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Como sobreviver ao confinamento?

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Vivian Fátima de Oliveira é psicóloga e mestre em educação. Ela falou ao Correio Lageano sobre confinamento e as diferentes sitiuaçãoes que cada um de nós temos de enfrentar nesse período.

Correio Lageano_ Como agir numa situação de restrição de vida social, como no caso do coronavírus, que está se impondo para tantas pessoas?

Vivian Oliveira_ Com um bom exercício de reflexão, nós estamos com restrição do contato físico, mas não da vida social. Existem muitas críticas referentes ao uso exacerbado das tecnologias, entretanto, este momento requer a utilidade dessas ferramentas para aproximar famílias, amigos, colegas de trabalho, logicamente com moderação. Este período poderá até mesmo aumentar a frequência da comunicação social com as pessoas mais próximas, que muitas vezes ficam em segundo plano devido à rotina de trabalho diária. Existem pessoas que estão agendando horários para se encontrar virtualmente e essa é uma das estratégias positivas encontradas no momento atual. É importante termos essa clareza, que neste momento estamos mais do que nunca conectados, sim, com as pessoas e com o mundo, vivendo comportamentos e privações bem semelhantes uns com os outros e isolamento de contato não é isolamento social.   

O que a gente pode fazer para amenizar o estresse que a restrição causa?

A nossa sociedade, de uma maneira velada ou não, cobra que não podemos parar, impõe sempre atuação, produção, resultados, por exemplo, muitas vezes, nossa profissão vem antes do nosso nome próprio: o advogado João, a médica Maria e assim por diante, e esses aspectos são muito significativos, demonstram como somos vistos e se não estamos produzindo, há um estigma e um julgamento muito forte, tanto individual, da própria pessoa, quanto social, dos que convivem com ela. Essa cultura laboral mencionada, de produção e ação, vai totalmente na contramão do momento atual, em que a ordem é ficar em casa, com exceção, é claro, dos profissionais de saúde da linha de frente e de serviços essenciais como mercados, farmácias, postos de combustíveis, garis…

Outro ponto de destaque é relacionado com o formato da nossa organização diária, criamos rotinas para ocorrer economia de energia mental. Desde a hora que acordamos, sabemos o que iremos fazer em cada período do dia e quando algo sai do nosso controle, há um desgaste emocional muito grande. 

Desse modo, uma indicação para este período de quarentena, além de não reforçar fake news e se retroalimentar de informações negativas de alguns noticiários, é recriar uma rotina diária em casa, estabelecer horários e criar alternativas, como por exemplo, jogar com os filhos e família em geral, escutar músicas, praticar atividades físicas mesmo em casa. Para quem mora sozinho (a), ler aquele livro que, por conta do tempo [da falta de], não terminou ou nem iniciou, realizar cursos, capacitações profissionais online, de língua estrangeira, poderão até mesmo melhorar a qualidade do sono, da alimentação, a meditação também está muito recomendada, hoje em dia existem vários canais no youtube com meditação guiada e até mesmo aplicativos que favorecem essa prática.       

Existe também uma ação da psicologia denominada empatia, a qual deve transcender a todas as pessoas do mundo por estarmos vivendo em unicidade, independentemente de crenças, religiões, etnias, sexo, gêneros. Está muito mais fácil nos colocarmos no lugar do outro e termos uma escuta mais ativa a quem esteja próximo de nós. Certamente, após passarmos por esta pandemia seremos seres humanos mais resilientes, mais fortes do que entramos nessa quarentena. (Significado de resiliência: termo advindo da física que significa a capacidade que um corpo tem de readquirir integralmente suas propriedades anteriores, depois que um agente externo cessa sua ação sobre ele, ação esta que modificava, suprimia ou acrescentava alguma propriedade).  

 

Quem tem depressão, ansiedade, síndrome do pânico, tende a sofrer mais com isso?

Precisamos olhar para cada caso, porém, é importante salientar a necessidade de a família redobrar a atenção para essas pessoas com algum desses quadros, identificar o que não está dentro do esperado. O que é esperado para este momento de vida é uma ansiedade coletiva, de preocupação, estamos em uma atmosfera de incertezas, de medos, inseguranças relacionadas ao nosso futuro, ao financeiro, enfim, em algumas pessoas estes sinais e sintomas poderão emergir em maiores proporções, desencadeando irritabilidade, dificuldades de trabalhar mesmo em home office, insônia, choros frequentes. Então, diante de alguns desses aspectos, é importante contatar um profissional da saúde mental. Na área da psicologia, o Conselho Federal da categoria atento ao estado emocional desencadeado por esta pandemia, abriu mais o “leque”  para a Resolução CFP nº 011/2018: “Em função das recomendações do Ministério da Saúde, Organização Mundial de Saúde (OMS), Secretarias de Saúde e autoridades civis sobre eventuais possibilidades de quarentena, resguardo e isolamento a fim de evitar o alastramento da pandemia da Covid-19, o novo coronavírus, o Sistema Conselhos de Psicologia comunica à categoria que as(os) profissionais que optarem pela prestação de serviços psicológicos realizados por meios de tecnologia da informação e da comunicação, como o atendimento on-line, devem realizar o cadastro pelo site “Cadastro e-Psi” (link: https://e-psi.cfp.org.br/). Porém, temporariamente para os meses de março e abril, não será necessário aguardar a confirmação da plataforma para começar o trabalho remoto”.

Esta resolução regulamenta a “prestação de serviços psicológicos por meio de tecnologias da informação e da comunicação, autoriza a oferta on-line de serviços como: consultas e atendimentos psicológicos, processos de seleção de pessoal, supervisão técnica e aplicação de testes psicológicos, desde que devidamente autorizados pelo SATEPSI e normativas vigentes do CFP. Desta forma, as(os) psicólogas(os) deverão se comprometer a seguir a Resolução CFP nº 11/18, principalmente em relação às vedações de público e recomendações em busca do menor prejuízo das pessoas envolvidas”.

E o que é possível fazer para que pessoas que não têm essas doenças (depressão e outras síndromes) não passem a ter por conta desta situação?

Prestar mais atenção nos pensamentos, pois o pensamento gera emoção e a emoção gere nosso comportamento. Deste modo, tendo conhecimento dos próprios pensamentos fica mais fácil de identificarmos se estão sendo prejudiciais ou com qualidade. Caso sejam prejudiciais, sugere-se modificá-los encontrando um lado positivo de cada situação. Importante nesse período é sentir prazer na sua própria companhia, amparar com palavras de sentimentos de acolhimento e vibrações positivas as pessoas do nosso convívio.

Neste momento também é importante diferenciar os conceitos de solidão e solitude. A solidão é um vazio interno, já a solitude é totalmente ao contrário, significa o interior preenchido, trata-se de uma condição mental, um estado da alma, o qual pode ser explorado pelo autoconhecimento, identificando o que temos de positivo e valorizando esses aspectos, bem como na nossa capacidade de aperfeiçoarmos o que encontrarmos de necessidades. Distinguir solidão de solitude é a capacidade de perceber seus próprios valores no isolamento. Com isto desenvolve-se uma atitude interna e pode gerar um salto de gestão estratégica e sair de um vício poliqueixoso. Importante tirar como conclusão deste período de quarentena é o que não podemos mudar, nós precisamos aceitar e aproveitar a fazer coisas que não fazíamos antes,  transformando assim a crise em oportunidade, afinal, quando aumentamos nossos interesses, tornamo-nos pessoas mais interessantes.

Os adultos têm uma melhor compreensão disso, mas e as crianças e os adolescentes? 

Os adultos têm a tendência de subestimar a capacidade de compreensão das crianças/adolescentes, porém a nível cerebral elas apresentam estruturas cognitivas em transformação, não maturadas como as nossas, mas poderão encontrar formas de explicação lúdicas, na internet há disponíveis cartilhas ilustrativas e histórias com este objetivo e para os adolescentes é facilmente atribuir os efeitos e consequências ocasionados nas pessoas em outros países e comparar os números com o do Brasil, bem como se não tomarmos as medidas cabíveis, a iminência do Brasil se equiparar ao morticínio da Itália.    

Como explicar para uma criança que ela não vai poder ir à escola, não vai poder visitar o amigo, nem ir ao cinema ou fazer outra atividade em grupo?

A explicação deverá ser lúdica e concreta, por vídeos, cartilhas, histórias. É importante não polemizar para não assustar, mas sim criar uma consciência dos danos caso essas atitudes não sejam concretizadas, com a realização do contraponto que diante de todas as medidas providenciadas, ficará tudo bem e logo voltará tudo ao normal. Importante criar outras estratégias para passar o tempo em casa, nem tanto nos eletrônicos, mas atividades de pular corda, de circuitos para gastarem energia, pois essa crianças apresentam de sobra.

Qual a importância dos encontros sociais para a nossa vida, especialmente para nós brasileiros, tão calorosos e propensos às atividades em grupo?

Ninguém é só uma ilha, o ser humano para nascer, crescer e se desenvolver precisa de outros seres humanos. Com relação aos animais, nós somos os mais dependentes um do outro para existência e sobrevivência. Por exemplo, o cavalo nasce e já sai andando independentemente e o ser humano não, nós necessitamos de muitos cuidados, desde o ventre materno e logo após o nascimento, para alimentação, linguagem e até mesmo para estimular os primeiros passos, há necessidade de referências e alguns reforços de outras pessoas como palmas, sorrisos e abraços. Essa necessidade do outro é estendida durante toda a vida, seja no ambiente do trabalho, em casa, atividades sociais. É através do outro que nos conhecemos e reconhecemos como pessoas, pelas diferenças, pelas semelhanças, pelo que queremos ser ou o que não queremos ser. Enfim, nosso interno precisa do externo para se desenvolver, caso uma pessoa desde o nascimento convivesse apenas com animais, jamais adquiriria linguagem, não andaria de maneira bípede, ou seja, nós não nascemos humanos, nós nos tornamos humanos na convivência com outras pessoas.  

 

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