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Shayane é mais uma das vítimas de feminicídio

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Foto: Andressa Ramos

O sorriso fácil de Shayane Waltrick, de 27 anos, era uma de suas marcas. Alegre e extrovertida, a jovem era conhecida também por ser uma cozinheira de mão cheia e adorar inventar receitas de bolos. Sua vida era dedicada aos pais idosos e a seu filho de 6 anos. Mas na noite da última quinta-feira (7) ela foi morta brutalmente pelo seu ex-marido, dentro de casa, em Campo Belo do Sul, na Serra Catarinense.

Shayane e Fernando foram casados por oito anos. Os dois se conheceram durante uma festa em Lages, namoraram por 15 dias e oficializaram a união na igreja. Como os pais de Shayane são idosos e analfabetos seu Alvarino Waltrick, pai dela, convidou o casal para morar em Campo Belo para que a filha ajudasse a cuidar deles, afinal, são muitos os remédios para tomar e os dois não conseguem compreender.

Uma pequena casa de madeira foi construída ao lado da casa dos pais de Shayane, um ano depois o pequenino Pablo nasceu. Fernando foi o primeiro e único marido de Shayane. Os dois mantinham uma relação de carinho e afeto na frente de todos.

Durante os últimos sete anos, Shayane não pôde trabalhar e sua carteira de trabalho nunca foi assinada, pois Fernando não deixava. Porém, há sete meses, ele sofreu um acidente de trabalho, um pinheiro caiu em cima da cabeça e perfurou os pulmões. Fernando ficou gravemente ferido e foi internado na Unidade de Terapia Intensiva no Hospital Nossa Senhora dos Prazeres. Neste período a esposa se dedicou aos cuidados de saúde do marido. Ele sobreviveu e foi para casa, mas os parentes contam que Fernando não era mais o mesmo, perdeu a memória por dois meses e não falava frases condizentes com o que estava acontecendo. Como o salário era mais curto e por ver a necessidade financeira, Shayane decidiu trabalhar, conseguiu um serviço de doméstica três vezes na semana.

Sua vida mudou. Um de seus desejos era eliminar alguns quilos ganhos durante a gestação, meta que conseguiu alcançar por estar trabalhando. Passou a ser mais vaidosa e cuidar da aparência. O fato de trabalhar e estar diferente incomodou Fernando que passou a agredir verbalmente. Ele sentia ciúmes.

Marina Waltrick Antunes é sobrinha, comadre e madrinha de Shayane. Ela lembra que diversas vezes Shayane ligou para ela, nos últimos quatro meses, relatando as agressões de Fernando, em um dos episódios o corpo dela ficou com marcas dos socos.

Neste período os dois se separaram algumas vezes. Fernando saia de casa, mas sempre tentava uma reconciliação. Na penúltima vez, Shayane disse um não definitivo, o agressor deu a entender que estava tudo bem. “Ela estava muito feliz que ia trabalhar em uma lanchonete, ia começar na próxima semana”, conta o pai.

Sequência do crime

Na terça-feira (5) Shayane e o filho viajaram para Lages com Marina e o esposo para passear. Na quarta-feira (6) pela manhã Marina encontrou Fernando em uma mercearia no Bairro São Luís, a família dele vive no Bairro Santa Catarina. “Ele estava aparentemente bem, falou que tentou voltar com ela, mas que ela não quis, e assim a vida ia seguir e afirmou que ainda amava muito a minha tia”, conta.

Na quinta-feira (7) Shayane compartilhou no Facebook, às 8h24min, a frase: “Porque eu o Senhor teu Deus, te pego pela mão e te digo – não temas eu te ajudo”. O retorno para Campo Belo estava marcado para à tarde, mas por causa de um acidente na BR-116 decidiram ir mais tarde. Marina ligou para os avós e pediu para que fizessem o jantar. Saíram de Lages e chegaram por volta das 21h20min em Campo Belo do Sul.

Todos conversaram. O garotinho quis ficar dormindo. E, enquanto Shayane falou que iria tomar banho, os outros foram jantar.

Fernando havia saído de Lages às 16 horas, pegou carona com um caminhão, chegou na cidade e se escondeu em um galinheiro dentro do lote. Ao anoitecer entrou pela janela da lavação e ficou escondido dentro de casa, com todas as luzes apagadas.

Shayane não sabia que o ex-marido estava dentro de casa. Abriu a porta, acendeu a luz e viu Fernando. Em depoimento à Polícia Civil, ele relatou que tentou reatar mais uma vez, mas que ela não quis e partiu para cima dele, para se defender ele pegou uma faca e desferiu golpes contra ela. Fernando não sabia dizer aos policiais quantas facadas havia dado na ex-companheira.

Shayane foi à porta e gritou por socorro. Marina ouviu e todos saíram para ver, correu ao encontro de sua tia. “Meu marido perguntou para ela se havia sido o Fernando, com a cabeça ela fez que sim e começou a chorar. Depois disso, ela se foi. Tão triste não poder fazer nada”.

Fernando fugiu pela janela dos fundos. E, segundo ele passou a noite escondido em um banhado com a faca junto. A pretensão na verdade era matar Shayane, o filho e depois se matar. Na manhã desta sexta-feira (8) Fernando saiu do meio do mato e foi para a BR pedir carona. Um primo da vítima que passava viu o assassino, chamou os outros parentes e pegaram Fernando que foi preso em flagrante e levado a Polícia Civil, que passou à noite e madrugada procurando por ele.

Na delegacia confessou o crime e se dizia diversas vezes arrependido pelo que fez.

Outra morte

Alvarino, de 75 anos, e Maria de 68 anos, são casados há 53 anos. Do amor nasceram nove filhos. Destes, dois foram assassinados. Há 31 anos, seu filho aos 16 anos foi morto na praça da cidade. Agora, a família perde Shayane de forma brutal.

Vítima havia registrado boletim

O delegado Raphael Bellinati contou que Shayane havia registrado um boletim de ocorrência no dia 22 de janeiro, não quis representar e nem comentou sobre agressão física, apenas verbal. Dessa forma pediu uma medida protetiva que foi deferida. Por isso, não foi instaurado um inquérito.

Na cidade de Campo Belo do Sul, segundo o delegado, o machismo é muito forte. Algumas mulheres procuram a delegacia, mas, como nos três últimos casos, as vítimas não quiseram representar contra o agressor.

O delegado explica que mesmo com a medida protetiva as mulheres e parentes devem ser os fiscalizadores e denunciarem a proximidade do agressor, pois o efetivo da Polícia Civil é pequeno e não consegue estar em vários lugares ao mesmo. Ele ressaltou a importância da participação dos amigos e familiares na hora da denúncia.

Bellinati prendeu Fernando em flagrante. Na delegacia, precisou deixar o agressor com algemas e sem roupas, pois dava indícios de que iria se matar, por estar muito arrependido de matar Shayane.

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