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Jovens contam os dramas da automutilação

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Vencedora do Emmy Kids Internacional 2018, “Malhação: Viva a Diferença” (2017-2018) está de volta à Globo, em versão especial. Além da trama de Cao Hamburger abordar a história de cinco amigas, trata de temas relevantes para a sociedade, alguns ainda tabus, como a automutilação de adolescentes e jovens.

A personagem Clara (Isabella Scherer), a princípio, não parece alguém que sofre e se machuca propositalmente. Na trama ela usa um anel para cortar a barriga, essas situações acontecem na escola e na casa da personagem.

Segundo uma reportagem publicada pelo The New York Times em 2019, traduzida e reeditada pelo jornal O Estados de S. Paulo em novembro do ano passado, cerca de um em cada cinco universitários americanos, “relatou ter se automutilado de propósito para aliviar a dor emocional pelo menos uma vez”.

Janis Whitlock, diretora do Programa de Pesquisa Cornell sobre Automutilação e Recuperação, realizou uma pesquisa em 10 universidades. O primeiro episódio, segundo ela, ocorre por volta dos 15 anos, mas um grande número de jovens começa mais tarde, aos 17 ou 18 anos. Poucas pessoas que se machucam uma vez param por aí, explicou Whitlock, autora de Healing Self-Injury: A Guide for Parents (Curando a automutilação: um guia para os pais).

O que acontece entre os jovens norte-americanos não é exclusividade deles. Perto da gente há jovens que estão sofrendo e encontram na automutilação uma válvula de escape para diminuir uma dor emocional. “Eu comecei aos 12 anos.”

Quando notei que aquilo aliviava o sentimento que eu tinha por dentro. Aliviando a dor com dor, se é que me entende. Parece que a dor me alivia, é uma válvula de escape para tudo isso”, conta uma jovem que não terá seu nome revelado. Aos 16 anos, ela estuda e trabalha, é moradora de uma cidade da Serra Catarinense. Para se cortar, utiliza lâmina de barbear ou de apontador e até um canivete. 

“Eu tenho algumas cicatrizes, sabe, são visíveis, mas não tão profundas. Ainda tenho essa vontade de me cortar”, conta. Recentemente, ela passou por um trauma, a namorada cometeu suicídio. Para fazer terapia, depende do SUS, e teve medo de pedir ajuda, e não ser compreendida.

“A [minha] mãe está me ajudando aos poucos, enquanto não me chamam [para a consulta via Secretaria Municipal de Saúde], ela finalmente está entendendo”, comenta. Porém, ainda tem dificuldade em falar sobre a automutilação com os outros familiares: “Eu não consigo falar sobre isso com todos da minha família porque uns acham que é falta de Deus e outros acham que sou louca, que eu criei isso.”

Com transtorno de borderline (transtorno de personalidade borderline é um transtorno mental grave caracterizado por um padrão de instabilidade contínua no humor, no comportamento, auto-imagem e funcionamento) e ansiedade, a jovem de 19 anos conta que não é fácil conviver com esses problemas.

“Não consigo sair muito de casa sem ter uma crise, não consegui terminar os estudos, toda hora, na aula tinha crise, é difícil, eu até tentei uma carreira de modelo, não deu muito certo, muita pressão e não consegui fazer as coisas com pressão”, relata.

Ela pretende tentar tentar algo que goste e consiga realizar. Com um histórico de depressão, tentou suicídio. “As pessoas, em vez de ajudar, vão lá e te julgam, te deixam de lado só porque você tem um problema. Ninguém leva a sério isso. Deveriam. Porque isso mata muitas pessoas”, desabafa. Ela chegou a fazer terapia, mas ainda automutila os braços, onde tem cicatrizes, usando lâminas e estiletes.

Aos 20 anos e mãe solo de uma criança de 10 meses, outra entrevistada relata que tem o auxílio e o amor da família. Esse apoio foi muito importante para o processo de recuperação. “Minha mãe foi a primeira pessoa que conversei. Ela não soube o que fazer, então, decidimos fazer um tratamento médico, pois além de ter passado por um relacionamento abusivo, ser mãe solteira também é difícil.” Ela conta com a ajuda de uma psicóloga. 

Grávida aos 18 anos, lembra que teve muita dificuldade para enfrentar a situação. “Conhecia [o pai da criança] há um mês e engravidei. No começo da minha gravidez, foi tudo muito difícil, por conta da família, idade, namorado”, recorda. A turbulência no período da gestação foi, especialmente, por conta do namoro abusivo, mas há outros motivos.

“Minha mãe casou e fui morar sozinha, meu relacionamento foi de idas e vindas, então, meu filho nasceu e o relacionamento continuou sendo abusivo, foi então que minha família disse que não apoiava mais e não queria ele na minha casa. Porém, continuamos a nos ver até que chegou ao ponto de ser trancada em casa e, por medo, me cortar, não para tirar minha vida, mas apenas queria sair dessa situação”, relata.

Por conta desses cortes, que aconteceram após a briga com o ex-companheiro, em que sentiu muito medo, ficou com uma cicatriz profunda, da qual se envergonha. “Fiz uma tattoo em cima com uma mulher, pois somente nós mulheres entendemos esses abusos diários.”

Foto: HadisSafari/Unsplash/Divulgação

Depoimento da jovem de 19 anos, citada na reportagem

Como eu me sinto? Depende, cada dia é diferente, mas uma coisa que nunca muda é a ansiedade, aparece todo dia e é difícil lidar com ela. Cada dia me sinto mais incapaz de lidar com isso, é horrível lidar com isso sozinha, esse nó na garganta que não some e só aumenta.

Toda vez que vou sair ou falar eu gaguejo e dá um ‘tremelique’ nas mãos, sempre tento disfarçar as tremedeiras fazendo algo, ou mexendo em alguma coisa para ninguém perceber. Só queria que tivesse uma cura para isso, para ter um vida melhor, não consigo fazer nada.

Estudar é difícil, ainda mais quando tinha que apresentar trabalho, sempre faltava quando tinha que fazer isso, e hoje em dia, até quero tentar fazer um curso depois que passar essa pandemia, mas o medo e a ansiedade podem atrapalhar. Tentei estudar no ano passado, mas desisti, é difícil quando se tem isso, você não vive bem e as pessoas a sua volta não entendem, deveriam aprender sobre isso. 

Queria que as pessoas parassem de julgar, e ajudassem quem tem esse problema, entendessem que com isso não se brinca, e tentar compreender os que têm um nível bem alto de ansiedade. E quando [essa pessoa] está em crise, tentar ajudar, em vez de fingir que não está vendo.

Parem de dizer que quando uma mulher está se sentindo mal, que é gravidez, nem sempre é. Uma vez estava no começo de uma crise de ansiedade e estava enjoada, uma pessoas sugeriu que eu estaria grávida. Nem tudo se resume em estar grávida, às vezes, a mulher está passando mal por outra coisa, em vez de julgar, ajude da melhor maneira que você consegue.

Tatuadora desenvolve projeto para cobertura de cicatrizes  

A tatuadora Beni Urbano, de 27 anos, percebeu um alto número de pessoas que a procuraram para fazer cobertura de cicatrizes. “Toda semana aparecem clientes que querem cobrir suas marcas. E a maioria, por conta da depressão”, afirma.

Não são apenas mulheres, mas elas são maioria e também jovens, entre 16 e 24 anos. Por isso, a tatuadora decidiu fazer um trabalho direcionado para esse público, e lançou o Projeto Continue, que tem valor simbólico para quem precisa cobrir cicatrizes. 

Para fazer a cobertura, Beni explica que é preciso entrar em contato via whatsapp ou e-mail. “Pedimos uma foto da marca e o que gostaria de tatuar no local. A partir daí, criamos uma arte exclusiva para cada pessoa, com um desenho que goste, por um valor simbólico e com muito amor e carinho.” 

Sobre as pessoas que precisam cobrir as cicatrizes, a tatuadora conta que 90% são ferimentos no pulso e antebraço, por automutilação.

“Nunca atendi como ferimentos provocados por terceiros, mas esses ferimentos, geralmente, tiveram ajuda negativa de outras pessoas, até mesmo familiares que não deram apoio necessário. Então, de certa forma, elas fizeram isso por causa de outras pessoas.”

Para fazer parte do projeto, enviar e-mail para outbacktatuaria@gmail.com ou pelo whastapp 99826-8502

Tatuadora Beni Urbano – Foto: Amanda Nouals/Divulgação

Entrevista com a psicóloga e mestre em educação, Vivian Fatima de Oliveira

Essencial_ Qual a explicação para a automutilação? 

Vivian_ A automutilação poderá ocorrer em pessoas de diferentes faixas etárias, porém, está cada vez mais comum entre crianças e adolescentes. No Brasil, não há dados exatos sobre a incidência dessa prática, embora a percepção seja de um aumento considerável de casos em escolas e em consultórios de saúde mental.  

Está relacionada a doenças como depressão e ansiedade?

O Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais – DSM – 5, classifica a automutilação no campo dos fenômenos sintomáticos que poderão manifestar-se como comorbidades (associados) em diversos transtornos conhecidos, como Transtornos do Neurodesenvolvimento, Transtornos Dissociativos de Identidade (comportamento autolesivo predominante em mulheres) e Transtorno de Personalidade Borderline.

A Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde – CID-10, por sua vez, insere no transtorno de personalidade com instabilidade emocional, subdividido em transtorno da personalidade agressiva, borderline e explosiva o “comportamento autodestrutivo, compreendendo tentativas de suicídio e gestos suicidas”.

As hipóteses previstas nos manuais descrevem ausência de compreensão geral sobre a automutilação. Portanto, salienta-se a necessidade em analisar cada caso, inclusive, os que não estão associados com esses transtornos citados.

Por exemplo, há relatos de adolescentes que mencionam, devido a dor psicológica, que automutilar-se poderá causar uma grande dor física a tal ponto de alguns instantes essa última dor sobrepor-se à dor emocional, ou seja, desvia-se o foco para uma dor diferente, porém sem resolutividade alguma se não for procurada ajuda profissional.    

Como tratar?

Além do suporte familiar, o tratamento requer auxílio com profissionais da área de saúde mental, como psicólogos e psiquiatras e, no serviço público, temos disponíveis  os CAPs (Centro de Atenção Psicossocial), em que o CAPSi atende o público infanto-juvenil, é um serviço denominado porta aberta, ou seja, não é necessário passar por filas para atendimentos, apenas procurar o serviço e agendar a triagem. 

O que a família pode fazer para identificar uma criança ou adolescente que se automutila? 

Importante a família identificar mudanças de comportamento e de humor, um possível isolamento em casa e também uso de mangas compridas em pleno calor para esconder as marcas.

Caso as marcas estejam bem aparentes, a pessoa pode estar “gritando” por um pedido de ajuda, de todas as formas, não banalizem essa condição, pois requer muita atenção, acolhimento e cuidado.

Familiares podem monitorar as conversas e amizades dos filhos, bem como os sites procurados, pois, infelizmente, a internet pode ensinar e propagar esse tipo de comportamento.

Importante evidenciar que a automutilação ocorre muitas vezes no espaço escolar, então, este alerta serve para, professores, coordenadores pedagógicos e demais profissionais da educação, para serem mediadores e informarem a família e também encontrarem maneiras de ações preventivas no campo educacional em parceria com a saúde mental.

Psicóloga Vivian – Foto: Divulgação

Saiba onde procurar ajuda

O  Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (CAPSi) na Rua Coronel Córdova, próximo ao Colégio Bom Jesus, em Lages, recebe a demanda de adolescentes e jovens até 18 anos,  com transtornos mentais e dependência química. 

Alto lesão e tentativa de suicídio são atendidas no CAPSi, segundo Janaina Schlickmann de Souza, psicóloga e gerente de saúde mental da Secretaria de Saúde de Lages.

Não é necessário encaminhamento prévio, o familiar ou o adolescente pode acessar o serviço na hora que quiser. O local atende de segunda-feira a sexta-feira das 8 às 17h, sem fechar ao meio dia. 

“Se for demanda para CAPSi, vai ingressar no serviço, passar por uma avaliação multiprofissional, e pelo médico, se for necessário”, explica Janaína.

O atendimento, prioritariamente, é em grupos terapêuticos, situações mais delicadas são direcionadas para atendimento individualizado. Por conta da Covid-19, orienta-se que não haja aglomerações, por isso, os grupos estão, temporariamente, cancelados. Quem precisar, pode ligar para 3251-7965.

 

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