho do presidente na Serra. Todavia, “parece que a soma de insatisfação com os políticos profissionais (apesar de Bolsonaro ser um político profissional há mais de 20 anos) em conjunto com as características da população serrana de ser mais conservadora, facilitaram a entrada do discurso bolsonarista na região”.

Ainda segundo Artur, o presidente “tem um trunfo expressivo que é a sua facilidade em se comunicar com o ‘cidadão comum’, conseguindo passar sua mensagem de maneira clara e objetiva, algo que se mostrou eficiente durante a campanha eleitoral de 2018. Como eu disse, ainda está cedo para definirmos que o presidente será unanimidade para sempre em Lages e na Serra, mas sua estratégia funcionou de forma destacada em toda Santa Catarina”.

Apoio na Serra

O advogado e empresário Airton Amaral, um dos apoiadores de Bolsonaro na Serra, diz não ter conhecimento da pesquisa, mas ressalta que “nossa região sempre teve uma identificação muito forte com a direita conservadora e liberal, entretanto, há anos não nos identificávamos com um candidato à presidência com este perfil”.

Com isso, tão logo Bolsonaro assumiu a intenção de disputar a vaga presidencial, houve “uma adesão muito grande da população” em torno da candidatura dele.

“Na Serra, fomos apoiadores desde o primeiro instante, onde diversos outdoors foram colocados por iniciativa de apoiadores sem qualquer tipo de ligação partidária. Isso ilustra claramente essa predileção e apoio do povo serrano ao presidente Bolsonaro. Daí não estar nem um pouco surpreso com o resultado desta ou de qualquer outra pesquisa”, destaca.

Para ele, apesar de a oposição trabalhar para “atrapalhar” o desenvolvimento das ações do Governo Federal, os resultados já começam a aparecer. “Diante dos inúmeros indicadores positivos, não há como negar a retomada do desenvolvimento e da confiança dos empreendedores e investidores.

O apoio ao ‘bolsonarismo’ reflete a real preocupação com nosso desenvolvimento econômico e social”, acrescenta Amaral, observando que “a confiabilidade foi retomada, e a recuperação do Brasil é uma questão de tempo”.

Resultado reforça a cultura do povo

Do ponto de vista social, histórico e cultural, o doutor em antropologia social pela Universidade Federal de Santa Catarina e professor Geraldo Augusto Löcks entende que o bom desempenho de Bolsonaro na Serra tem a ver com a cultura do povo serrano, que se desenvolveu no contexto da cultura de fazenda. Essas relações foram marcadas pela expressão do “mandonismo” e do “coronelismo”, onde uns “nasceram para obedecer, outros para mandar”, numa sociedade patriarcal, machista, conservadora, intolerante, racista, homofóbica e com as relações sociais profundamente hierarquizadas.

Para ele, muito provavelmente, o entrevistado da pesquisa identifica muitos dos valores e comportamentos e o modus operandi do presidente. “São valores, princípios inculcados historicamente, mas que persistem no imaginário e na visão de mundo de muitos sujeitos. Valores e práticas do passado, mas que orientam visões e comportamentos na contemporaneidade”, enfatiza o professor.

Para ele, é preciso considerar que, politicamente, Lages nunca foi progressista ou marcada por forças políticas de esquerda. A cidade, acrescenta, “na sua história política é hegemonicamente governada por oligarquias agrárias conservadoras, exceto, administrações das décadas de 1970 e 1980, quando ocorreram alianças de frações de classe agrária e industrial”.

Ainda, o professor questiona o que, de fato, o presidente fez pela Serra para justificar seu bom desempenho na região. “E a pergunta inquietanteː quais as efetivas políticas desenvolvidas pelo atual Governo Federal para a população da região de Lages, excetuando as emendas parlamentares, que como sabemos, são moedas de troca em apoio ao próprio governo?”.

Popularidade

Estadualmente, os entrevistados atribuíram nota média geral de 5,07 para o desempenho de Bolsonaro em 2019. A pior avaliação ocorreu na Grande Florianópolis, com nota média de 4,10.

Nas demais regiões, o presidente, que conquistou 75,92% da preferência do eleitorado catarinense no segundo turno da eleição de 2018, obteve as seguintes médias: Sul (5,60), Vale do Itajaí (5,10), Norte (5,04) e Oeste (5,52).

Outro dado interessante é que, dos 1.100 entrevistados no Estado, 24,64% disseram que votariam em Bolsonaro caso ele optasse por tentar a reeleição em 2022. Por outro lado, 49,73% foram contrários a uma candidatura à reeleição. Para outros 23,18% “talvez” o presidente possa concorrer, e 2,45% “não sabe/não opinou”.

Para Artur Mazzucco Fabro, a queda de popularidade do presidente é um fenômeno normal. “É claro que a popularidade de Bolsonaro não vai se manter na mesma crescente que foram seus números na eleição.

Após se conquistar o governo, é esperado que ações como a reforma da previdência, para citar somente um exemplo, derrubem um pouco a popularidade do presidente, mas isso é normal e deve ser contornado com o passar do tempo”, pontua.

Em relação à porcentagem de cidadãos que não querem a reeleição, tal dado demonstra uma posição que vem ganhando espaço nas últimas eleições: o fim da reeleição. Porém, ele alerta que esse tema deve ser analisado com cuidado, pois a reeleição está prevista na Constituição e somente pode ser alterada caso uma nova Proposta de Emenda à Constituição (PEC), que precisa passar pelo Congresso, isto é, não depende somente de Bolsonaro.

“Ou seja, está mais na mão do Congresso do que da própria vontade do presidente, sendo que também não devemos ser ingênuos em acreditar que Bolsonaro não visa a se perpetuar no poder ou mesmo eleger um sucessor.”

 

2 Comentário

2 Comentários

  1. Pedro

    27/05/2020 at 00:30

    Uma região muito bela, mas infelizmente habitada por um número inacreditável de imbecis.

  2. Sérgio

    02/02/2020 at 15:54

    A aprovação de Bolsonaro na Serra tem tudo a ver com a falta de cultura e leitura do povo. É difícil alguém da região que conheça a história ou que seja visto com um livro na mão. O professor está corretíssimo.

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