Coronavírus

PODCAST: Covid-19: Da saúde à economia com o ex-governador Raimundo Colombo

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Foto: Divulgação

Em áudio divulgado recentemente em algumas redes sociais, o ex-governador Raimundo Colombo fala da existência de um protocolo aprovado pela ONU, e de conhecimento do Governo de Santa Catarina, onde o uso de hospitais de campanha seria a última forma de agir diante desta pandemia.

“Não precisamos de um hospital de campanha”, afirma Colombo, destacando que este protocolo foi renovado em 2019, estando atualizado para ser aplicado nesta situação da Covid-19.

Nesta entrevista, o ex-governador explica as medidas orientadas neste protocolo e cabíveis para o enfrentamento do coronavírus no estado. Ele fala também sobre a não conclusão do Hospital Tereza Ramos e apresenta um panorama geral dessa pandemia que afeta não somente a saúde dos catarinenses, como também a economia. Confira.

O senhor afirmou em um áudio que existe um protocolo aprovado e inclusive premiado pela ONU, e de pleno conhecimento do Governo de Santa Catarina, que recomenda o uso de hospitais de campanha como uma última forma de agir diante desta pandemia. Essa sua afirmação foi um alerta e chamou a atenção de todos, pois recentemente viu-se um embate em torno de uma obra que custaria milhões aos cofres catarinenses: Pode, por favor, detalhar o que orienta este protocolo, que inclusive foi renovado em 2019, estando, portanto, válido para a atual situação em que vivemos?

Eu de fato dei uma entrevista e vazou o áudio de uma conversa mais reservada, onde eu mostro que em um momento como esse existe um protocolo feito na Defesa Civil, concluído em 2017, com a participação e aprovação da ONU, e que mostra claramente quais são os passos a serem dados. A verdade Débora, é que quando você não segue um protocolo e não tem firmeza, você fica refém de pressões e perde o comando da situação, e é isso que está acontecendo no atual governo. Segundo o protocolo, o primeiro movimento é em relação aos hospitais. O coronavírus precisa de UTI, então pega-se os hospitais existentes e se faz um remanejamento de tal forma, que todos os leitos possíveis sejam transformados em UTI. Por exemplo, o hospital Florianópolis, que foi inaugurado no nosso governo, tem 10 leitos de UTI e 50 leitos para atendimento geral. Você transforma-os em 60 leitos de UTI, removendo estes pacientes que estão no pós-operatório ou com doenças menos graves. Esta mobilização deve ser feita em grande escala em todos os municípios onde os hospitais permitem fazer isso – e são muitos que estão disponíveis, muitos inclusive fazendo por iniciativa própria – você então triplica, quadruplica o número de leitos de UTI na rede já existente. O segundo movimento, é o de passar a ocupar imediatamente as áreas ociosas e desocupadas de hospitais, transformando no atendimento realizado em hospitais de campanha. O terceiro movimento cabe aos hospitais que estão prontos, ou quase prontos, como é o Tereza Ramos, aqui em Lages, o Marieta, em Itajaí, o de Chapecó, e muitos outros… Ativa-os imediatamente. O hospital de Lages está 99% pronto, tem 20 respiradores “0km”, ressonância magnética, tomografia, as camas mais modernas, é um hospital de primeiríssima qualidade e primeiríssima referência no Brasil hoje, e que com muito pouco tempo e muito poucos recursos, pode ser aberto imediatamente. O mesmo vale para os outros que eu citei. O quarto movimento é o estado se utilizar de um hotel e transformar esse hotel em um hospital de emergência, e levar para este hotel-hospital os doentes de menor gravidade, liberando leitos nos hospitais existentes para atendimento dos pacientes mais graves. Porque no hospital já tem equipamentos nas paredes, tem o oxigênio, tem a equipe preparada e experiente para atuar nisso. É possível construir um hospital de campanha? É, mas é a última coisa nesse cronograma do protocolo, por quê? Porque quando você desmancha um hospital quatro meses depois, a metade do dinheiro vai fora, e no caso de Santa Catarina tinha um escândalo, os valores eram inexplicáveis. Tanto que tiveram que cancelar, porque a sociedade não aceitou. Uma outra coisa do protocolo, Débora, que eu considero muito importante, é o procedimento. Você não fecha 100% dos municípios ao mesmo tempo. Santa Catarina fechou tudo quando tinha oito casos. Ou seja, anteciparam. E aí a quarentena se alonga, criando uma crise econômica maior do que aquela que deveria ser. Então por exemplo: as cidades que não têm nenhum caso: como Otacílio Costa, Curitibanos, aí do lado… Você não precisa fechar nada, você tem que, na entrada da cidade, ter uma equipe da área da saúde que explique os procedimentos, que repita aquilo que a imprensa tá dizendo todo dia: lavar as mãos, usar máscara, medir a febre… Isso tem um efeito psicológico, porque a pessoa para, recebe atendimento do estado, recebe uma orientação de como deve proceder. Dos 295 municípios do estado, 200 não têm nenhum caso, então não precisava ter fechado, isso foi um erro muito grande. Temos vários municípios que têm um caso. Nessa situação, ao invés de sinal verde, é sinal amarelo no protocolo. E o sinal amarelo, você identifica quem é o paciente, com quem ele conversou, de quem ele pegou, para quem ele pode ter transmitido, e faz um monitoramento que vise ao controle dessa situação. Aqueles municípios onde a doença cresceu e os números são grandes, aí realmente fecha tudo, é prioridade total e o estado faz o seu trabalho. Isso tudo deveria ter sido seguido, e não está sendo. É um erro do governo pelo qual a sociedade inteira será penalizada.

Mesmo tendo todas essas outras opções, a construção de um hospital de campanha é justificada pelos governos, pela existência de uma necessidade de aumentar a oferta de leito. Diante dessa situação atípica, o senhor prevê a necessidade de um hospital de campanha em Santa Catarina?

Em vários lugares do mundo está sendo construído um hospital de campanha, essa é uma realidade. E sim, ele é uma coisa que pode ser construída, mas é a última etapa neste cronograma e no caso de Santa Catarina não há necessidade. No caso de São Paulo, agiram no Pacaembu, e São Paulo é o centro da pandemia no Brasil, imagino que devem ter avaliado isso e provavelmente se justifique.

Um assunto recorrente em Lages é a conclusão das obras do Hospital Tereza Ramos.  Em sua saída do governo, no início de 2018, o HTR ficou praticamente concluído, restando menos de 6% de suas obras. O governador Pinho Moreira, que lhe sucedeu não concluiu. O atual governador, Carlos Moisés também não. Mesmo a obra tendo o financiamento aprovado. Agora, em plena pandemia temos a promessa de entrega para final deste mês de maio. Como o senhor se sente ao olhar para toda essa novela do HTR, após sua saída do governo e constatar a não conclusão desta obra na sua cidade? E por que faltando tão “pouquinho” não foi possível terminá-lo antes da sua saída do governo?

Eu gostaria muito que o Tereza Ramos estivesse pronto. Eu trabalhei duro para isso, e lutei muito para vencer as burocracias e as dificuldades, para nós podermos entregar o hospital à nossa cidade, porque eu o considerava uma obra para a história de Lages. Infelizmente, não foi possível. Nós contratamos essa obra em 2013, contratamos a primeira etapa. E essa primeira etapa previa a parte de estruturas de concreto, as fundações, a parte física do prédio, e o prazo de contrato eram dois anos. Vencida esta etapa, foi feita uma nova licitação, e essa nova licitação é muito complexa, porque ela envolvia aparelhos, aparelhos estes que eram compras internacionais. E o contrato foi assinado em 2017, e um pouquinho depois foram assinados outros de outros equipamentos. Fazer um hospital não é uma coisa simples, é de fato uma coisa muito complexa. Isso tudo leva tempo, todo mundo sabe como é a burocracia, deve-se ter as exigências pedidas pelo corpo de bombeiros, pela vigilância sanitária, pelos órgãos de controle, e tudo isso foi feito. Qual era o prazo da conclusão? Era 28 de junho de 2019. Eu saí do governo em fevereiro de 2018. Para a tristeza minha, a obra não ficou pronta, como eu gostaria. Agora, uma coisa eu preciso dizer, a obra nunca foi minha, a obra é do estado, ela deveria ter sido continuada e concluída. O pessoal diz “não, a data de inauguração era 2015, 2017”. As pessoas gostam de ofender os outros, em Lages principalmente, como é fácil falar da vida dos outros. Falar que não deu certo, que não foi o que esperava. As coisas que deram certo têm muitos donos, e aquelas que se atrasaram ninguém quer defender. Mas o importante é que o hospital está 99% concluído, né, o governo disse que estava fazendo uma auditoria, e deve fazer mesmo, se tiver uma irregularidade que apontem. Eu nunca soube que o ministério pediu auditoria nenhuma, não precisava ter parado. E eles foram surpreendidos com a pandemia, pararam dois anos, e agora precisam andar rapidamente para poder entregar, para poder proteger as pessoas. Eu às vezes fico triste que o lageano não pressionou o suficiente para que o hospital não parasse e pudesse ter sido entregue. Mas enfim, é complicado mesmo.

 Encerro pedindo que o senhor avalie o panorama geral da Covid-19, da saúde a da economia.

Com relação a essa questão do coronavírus, o mundo inteiro está mostrando as providências que devem ser tomadas. Alguns países estão obtendo resultados excelentes, a Coreia é um exemplo disso. Eu acho que a Alemanha está tendo um desempenho extraordinário. Hoje com certeza a líder mundial que está tendo melhor desempenho é a primeira ministra alemã Ângela Merkel, e nós no Brasil temos uma briga de ego, uma briga política que entristece a todos. Mas a gente vai superar isso. E fica o desafio da crise econômica que virá depois, que deve ser manejada com muita atenção, para que não haja tanto desemprego, tanto problema social, tanta empresa fechando… E isso é o estado quem deve liderar. Deve mostrar o caminho, deve proteger as pessoas, deve proteger a economia e desenvolver ações. O banco empresta dinheiro para quem tem, empresta dinheiro para quem pode dar garantia, não vai fazer ação social e proteger aqueles que precisam ser protegidos. Isso quem deve fazer é o Governo Federal, o Governo Estadual, o Governo Municipal, todos nós. Nós precisamos ajudar. Eu agradeço muito à oportunidade. Um grande abraço.

Ouça o podcast com o ex-governsdor raimundo Colombo

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