SUS é um dos mais completos do Mundo

Mesmo com alguns problemas, sistema é elogiado por brasileiros e estrangeiros. Curiosamente, o modelo do SUS pode ter surgido em Lages (SC)

Núbia Garcia

pauta@correiolageano.com.br

O mundo acompanhou, há algumas semanas, o drama de uma mulher no estado de Massachussetts, nos Estados Unidos, que caiu no vão entre o trem e a plataforma de embarque, ficando presa. Apesar de estar ferida, ela chorava e implorava para que ninguém chamasse uma ambulância, pois teria que pagar muito caro pelo socorro. O caso chamou a atenção para o fato de que o acesso à rede de saúde tem graves limitações para a população pobre daquele país.

Se o mesmo acidente tivesse acontecido em uma estação de metrô em São Paulo, ou de trem em Porto Alegre, uma ambulância do Corpo de Bombeiros ou do Samu prontamente atenderia a mulher, que seria encaminhada para um hospital, passaria por exames, seria medicada e, se necessário, seria internada ou passaria por uma cirurgia. Ela também poderia fazer fisioterapia, caso precisasse, e tudo isso, independentemente de sua condição financeira, poderia ser feito sem custo nenhum, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), que completa 30 anos em 2018.

O fornecimento de tratamentos gratuitos para toda a população é uma premissa da Constituição Federal de 1988, que preconiza que “a saúde é direito de todos e dever do Estado”. Neste sentido, no mesmo ano criou-se o SUS, que ampliou a oferta de serviços em saúde, tornando o acesso universal e igualitário às ações e serviços de saúde.

Muito longe de dizer que o SUS é um sistema perfeito, pois o Correio Lageano conhece e acompanha inúmeras denúncias, este material vai falar sobre os 30 anos de criação do sistema, apresentando relatos de autoridades e de pessoas que trabalham ou já utilizaram os serviços deste, que é considerado um dos mais completos sistemas de saúde pública do mundo. Ele abrange desde o simples atendimento para avaliação da pressão arterial até o transplante de órgãos, garantindo acesso integral, universal e gratuito para toda a população do país.

Para médico peruano, SUS é fantástico

Recém-formado em medicina, em 2010 o peruano Arturo Alejandro Dreifuss Serrano, hoje com 32 anos, mudou-se para o Brasil. O que o trouxe para as terras tupiniquins não foi a profissão, mas o coração, pois a mudança de país aconteceu para acompanhar a esposa, uma brasileira que ele conheceu nos tempos de faculdade.

No novo país, Arturo revalidou seu diploma para atuar profissionalmente e complementou os estudos: fez mestrado em Farmacologia e residência em Cirurgia Geral. Ao chegar no Brasil, a primeira coisa que lhe saltou aos olhos foi a prestação de serviços de saúde pública, pois no Peru não são gratuitos como por aqui.

O brasileiro reclama de barriga cheia, pelo simples fato de desconhecer a realidade fora daqui. Eu acho o SUS maravilhoso e encho a boca pra falar isso. Digo, com todas as letras, que o SUS é um sistema de saúde fantástico. Eu, sinceramente, gostaria muito que o meu povo tivesse algo parecido, que tivesse o que vocês [brasileiros], às vezes, menosprezam”, garante.

A contundente afirmação vem da boca de um profissional que teve, ao longo de sua vida, contato com outros sistemas de saúde na América Latina e em outros continentes. Além do funcionamento em sua terra natal, ele conhece o sistema dos Estados Unidos (o qual diz ser péssimo) e da Europa (que considera muito bom). Aqui no Brasil, ele trabalhou em cidades do Paraná, São Paulo e Santa Catarina. Em Lages, está há dois anos e meio.

Com base nas minhas experiências, eu digo que o sistema do Brasil é um dos melhores que eu tenho encontrado, especificamente porque ele elimina custos pontuais para os pacientes no momento do atendimento. Quando eu cheguei aqui [no Brasil] isso foi um choque muito grande”.

A maior queixa dos usuários do SUS é o fato de terem que entrar em filas de espera, seja nos pronto atendimentos para consultar com especialistas ou para fazer determinados exames. “No meu país, além de toda a espera que se tem aqui, as pessoas ainda precisam pagar para qualquer coisa que fazerem”, lembra Arturo.

O médico reforça que, em muitos casos, a falha no sistema se dá porque o usuário não sabe como utilizá-lo (falta de conhecimento), e também por causa daqueles que têm más intenções, como quem quer furar fila ou pegar atestado sem precisar. Além disso, ele cita a má gestão como principal fator para que o sistema tenha graves problemas.

Com frequência, infelizmente, vejo que os grandes problemas do SUS acontecem por causa de má gestão, de políticos envolvidos, de más políticas nas secretarias, nas prefeituras. Não estou falando necessariamente de Lages, mas muitas vezes os problemas de gestão não são somente dos políticos, mas nós da classe médica somos cúmplices de corrupções abomináveis, que nós promovemos por causa de nossa ganância pessoal”, avalia, ressaltando que tanto a má gestão, quanto às dificuldades financeiras e o “jeitinho” dos pacientes são originados em um mal comum às Américas: a corrupção.

Saúde no Peru

Segundo Arturo, no Peru o sistema de saúde é fragmentado e funciona de forma semelhante à saúde no Brasil antes da Constituição de 1988. Uma das partes é gerida pelo Ministério da Saúde e regulado através do Sistema Integral de Salud (SIS), que atende às pessoas mais pobres. “Teoricamente ele deveria cobrir todos os gastos pra quem não pode pagar. Mas na prática isso não acontece, porque cada paciente tem que cobrir do seu bolso, imediatamente no momento do atendimento, o que o SIS não consegue pagar. Quem não tem dinheiro, simplesmente não recebe um bom atendimento”.

Tem também o EsSalud, que atende à parte da população que trabalha com carteira assinada. Cada uma das partes das Forças Armadas (Exército, Marinha e Aeronáutica) têm seu próprio sistema de saúde. Mais recentemente, segundo Arturo, surgiram os hospitais de solidariedade, que ele compara a um SIS melhorado, porém, que cobra dos pacientes.

O peruano Arturo afirma que gostaria que seu povo tivesse um sistema parecido com o SUS, pois no Peru não existe saúde pública gratuita

No Pronto Atendimento Tito Bianchini, a enfermeira Daiane Pereira é uma das responsáveis por atender a quem chega em busca de auxílio médico

Sistema é bem visto por estrangeiros

O músico e produtor argentino Nino Zalazar, 36 anos, mora no Brasil há sete anos. Ele afirma que o atendimento prestado pelo SUS é semelhante ao da Argentina, onde também há saúde pública gratuita. Contudo, destaca que em seu país há dois pontos que são melhores: o tempo de espera por atendimento é consideravelmente menor e os médicos são mais humanos e próximos dos pacientes.

Na Argentina os médicos te olham no rosto e fazem revisão completa. Aqui (Brasil) não te olham nos olhos, apesar de serem atenciosos. Eu vejo que o médico na Argentina estuda por amor, porque ama salvar vidas, é dedicado. Nossa saúde pública é melhor que a privada. Aqui parece que é pra ganhar dinheiro, não se vê o tesão dos médicos em salvar vidas”, observa.

O desenvolvedor web norte-americano Robert Ward, 34 anos, morou no Brasil por 18 meses e, como tem família por aqui, está sempre atento ao que acontece no país. Para ele, apesar dos problemas que o SUS enfrenta, a oferta de saúde gratuita à população é “uma benção”. “Nos Estados Unidos, o sistema é famoso por ser ridículo. Temos os melhores médicos e hospitais do mundo, mas a pessoa comum não tem acesso, exceto se pagar uma quantia incompreensível de dinheiro”.

Ele explica que as pessoas que têm planos de saúde pagam valores menores, entretanto, as agenciadoras dos planos determinam em quais locais o paciente pode ser atendido. Ou seja, para pagar menos, tem que ir onde o plano tiver convênio.

Mas além disso, poucas pessoas sabem que realmente temos três sistemas de saúde. Um, que se chama VA, ou administração de veteranos de guerra, é semelhante ao sistema público que tem no Brasil. Os hospitais são administrados pelo governo e o tratamento é de graça. Só que o que acontece é que a administração é um desastre e tem filas imensas para cada coisa que tem que fazer. O segundo sistema é o privado. O terceiro se chama Medicare, e parece o sistema da Canadá. Nele o governo compra os serviços do mercado e distribui pra população. Enfim, é um sistema complicado”.

O jornalista inglês Matt Roper, 44 anos, mora no Brasil há sete anos. Neste tempo, precisou de atendimento médico algumas vezes e garante que foi muito bem atendido. “As pessoas foram prestativas e profissionais. No entanto, o que mais tem me impressionado são os agentes de saúde, que de mês em mês visitam minha casa e demonstram muita preocupação e carinho”, conta.

Vindo da Inglaterra, país que tem um sistema de saúde muito valorizado em todo o mundo, ele acredita que um sistema de saúde pública é indispensável para uma sociedade civilizada e desenvolvida.

No Reino Unido temos o National Health Service (NHS), que é muito querido pelos britânicos. Na verdade quase ninguém no país têm plano de saúde porque o atendimento no NHS é muito bom e rápido, foi classificado como o melhor do mundo. O tempo de espera para ser atendido em hospitais não pode passar de quatro horas e para cirurgias e outros procedimentos não urgentes, não pode passar de 18 semanas e o sistema é mantido por impostos, como no Brasil. No Brasil, vejo que o que falta no SUS é investimento. Embora o sistema seja bom, sofre por falta de recursos”, completa.

De exame de sangue a transplante de órgãos

Todos os serviços que a rede privada oferece, também são oferecidos pelo SUS. Quem garante é a secretária de Saúde de Lages, Odila Waldrich, que atua há 41 anos na área, como gestora e também como enfermeira.

De uma simples consulta com clínico geral às especialidades médicas complexas como cardiologia e neurologia; de exames de sangue e Raio-X a ressonância magnética; de sessões de psicologia, fisioterapia e hidroterapia, até internações hospitalares e cirurgias eletivas ou emergenciais; do complexo exame de DNA à transplantes de órgãos (este, aliás, tem fila de espera única pelo SUS).

O SUS também é responsável por fiscalizar a água que consumimos, para garantir a qualidade e evitar contaminação e epidemias. Por meio da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), fiscaliza a atuação de todos os órgãos que produzem ou comercializam alimentos.

Segundo Odila, tudo o que um cidadão precisar pode ser custeado pelo SUS. Quando este não tem oferta própria de serviço, compra de profissionais e clínicas particulares. O resultado da prestação de serviços de qualidade razoável e uma demanda gigante, são as filas de espera, um verdadeiro calvário para quem precisa de atendimento.

Apesar destes problemas, Odila acredita que o SUS é um sistema excelente e que trouxe inúmeros benefícios para a população. “A gente critica porque não conhece outras realidades. Se conhecêssemos, valorizaríamos mais aquilo que a gente tem enquanto SUS”, comenta. Quando ela iniciou sua carreira, no final da década de 1970, o sistema de saúde era completamente diferente. Quem trabalhava com carteira assinada, contava com os recursos de saúde oferecidos pela previdência social.

Os hospitais beneficentes atendiam os beneficiários da previdência e indigentes (nomenclatura dada, à época, para qualquer cidadão que não tivesse emprego formal, portanto, que não contribuía com a previdência). Quem não conseguia ser atendido pelos hospitais beneficentes, segundo Odila, ficava a mercê da boa sorte ou ia atrás de tratamentos alternativos, como benzimentos.

O SUS contribuiu demais com a saúde, o bem-estar e a qualidade de vida das pessoas. É só a gente observar o quanto aumentou a expectativa de vida do brasileiro. Há estudos mostrando que isso se dá devido aos benefícios que a saúde está oferecendo. Tem problemas que são eternos na saúde pública, mas a gente precisa avaliar o quanto melhorou nestes 30 anos”, avalia.

Municípios bancam parte do custo

Problemas financeiros e dificuldades de gestão são apontados pela secretária como os maiores desafios da saúde pública. Ela cita, por exemplo, o fato de que a tabela de pagamentos do SUS não é atualizada há cerca de duas décadas. O Ministério da Saúde paga por uma consulta de clínico geral R$ 10,30 e a de especialistas chega a R$ 38. “Quem trabalha por esse valor?”, questiona, citando a dificuldade em contratar profissionais para algumas áreas.

Essa é uma questão que dificulta as coisas, porque o município tem que injetar muito financeiramente, com recursos próprios. Este é só um exemplo, porque todos os serviços têm pagamento defasado. Para uma equipe de saúde da família, por exemplo, a União paga R$ 10,6 mil, mas ela custa para o município R$ 40 mil. Olha quanto temos que injetar”.

Na gestão a dificuldade se dá, segundo Odila, quando os gestores não têm conhecimento da estrutura. “Na saúde não tem lugar para amadorismo, tem que ter profissionalismo, tem que conhecer a estrutura e ter noção de gestão. Se tiver noções de gestão já é muito difícil, imagina se não tiver”.

Investimento

De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, por lei, o município deve aplicar em Saúde 15% da receita arrecadada. Porém, no ano de 2017, em Lages, este percentual chegou a 23%, ou seja, quase um quarto de toda a arrecadação municipal foi utilizada exclusivamente para Saúde.

O custo médio mensal da Secretaria é de R$ 12,6 milhões. Para ajudar nos custos, o Ministério da Saúde repassa cerca de R$ 6 milhões e o Governo do Estado em torno de R$ 300 mil a R$ 500 mil.

Mesmo com estas dificuldades, eu que já vivi os dois espaços, quando não havia o SUS e agora, não tenho dúvida do quanto o SUS melhorou e muito a vida das pessoas, porque antigamente muita gente sequer tinha acesso ao sistema de saúde”, completa.

Em Lages, as principais portas de entrada para atendimento pelo SUS são os Hospitais Nossa Senhora dos Prazeres, Seara do Bem e Tereza Ramos. Há ainda o Pronto Atendimento Tito Bianchini e a Policlínica de Especialidades Médicas, além de 27 unidades básicas de saúde e outras 49 unidades (como Farmácia Básica, Cerest, Vigilâncias Sanitária e Epidemiológica, Caps, Paps, e Saúde da Mulher, dentre outros).

0
FUNCIONÁRIOS
0
PEDIDOS DE CIRURGIAS E OUTROS PROCEDIMENTOS AUTORIZADOS
R$ 0 mil
EM SESSÕES DE FISIOTERAPIA/MÊS
0
EXAMES DE IMAGEM E DIAGNÓSTICO AUTORIZADOS/MÊS
R$ 0 mil
EXAMES DE IMAGEM E DIAGNÓSTICO AUTORIZADOS/MÊS
0 mil
CONSULTAS ESPECIALIZADAS/MÊS
O médico Celso, que foi vice de Dirceu Carneiro, está com 91 anos. Ele já se aposentou da carreira política, mas ainda atua na área da medicina

Sistema é bem visto por estrangeiros

Reza a lenda que o modelo de gestão adotado pelo SUS à época de sua criação, em 1988, pode ter surgido em Lages, mais de uma década antes. Durante a gestão de Dirceu Carneiro e Celso Anderson de Souza, que durou de 1977 a 1983, a dupla emedebista criou um sistema de atendimento médico nos bairros e no interior do município para desafogar as filas de espera por consulta que, até então, aconteciam somente na sede da Previdência Social, em um prédio no Centro da cidade, atualmente utilizado pelo INSS.

Até os idos dos anos de 1970, era comum que as pessoas amanhecessem em gigantescas filas na sede da Previdência Social, na expectativa de conseguir uma vaga para se consultar no dia seguinte. “Acabaram as fichas para o médico…” era a frase mas temida por quem passava a madrugada em claro na fila, pois significava que teria que voltar na noite seguinte, mesmo sem ter certeza que conseguiria a ficha.

Com o apoio das Associações de Moradores, Carneiro e Anderson desenvolveram um projeto que levava médicos aos bairros e ao interior de Lages, que à época era muito maior, pois englobava distritos como Correia Pinto, Otacílio Costa, Capão Alto, Palmeira, dentre outros, que mais tarde emanciparam-se e se tornaram municípios.

As associações de moradores construiam ou emprestavam locais que funcionavam como postos de saúde. Da comunidade também saiam as voluntárias que passavam por um curso oferecido pelo município e se tornavam agentes de saúde. Elas eram treinadas para oferecer atendimento de emergência, diagnóstico de doenças comuns e fazer partos. Ao município, cabia o fornecimento de médicos plantonistas, duas ou três vezes por semana. Esse atendimento era gratuito e abrangia toda a população.

“Nestes postos o médico tinha o prontuário de cada um, que a agente de saúde fazia. Ele sabia o que a pessoa teve, que remédios tomou, o resultado de exames e assim por diante. Começou aí uma medicina preventiva familiar, porque o médico acabava por conhecer todos da comunidade. Esse processo começou a ser implantado e as filas no centro reduziram, porque os médicos foram em definitivo pros bairros”, comenta Carneiro, lembrando que as consultas com especialistas continuaram acontecendo no Centro, pois os bairros contavam com clínicos gerais.

Projetos-piloto

Com as filas extintas e os postos funcionando a pleno vapor nos bairros e comunidades de interior, Carneiro foi audacioso. Ao lado de sua equipe de gestores, o que inclui Souza, ainda no fim dos anos de 1970, elaborou um dossiê e apresentou o projeto ao então ministro da Previdência Social, Jair Soares.

“Quando vi que deu certo aqui, levei para o Jair Soares. Fiz uma demonstração geral da proposta e dos documentos. Disse pra ele que eu achava que aquilo podia ser repetido em muitíssimos lugares devido ao sucesso que teve aqui. Ele gostou e ficou entusiasmado”, lembra o ex-prefeito, que hoje tem 73 anos.

A partir desta conversa e depois de estudos pertinentes, foram criados 20 projetos-piloto, seguindo os moldes desenvolvidos em Lages, em cidades de todo o Brasil. Segundo Carneiro, anos mais tarde este modelo acabou servindo como base para criação da sistemática de atuação do SUS.

Quando a proposta de criação do SUS chegou ao Congresso Nacional, Carneiro era senador e ajudou na votação. O lageano foi um dos constituintes, visto que contribuiu para a elaboração da Constituição de 1988. “Nesse período, entrou a força do texto constitucional, tomando para o Estado todas as responsabilidades referentes à saúde. A visão consolidada e bem-aceita dos agentes de saúde e o conceito de médico familiar no bairro criada por nós foi incorporada ao sistema”.

O ex vice-prefeito Celso Anderson de Souza, que está com 91 anos, é médico ginecologista de carreira e ainda atua. Para ele, a criação do SUS democratizou a assistência médica à população. Ele também acredita que o modelo posto em prática em Lages, à época de sua gestão, pode ter sido inspiração para o SUS.

“Dada a aplicabilidade do nosso projeto em condições de restrição financeira, com resultados práticos e indiscutíveis em razão do envolvimento de todos, seja dos profissionais de saúde, seja dos pacientes. Assim, é quase certo que o vivenciado em Lages, de forma até pioneira, tenha servido de subsídio para a instituição do SUS. Precisa agora a complementação baseada no que aqui foi feito, para que as filas imensas nos ambulatórios, a procrastinação inaceitável dos procedimentos sejam reduzidos para um patamar, se não ideal, ao menos aceitável”, completa o médico.

Dirceu Carneiro, prefeito de Lages entre 1977 e 1982

Livro relata como era a saúde em Lages na década de 1970

Considerado esquerdista por ser contra o governo militar, o mandato de Carneiro ficou conhecido por implementar diversas inovações em áreas como saúde, ação social e administração pública. Isso motivou o renomado jornalista carioca, Márcio Moreira Alves a escrever o livro “A força do povo – democracia participativa em Lages”, publicado em 1980, que detalhava como funcionou a administração de Carneiro e Souza.

Em um dos capítulos, o autor retratou como acontecia a busca por saúde à época e algumas peculiaridades do setor, como o fato de que mortalidade infantil em Lages era de 150 por mil (quase o dobro de São Paulo e metade da do Recife).

Em diversas partes, ele chama a atenção para a significativa parcela da população que procurava consulta com curandeiros e utilizava técnicas populares para resolver problemas, como jogar pó de café para estancar o sangue de feridas ou secar o umbigo de recém-nascidos com esterco.

“A tradição popular é de consulta a curandeiros e pessoas entendidas na flora medicinal. Há chás e poções para combater lombrigas, baixar a febre, tratar dos rins e do fígado, enfim, quase tudo menos espinhela caída, que só cura com benzedura, e mordida de cobra, que tem de ser aberta a ponta de faca, na hora, e o sangue chupado com vontade”, exemplifica em um trecho.

O formato de atuação para prevenção de saúde também é explicado na obra. Segundo o autor, “basicamente, o esforço no setor de saúde é no sentido de esclarecer a população sobre a necessidade de vacinar crianças, de combater os vermes e outros parasitas – piolhos, sobretudo – e de adotar, em casa, determinadas normas de higiene”.

EXPEDIENTE

Reportagem: Núbia Garcia

Fotos: Núbia Garcia e Bega Godóy

Produção de Pauta: Suzane Faita

Edição: Mauro Maciel

Reportagem publicada, originalmente, nos dias 1º e 2 de Setembro de 2018, na edição impressa do Correio Lageano

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