Coronavírus

Economia x Saúde, o desafio é encontrar o equilíbrio

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O pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) em rede nacional na noite de terça-feira (24), no qual posicionou-se contra o isolamento social decretado em alguns estados e referiu-se aos casos de Covid-19 no Brasil como uma “gripezinha”, gerou reações adversas em todo o país.

Desde então, várias autoridades e entidades representativas da saúde têm se posicionado publicamente contra a fala do presidente. Contudo, por outro lado, em várias cidades pessoas voltaram a transitar com normalidade pelas ruas – fazendo até mesmo carreatas em apoio ao presidente – e entidades empresariais passaram a pressionar os governantes estaduais pela reabertura das atividades econômicas.

Em Santa Catarina, 51 entidades, dentre elas a Associação Empresarial de Lages (Acil), reuniram-se e formaram o Movimento de Entidades Reage SC, que tem como objetivo a retomada da atividade econômica produtiva no Estado, mas que reforça a necessidade de proteger as vidas dos cidadãos. A iniciativa foi das Associações Empresariais de Lages (Acil) e Florianópolis (Acif), que logo ganhou adeptos por todo o estado.

Em carta enviada ao governador Carlos Moisés da Silva (PSL), na última quarta-feira (25), o grupo reconheceu os esforços do poder público para conter a propagação do novo coronavírus; declarou acreditar que a crise instaurada não é apenas social, mas também econômica; e apontou soluções para retomada da atividade econômica. “A ação de quinta-feira [26] do Governo do Estado foi baseada neste documento! O que gerou diálogo entre entidades empresariais e o poder público estadual”, comenta o presidente da Acil, Carlos Eduardo de Liz, referindo-se às medidas apresentadas pelo governador para retomadas das atividades econômicas, que serão adotadas a partir da próxima semana.

Na carta, as entidades destacam que a decisão pelo isolamento social “desconsidera o enorme impacto humanitário e social de uma recessão econômica profunda, que afeta principalmente os segmentos mais vulneráveis da população”.

A lista de soluções apresentada ao governador Carlos Moisés inclui o início imediato do planejamento da retomada da atividade econômica a partir do dia 30 de março; a alteração do foco estratégico da quarentena e isolamento apenas para os grupos de risco (o chamado lockdown vertical), liberando parte da força de trabalho para retorno às atividades e priorizando, quando possível, o home office; e a determinação do funcionamento das indústrias, do comércio e de serviços, mesmo que seja em regime de escalas com suas equipes alternadas caso o setor produtivo tenha essa possibilidade (adequando a cada tipo de segmento); dentre outras.

 

Acil categorizou prioridades

Carlos Eduardo ressalta que, dentro da Acil, as ações a serem tomadas foram divididas em graves ou urgentes. “As graves dizem respeito à preservação da saúde humana. Isso tem que ser atacado de forma enfática e de primeira monta. É prioritário. Todo ação governamental de ordem social, nós vamos apoiar”, explica. Já a retomada econômica, segundo ele, é considerada uma ação urgente, pois é primordial e precisa andar lado a lado com a prevenção em saúde.

“O que temos como perspectiva é que os governos tenham o bom senso de tratar as regiões conforme suas peculiaridades. Assim sendo, cidades que tenham uma aglomeração maior terão que ser tratadas de forma mais enfática. Lógico que isso num segundo momento, após essa nossa quarentena. A quarentena é essencial para nós nos prepararmos”, comenta Carlos Eduardo.

Sobre o pronunciamento do presidente Bolsonaro, Carlos Eduardo afirmou apenas que vivemos um momento de crise e, por isso, é preciso respeitar todas as ponderações, mesmo as mais radicais. “Esse é um momento em que o diálogo se exacerba, mas mesmo a questão exacerbada deve ser avaliada, porque não existe uma verdade única. Existe um bom senso e um consenso”, completa.

Carlos Eduardo de Liz, presidente da Acil

 

Profissional da saúde apoia modelo adotado em Santa Catarina

O farmacêutico-bioquímico e microbiologista clínico, Caio Roberto Salvino, ressalta que, em meio a uma crise em saúde com as proporções que o novo coronavírus tem causado em todo o mundo, não é possível definir ações exatas e imutáveis, pois as determinações em saúde podem ser alteradas diariamente, de acordo com o comportamento do vírus na sociedade.

“Essa é uma doença nova, causada por um vírus novo, com todo um comportamento que jamais foi visto. A gente está aprendendo tudo em tempo real. O que eu digo hoje, pode não ter validade nenhuma amanhã”, comenta, relembrando que, no final de fevereiro – um mês atrás, quando o primeiro caso de infecção por coronavírus foi confirmado no Brasil, as ações para evitar a propagação do vírus pelo país não eram tão intensas quanto agora.

Segundo ele, o isolamento social teve uma importância muito grande para conter o avanço da Covid-19 no Brasil, porém, é algo que precisa ser revisto conforme as semanas avançam. Ele explica que o isolamento social foi adotado como medida para evitar um colapso do sistema de saúde, uma vez que, se muitas pessoas ficarem doentes ao mesmo tempo, poderia faltar leitos hospitalares e respiradores

Para ele, o isolamento social se faz necessário quando a população tem dificuldade em obedecer regras, como é o caso do público brasileiro. Salvino acredita que o lockdown vertical – deixar em isolamento apenas os grupos de risco, que são os idosos e pessoas com comorbidades – é uma opção interessante. Contudo, ele avalia como primordial saber como o Estado pretende controlar o ir e vir das pessoas, pra garantir que, quem deve realmente ficará em casa.

“A ideia do lockdown vertical não é absurda. Ela faz sentido, até porque a ideia do lockdown vertical é que a gente exponha as pessoas ao vírus. Elas poderão adoecer, ou não, e desenvolverão imunidade natural, da mesma maneira que a gente desenvolve imunidade a outros vírus. Isso faria que a economia voltasse a andar, o dinheiro voltasse a circular e as pessoas deixassem de ficar angustiadas por ficar em casa e acabar o dinheiro”, observa, ressaltando que, caso o isolamento parcial seja adotado, a população precisará manter os cuidados com higiene, para não levar o vírus para casa.

Salvino acredita que o modelo adotado pelo governador Carlos Moisés tem sido bastante adequado, e que a opção pelo isolamento social e restrição de atividades foi importante para que o governo pudesse dimensionar os impactos do vírus em Santa Catarina.

“O modelo dele mostra que a inteligência do Estado precisa trabalhar em tempo real. Ele faz os sete dias de isolamento social daí avaliou como proceder nos sete dias seguintes. Nesse meio tempo é possível observar que o governador já mudou o discurso. No começo ele era ríspido, reforçava o quanto é importante ficar em casa. Mas nesta semana ele já liberou alguns setores para trabalhar, pois o estado não pode parar. Ele vai, homeopaticamente, passando de um modelo para o outro, sem que assuste a sociedade. Mas não posso deixar de reforçar o pedido encarecido de que, dia 1º de abril, as pessoas de risco realmente fiquem em casa, e que não se automediquem. E que sintomas de gripe e alterações na respiração devem ser motivo de busca por atendimento médico. Caso essa população de risco comece a ir às ruas desordenadamente, tudo poderá ir por água abaixo”, completa.

Caio Roberto Salvino, microbiologista

 

LEIA NA ÍNTEGRA OFÍCIO DO REAGE SC:

Of. 0001/2020

Florianópolis, SC, 25 de março de 2020.

Ao Senhor CARLOS MOISÉS DA SILVA
Excelentíssimo Governador do Estado de Santa Catarina
Nesta Capital

Senhor Governador,

É consolidado o conhecimento que a pandemia provocada pela COVID-19 tem demonstrado uma capacidade de contaminação incomensurável, inclusive para o setor produtivo mundial, o que não diferentemente se observa em nosso estado.

Notadamente, são louváveis todos os esforços envidados por esse governo no sentido de contenção da pandemia e preservação do todo.

Recentemente, não somente empresários, mas médicos, tem se manifestado no sentido de uma condução mais reconciliatória na retomada rápida da atividade econômica com a minimização do risco associado com a epidemia de Covid-19.

Muito tem sido discutido e proposto em relação ao manejo da pandemia de Covid-19 focando em isolamento social, quarentena, fechamento em massa de empresas e negócios, uma virtual parada da atividade econômica.

Frequentemente esta discussão é colocada de forma bastante simplista, “basta ficar em casa” e “salvar vidas é mais importante do que a economia”.

Isto desconsidera o enorme impacto humanitário e social de uma recessão econômica profunda, que afeta principalmente os segmentos mais vulneráveis da população.

Logo, não há que se negar a existência de nítidas evidências científicas claras de que recessão em países em desenvolvimento, e mesmo em países desenvolvido, aumenta a mortalidade em geral, novamente, em especial nos grupos sociais e economicamente mais vulneráveis.

Ainda, é importante destacar que há tanto uma baixa capacidade de oferta de liquidez às empresas, tendo em vista a condição fiscal dos governos estadual e federal; quanto um possível agravamento do quadro fiscal tendo em vista a queda na arrecadação pelo prolongamento do isolamento e quarentena.

É urgente, portanto, registrar a nossa máxima preocupação em face aos milhões de empregos e milhares de empresas que estarão sucumbindo diante da intensa restrição de convívio social, o que, em nosso entender, pode-se amenizar com algumas das considerações que registramos abaixo:

  1. a) Iniciar imediatamente o planejamento da retomada da atividade econômica, formando um comitê que inclua lideranças empresarias, com objetivo de que a reabertura gradativa aconteça a partir do dia 30/03/2020.
  2. b) Destravar gradativamente os segmentos do setor produtivo para evitar um colapso econômico e social sem precedentes;
  3. c) Focar estratégia de quarentena e isolamento para os grupos de risco, liberando parte da força de trabalho para retorno às atividades, priorizando, quando possível, o home office;
  4. d) Permitir que as empresas operem com horário ampliado, para evitar aglomerações e possam distribuir os atendimentos;
  5. e) Determinar o funcionamento das indústrias, do comércio e de serviços, mesmo que seja em regime de escalas com suas equipes alternadas caso o setor produtivo tenha essa possibilidade (adequando a cada tipo de segmento);
  6. f) Determinar que os segmentos de serviços, comércio varejista e atacadista, que mantenham o controle de acesso dos clientes respeitando as distâncias mínimas e fornecendo meios para a higienização dos colaboradores e clientes;
  7. g) Fornecer equipamentos de proteção para os colaboradores de vendas, produção e entrega, os quais possam, de alguma forma ter contato com outras pessoas;
  8. h) Garantir aos colaboradores que se enquadram no grupo de risco fiquem de quarentena;
  9. i) Retorno de atendimento mínimos em todas os órgãos da administração pública direta;
  10. j) Criação de canais de atendimento via whatsapp, telefone e e-mail por parte de todos os órgãos estaduais, para recebimento de documentos e solicitações, com atendimento imediato, maximizando a automatização dos processos e a digitalização do governo;
  11. k) Veto de qualquer legislação que controle preços de mercado, por compreender que resultam inevitavelmente em redução de oferta e escassez de produtos essenciais, bem como que são inválidos por inconstitucionalidade;
  12. l) Possibilidade de retirada de produtos no local, através e sistema de drive-thru ou outro ponto no estabelecimento;
  13. m) Campanhas publicitárias de conscientização sobre a necessidade de retomada econômica e de minimização do medo de sair de casa incutido na população pelo momento pandêmico atual, proporcionando que as populações de baixo risco voltem a circular e viver suas vidas de maneira mais próxima do normal.

Entende-se também que medidas para acréscimo da capacidade do sistema de saúde do Estado de Santa Catarina se fazem urgentes, de maneira a contribuir com a flexibilização nas medidas de isolamento social.

Por fim, entendemos que, juntos, podemos seguir mantendo o Pulso de Santa Catarina, protegendo vidas, retomando a atividade econômica produtiva e buscando um futuro para o nosso pujante estado catarinense.

Agradecemos antecipadamente a vossa sensível atenção e pronto atendimento ao presente pleito, cujas organizações signatárias manifestam.

Atenciosamente, MOVIMENTO DE ENTIDADES REAGE SC

  1. ABRAPE – Associação Brasileira de Promotores de Eventos
    2. ABRASEL – SC
    3. ACATE – Associação Catarinenses de Tecnologia
    4. ACATS – Associação Catarinense de Supermercados
    5. ACEPA/CDL – Associação Comercial e Empresarial de Palma Sola
    6. ACIB – Associação Empresarial de Blumenau
    7. ACIBIG – Associação Empresarial e Cultural de Biguaçu
    8. ACIC -Associação Comercial e Industrial de Chapecó
    9. ACIC – Associação Empresarial de Canoinhas
    10. ACIC – Associação Empresarial de Criciúma
    11. ACID – Associação Comercial e Industrial de Descanso
    12. ACIF – Associação Empresarial de Florianópolis
    13. ACIG – Associação Empresarial de Gaspar
    14. ACII – Associação Comercial e Industrial de Itajaí
    15. ACIIO – Associação do Comércio e Indústria de Iporã do Oeste
    16. ACITA – Associação Comercial e Industrial de Itá
    17. ACIL – Associação Comercial e Industrial de Lages
    18. ACIM – Associação Empresarial de Mondaí
    19. ACIP – Associação Comercial e Industrial de Palmitos
    20. ACIP – Associação Empresarial de Palhoça
    21. ACIP – Associação Empresarial de Pomerode
    22. ACIP – Associação Comercial e Industrial de Pinhalzinho
    23. ACIPG – Associação Empresarial de Presidente Getúlio
    24. ACIRS – Associação Empresarial de Rio do Sul
    25. ACISA-CP – Associação Comercial e Industrial de Cunha Porã
    26. ACIS – Associação Comercial e Industrial de Seara
    27. ACIS – Associação Comercial e Industrial de Sertãozinho
    28. ACISJO – Associação Comercial e Industrial de São João do Oeste
    29. ACISMO – Associação Empresarial de São Miguel do Oeste
    30. ACIT – Associação Comercial e Industrial de Tijucas
    31. ACITC – Associação Comercial e Industrial de Trombudo Central
    32. ACIUR – Associação Empresarial de Urubici
    33. ACIX – Associação Comercial e Industrial de Xavantina
    34. ACIVALE – Braço do Norte
    35. ADVB – SC
    36. ADAC – Associação de Distribuidores e Atacadistas Catarinenses
    37. AE – Associação Empresarial de Maravilha
    38. AEA – Associação Empresarial de Agrolândia
    39. AEMFLO – CDL / SÃO JOSÉ
    40. AECF – Associação Empresarial de Coronel Freitas
    41. AMI – Associação do Município de Iraceminha
    42. ASSEMIT – Associação dos Empresários de Itapiranga
    43. AVIP – Associação Visite Pomerode
    44. CDL – FLORIANÓPOLIS
    45. CDL – CHAPECÓ
    46. CEC – Centro Empresarial de Chapecó
    47. FACISC – Federação das Associações Empresariais de SC
    48. FECOMERCIO – Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo de Santa Catarina
    49. FORTUR – Fórum de Turismo de Florianópolis
    50. FLORIPA SUSTENTÁVEL
    51. SEBRAE – SC
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