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Sucesso do plantio de lúpulo estimula expansão na Serra

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Foto: Jordana Boscato

Principal matéria-prima da cerveja, o lúpulo, responsável pelo amargor, aroma e espuma característicos da bebida, é um produto 100% importado pela indústria nacional. Porém, no que depender da produção na Serra Catarinense, essa realidade mudará. Uma parceria entre a gigante da cerveja, AmBev e os produtores de lúpulo promete dar destino à produção local. Uma oportunidade de negócios voltada, especialmente, para a agricultura familiar, foco do projeto que busca fomentar a cultura da planta na região.

A propriedade do agrônomo Vitor Paulo Vargas, 35 anos, é uma, entre as beneficiadas pela parceria com a empresa cervejeira.  “Boa parte do lúpulo [desta safra] deve ser destinada para a Ambev”, diz o produtor, que conta com a ajuda do pai para cuidar da plantação, na Localidade de Cerro Alto, município de Palmeira. Nos próximos anos, tem planos de interagir com outros mercados consumidores. 

 Da última safra, não vendeu nada, pois sabia das limitações com relação à qualidade. “Não queríamos vender sem ter total controle sobre a qualidade e o beneficiamento”. Assim, ofereceram para alguns parceiros para que usassem o material para receitas e testes de indústria cervejeira. Nesta safra já estão atendendo a pedidos e o objetivo é vender todo o lúpulo produzido, principalmente, as plantas do segundo ano, cuja expectativa é que sejam superiores à da última safra. 

Vitor divide o tempo entre a Serra e as viagens pelo Brasil. Ele é funcionário de empresa de produção de commodities de grãos. Dos 24 hectares da propriedade, meio hectare,  que já foi designado ao milho e às pastagens, recebeu mil pés de lúpulo. Destes, 60% é da variedade cascade, que teve uma boa adaptação na região. O restante é dividido entre columbus e chinook. “Colocamos [também] umas linhas de brasiliense, que é uma variedade que está no Brasil há muito tempo, chegou com os poloneses, tem uma boa rusticidade e isso nos chamou atenção. Um dos maiores problemas que temos é com relação ao manejo fitossanitário, surgimento de doenças e essa variedade tem se mostrado bastante tolerante aos problemas que observamos nas áreas”, explica Vitor. 

Com essa cultura, pretende melhorar a condição dos pais aposentados, que sempre viveram de leite, principalmente, além da pecuária e da lavoura de milho. Percebendo o crescimento do mercado de cerveja artesanal e o número de indústrias cervejarias, apostou no potencial do lúpulo. 

Pesquisas e experimentos comprovam que a região é propícia para a planta, mas requer dedicação. O pai de Vitor, juntamente a um empregado, cuida da plantação. “Necessita muito desse acompanhamento, quase que diário, em função da condução do crescimento dela […] é uma região que venta muito, ela vai lançando ramificações, cresce muito rápido e precisa de um apoio, principalmente até a fixação inicial nas cordas que sobrem uns seis metros; exige poda frequente e a manutenção do caneteiros com capina, ou com manejo químico para controle de ervas, aplicações de alguns produtos e manejo nutricional. É uma planta que cresce muito e consome muitos nutrientes e água.”

A propriedade do agrônomo Vitor Paulo Vargas, 35 anos, é uma, entre as beneficiadas pela parceria com a empresa cervejeira.   Foto: Adecir Morais

Lúpulo em condução latada

Sandro Dorl começou o plantio há três anos em parceria com um amigo. O diferencial dele é que, ao invés das plantas em trepadeira vertical, trabalha em sistema latada (sistema pergola), similar ao usado na condução de videiras. Segundo ele, essa forma de plantio é indicada para as pequenas extensões de terra. “Essa nossa experiência no plantio tipo parreiral, é para poder trabalhar com a agricultura familiar em pequenas propriedades”, conta. 

A colheita é feita manualmente, no ponto certo, para fazer um lúpulo prime. “É como o café normal, num cafezal [a colheita] você derruba tudo e tem os cafés especiais que são colhidos de forma diferente”. De acordo com ele, em uma área de um hectare, no modo latado, consegue-se colocar, mais ou menos, umas mil plantas. “Mil plantas rende um quilo e meio por planta com preço de venda entre R$ 150 e R$ 200 o quilo, mais ou menos R$ 300 por planta. Pode gerar R$ 300 mil por ano. Nenhuma outra produção dá essa rentabilidade em tão pequeno espaço.” 

Dorl fabrica cerveja há quatro anos, mas somente há dois anos é que usa o lúpulo plantado numa fazenda na Coxilha Rica, em Lages. O foco é produção de lúpulo, a cerveja produzida é para experimentar a qualidade da planta. Acredita que o foco na região deveria ser fomentar as pequenas propriedades para conseguir ter um lúpulo fresco. “Se você colher o lúpulo hoje e não fizer nenhum processo, daqui a três dias ele não presta mais, por isso é preciso fazer a secagem, peletiza e embalo a vácuo, só que perde bastante qualidade”, enfatiza.

Sandro Dorl começou o plantio de lúpulo há três anos   Foto: Jordana Boscato

 

Projeto para aumentar a produção

 

O Brasil está entre os maiores produtores de cerveja do mundo, mas não se destaca na produção do lúpulo, esse título é disputado por Alemanha e Estados Unidos. Nos últimos anos, a produção em solo brasileiro começou a se organizar. A Associação Brasileira de Produtores do Lúpulo (Aprolúpulo) reúne produtores de todo o País. O presidente da associação,  Alexander Creuz, explica que a produção por aqui ainda é pequena. 

“O Brasil se destaca no mercado internacional por estar entre os cinco maiores produtores de cerveja, porém, para a produção desta bebida, faz-se necessário importar 100% de lúpulo, pois no Brasil a produção, em escala comercial, ainda é insuficiente para atender à demanda. Em 2018, o Brasil importou mais de três mil toneladas de lúpulo”, relata a agrônoma Mariana Mendes Fagherazzi.

Outro dado importante é que toda cerveja deve conter lúpulo. O Art.36 do Decreto Nº 6.871, de 4 de junho de 2009, que regulamenta a Lei nº 8.918 de 1994, ‘dispõe sobre a padronização, classificação, registro, inspeção, produção e fiscalização de bebidas’, e diz que a ‘cerveja é a bebida obtida pela fermentação alcoólica do mosto cervejeiro, oriundo do malte de cevada e água potável, por ação da levedura, com adição de lúpulo’.

 

Parceria com a gigante do mercado 

 

A parceria entre a Ambev e os produtores está em fase inicial. Projeto de Fomento da Cultura do Lúpulo na Região tem como meta expandir a produção e conta com a participação, também, da Prefeitura de Lages, Epagri, Udesc e Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Segundo a gerente fabril da Cervejaria Ambev de Lages, Aline Trindade, esse é o primeiro passo da parceria que tem como objetivo contribuir com o desenvolvimento socioeconômico da comunidade na qual a empresa está inserida. “Além disso, o lúpulo é a alma da cerveja, é um dos nossos principais ingredientes, temos o maior interesse em aprender, investir no aprendizado e compartilhar todo o conhecimento que temos e que podemos adquirir com a comunidade local.” 

O interesse da Ambev é comprar lúpulo das pequenas propriedades. “O fomento, sim, [o foco é] o agricultor familiar; compartilhamento de aprendizados com toda a comunidade”.  Apesar de ter iniciado, a gerente não tem informações sobre o número de propriedades integradas ao programa. “Como citei, a intenção de parceria ainda está sendo construída, mas nossa expectativa é que cause impacto de verdade na agricultura local”, esclarece. 

A empresa dará suporte aos produtores, mas por enquanto não é possível dizer exatamente como será. “Faremos a primeira colheita este ano no Brasil. Nossa planta piloto de beneficiamento terá uma peladora, uma trituradora, uma peletizadora, uma secadora e uma embaladora”, explica Aline.

Aline Trindade, gerente fabril da Cervejaria Ambev de Lages   Foto: Bega Godoy

 

Entrevista  com Mariana Mendes Fagherazzi

 

Como é a produção de lúpulo na Serra Catarinense? 

O cultivo do lúpulo é pouco explorado no Brasil, tendo uma pequena área, que em sua maioria compõe-se de áreas testes, plantadas por entusiastas, sendo de aproximadamente 18 hectares, distribuídos entre os estados do Sul, Centro-Oeste e Sudeste do país. A produção na Serra Catarinense conta com a participação de mais de 10 produtores e as áreas ainda são pequenas, inferiores a um hectare. Todavia, a produção está em expansão, graças ao grande interesse do movimento cervejeiro. O setor tem sido impulsionado por empresas da iniciativa privada, entidades públicas, como por exemplo, os trabalhos que estão sendo desenvolvidos pela Universidade do Estado de Santa Catarina (CAV/Udesc), que é pioneira em pesquisa sobre o cultivo do lúpulo no Brasil, sendo um centro gerador de conhecimento e propiciando a expansão do cultivo no país. Com isto, produtores estão com respaldo para produzir e a cadeia de produção está sendo estruturada.

 

Que trabalhos são desenvolvidos para aumentar a produção de lúpulo na nossa região? 

O Grupo de Fruticultura, pertencente ao CAV/Udesc, vem desenvolvendo trabalhos a fim de avaliar e disponibilizar ao setor produtivo informações técnico-científicas, que contemplem estudos de adaptação de diferentes cultivares de lúpulo, visando aumentar índices produtivos e qualitativos, caracterizações microclimáticas de potenciais regiões, técnicas de manejo, produção de mudas de elevada qualidade, assim suprindo a demanda interna desta recente cadeia produtiva. Além de trabalhos que estão avaliando a qualidade química dos cones, como alfa ácidos, beta-ácidos e óleos essenciais, e estudos relacionados à produção de cervejas com os cones de lúpulo produzidos na região da Serra Catarinense.

 

E diferenças geográficas da produção de lúpulo?

O sucesso no cultivo do lúpulo está atrelado a vários fatores, e dentre eles as condições edafoclimáticas são de extrema importância. Atualmente informações quanto às exigências microclimáticas estão sendo geradas e caracterizadas as melhores regiões da Serra Catarinense, que propiciem produtividade aliadas a qualidade de cones. Mas sabe-se que a faixa ideal para o desenvolvimento do lúpulo está entre 16° a 18 °C, as quais estimulam seu crescimento e desenvolvimento. O lúpulo responde também à soma das temperaturas efetivas do ar, desde a brotação até maturidade dos cones. A soma das temperaturas efetivas varia entre 1.751°C a 2.900ºC, dependendo da cultivar. Quanto a precipitação no período de crescimento, esta não deve ser inferior a 300 mm e deve ser bem distribuída. Outro fator a ser considerado é a exigência de luz. Esse quesito deve ser levado em conta na localização do plantio do lúpulo.

Você pesquisa lúpulo há quanto tempo e como é a pesquisa?

Iniciei as pesquisas em 2017, no Centro de Ciências Agroveterinárias da Universidade do Estado de Santa Catarina (CAV/Udesc), no município de Lages, juntamente com o grupo de pesquisa da Fruticultura, liderado pelos professores Leo Rufato, Aike Anneliese Kretzschmar Francine Regianini Nerbass, Antonio Felippe Fagherazzi e Amauri Bogo. Estou trabalhando há três anos com a cultura e as pesquisas propiciaram a defesa da minha tese de doutorado, sendo a primeira tese defendida no Brasil com a cultura do lúpulo. A tese foi intitulada “Adaptabilidade de Cultivares de Lúpulo na Região do Planalto Sul Catarinense”. As pesquisas realizadas pelo grupo também possibilitaram a escrita de um livro sobre Aspectos Técnicos da Cultura do Lúpulo, sendo uma das primeiras obras brasileiras sobre esta cultura.

Quais os tipos que existem e quais são plantados na Serra?

Existe mais de 260 cultivares de lúpulo catalogadas, cada uma com característica apreciadas pela indústria cervejeira com relação ao amargor, aroma e sabor. No Brasil mais de 10 cultivares foram registradas junto ao Mapa, e aqui na região serrana acredito que a cultivar mais plantada é a cascade, mas também temos as cultivares Columbus, Chinook e Yakima Gold, porém não há um levantamento estatístico de quais cultivares de lúpulo são cultivadas a nível nacional nem estadual. Essas informações são cruciais para o acompanhamento do desenvolvimento da cultura.

Mariana Mendes Fagherazzi, doutora, pesquisadora e agrônoma   Foto: Adecir Morais

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