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Vegetação preocupa moradores, que temem a poluição

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Vegetação aquática voltou aparecer no Alagado, desta vez não há relatos de mortandade de peixes - Fotos: Bega Godóy

Quase um ano depois das autoridades terem confirmado a poluição nas águas do Salto Caveiras, em Lages, a reportagem do Correio Lageano constatou que a proliferação de algas persiste e alertou os órgãos competentes.

A presença da planta aquática indica que há alteração na água, pois está associada ao excesso de nutrientes que podem ser de esgoto. O fenômeno preocupa os moradores, sobretudo, porque da outra vez, houve registros de mortes de peixes.

Além disso, o resultado da última análise não foi conclusivo, já que apontou um conjunto de possibilidades para a proliferação da alga. Falta de oxigenação, oscilação da temperatura, esgoto sanitário, entre outras.

Para a Polícia Militar Ambiental (PMA), não existe, neste caso, nexo de causalidade entre agrotóxico e o fenômeno constatado in loco. É que existem muitas lavouras na região. O que ficou evidenciado foi o processo de eutrofização da água, confirmado pela proliferação descontrolada de plantas aquáticas decorrente do excesso de nutrientes presentes no alagado do Salto Caveiras, principalmente dos elementos químicos Nitrogênio e o Fósforo, mas que apenas se confirmará depois das análise efetuadas nas amostras de água coletadas no local.

Portanto, não pode afirmar, com exatidão, a fonte de nutrientes e/ou contaminação precursoras da proliferação das plantas aquáticas constatadas, sendo necessária uma análise minuciosa do local, pautada em análises técnicas para indicar a referida fonte.

No mesmo sentido, assegura a Polícia Ambiental, não se pode afirmar se existem danos à saúde humana e/ou a ictiofauna decorrentes da proliferação daquelas plantas aquáticas, sem as devidas análises e estudos técnicos que o caso requer.

O cabo Ilton Agostini Júnior, da PMA de Lages, descartou da outra vez qualquer relação por uso de agrotóxicos que poderia  interferir na qualidade da água. Assim somente as análises vão indicar se há contaminação.

Salto não tem rede coletora

O engenheiro químico das Águas Planalto (empresa contratada pela Semasa), Altherre Branco, acredita que o resultado da análise pode estar pronta em três dias. Também observou que uma das várias causas da poluição têm relação com a falta de rede coletora de esgoto e tratamento no Alagado.

Diariamente, milhares de litros de esgoto são despejados no rio, sem nenhum tipo de tratamento. Atualmente, Lages está coberta pela rede em 30% e com a finalização do projeto Araucária a cobertura ampliará para 50%. A previsão de término da obra é para este ano. E com o Complexo Ponte Grande concluído, o percentual passará para 70%.

Celesc faz controle diário

O engenheiro ambiental, Leonardo Luiz Maróstica, da Celesc salienta que a vegetação aquática engloba organismos presentes em distintos ambientes aquáticos de forma natural. E neste sentido são fundamentais ao ecossistema aquático, haja vista que desempenham distintas funções ao mesmo, incluindo a ciclagem de nutrientes, fornecimento de biomassa e abrigo para a biota aquática.

Para ele, a colonização excessiva desta vegetação aquática no reservatório do Salto Caveiras, por sua vez, é oriundo do lançamento de efluentes domésticos (esgoto) sem tratamento e de outras cargas pontuais (e.g. origem industrial) ou difusas (i.e. fertilizantes carreados de áreas agrícolas, drenagens pluviais).

Este processo é denominado de eutrofização cultural. Atualmente a Celesc realiza o controle através da retirada manual da vegetação aquática presente no entorno da tomada d’água. Em paralelo, também possui um sistema de log boom (espécie de barreira) que inibe a presença desta vegetação na área mais próxima a tomada d’água.

“De forma geral, estamos monitorando a variação espacial e temporal do banco de macrófitas aquáticas e neste momento não identificamos a necessidade de realizar outras medidas corretivas”, explica o engenheiro.

Entre as medidas corretivas pode-se citar as de controle biológico (como por exemplo a presença de um peixe herbívoro que se alimente desta vegetação), física (e.g. remoção com uso de barcos de forma manual ou mesmo com ceifadores) e química (e.g. aplicação de algicida).

“Entretanto salientamos que a melhor alternativa é a redução da carga de nutrientes oriunda de fontes de poluição a montante”, assegura ao lembrar que a limpeza no local é feita diariamente.

O engenheiro afirma que a presença excessiva desta vegetação aquática pode induzir a alterações na qualidade da água e nos usos múltiplos do reservatório, porém garante que  o contato com a mesma não é prejudicial aos seres humanos.

O que pode acontecer com os animais?

Esta vegetação aquática exerce um papel de produtor primário no ecossistema aquático do reservatório do Salto Caveiras (fornecimento de alimento para a biota aquática) e habitat e refúgio para distintas espécies de peixes, rãs e outros invertebrados aquáticos.

Contudo, uma das interferências que pode ocorrer é quando ocorre a mortalidade destas plantas, e existe um consumo de oxigênio dissolvido por ocasião da respiração das bactérias responsáveis pela degradação da matéria orgânica. Consequentemente pode ocorrer a asfixia de organismos aquáticos, como os peixes.

Outro fator negativo é que em determinados períodos desta proliferação o valor do pH da água pode ficar elevado (características de alcalinidade), e disponibilizando deste modo o nutriente nitrogênio na forma de amônia, que é tóxica aos peixes.  

Pesquisa anterior

Na época, a coleta foi feita em 14 diferentes pontos do rio, desde a área de captação da Semasa, que fica às margens da Avenida Victor Alves de Brito, até o Salto Caveiras. A análise foi solicitada pela Polícia Militar Ambiental (PMA), a partir da constatação da grande quantidade de peixes da espécie cará, mortos, no Salto.

O problema, já foi tema de inúmeras reportagens do Correio Lageano. Estudos preliminares, feitos pela Semasa, apontaram redução de oxigênio na água, no entanto, não indicaram elementos conclusivos sobre o agente causador da morte dos peixes.

Fossa e filtro são exigidos há 10 anos

Na Secretaria de Obras (Seplan) a  diretora de fiscalização urbana, Gizela de Bem Zulian, disse que um dos critérios do Plano de Saneamento Básico do município é identificar quais as unidades habitacionais que não possuem tratamento de efluentes.

Também antecipou que somente após 2009, a Seplan começou a cobrar a implantação de fossa e filtro o que impede que os dejetos sejam despejados na rede pluvial, para liberar o habite-se. Para isso, a construção da edificação deve atender às normas ambientais (código de obras), o plano diretor e as Leis ambientais.

Moradores estão aflitos

Seu Waine Manoel Venço (Tio Chico),  de 72 anos, está apavorado com o aparecimento da vegetação.  Morador da redondeza do Salto Caveiras comenta que a alga surge quando há falta de chuva. E já ouviu comentário que tem relação com o uso de agrotóxico.

Tio Chico disse que basta estiar e a planta reaparece

“Temos poços artesianos. Não bebemos dessa água. A Semasa tem caixa e faz as distribuição na localidade” explica o idoso que é conhecido por vender picolé. A Semasa tem dois poços onde é tratado e distribuída para os moradores da localidade. E faz a manutenção 24 horas.

Tio Chico não está sozinho na preocupação. Perto da tomada d’água da Celesc, há uma Ceim que atende 19 crianças da localidade. As professoras contaram que a vegetação surge e desaparece deslocada pelo vento e que causa aflição.

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