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Janeiro Branco visa alertar a população sobre os cuidados com a saúde mental

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Foto: Marcela Ramos

Janeiro tem por hábito ser um mês de planejamentos, mas, antes, é importante lembrar que a saúde mental deve estar em dia. Esse é o principal objetivo da campanha Janeiro Branco: chamar atenção para a saúde mental e promover conhecimento e compreensão sobre temas como depressão, transtorno de ansiedade e fobias.

A campanha é dedicada a convidar as pessoas a pensarem sobre suas vidas, o sentido e o propósito, a qualidade dos seus relacionamentos e o quanto elas conhecem sobre si mesmas, suas emoções, seus pensamentos e sobre os seus comportamentos. E para ajudar a compreender tudo isso, existe os profissionais da saúde, como psicólogos e psiquiatras. 

Para a psiquiatra Inês Gullich, a campanha  é extremamente importante para desmistificar a questão das doenças mentais, levando mais informações à população e orientar sobre a importância de procurar ajuda psiquiátrica. “Precisamos entender que a saúde mental é essencial para uma vida com qualidade e que procurar,  por exemplo, um médico psiquiatra não é só coisa de louco, e sim coisa de quem busca saúde e qualidade de vida”, afirma.

Além disso, a médica psiquiatra lamenta por a região da Serra Catarinense não ter um hospital psiquiátrico, assim os pacientes, que apresentam casos graves e necessitam de internamento, são encaminhados para longe, e, consequentemente, acabam ficando longe de casa e da família.

Também explica que após o diagnóstico, é feito um pedido de internação, a qual é encaminhado para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e, então, a UPA insere o paciente na lista do Sistema de Regulação (Sisreg). Quando surge alguma vaga, em algum lugar de Santa Catarina, o paciente é internado. “Nossa região está carente de lugares para internação, e isso nos deixa num estágio de desassistência. Até o paciente conseguir um lugar para internamento, demora muito.”

O único hospital que era referência para atendimentos psiquiátricos em toda a Serra Catarinense, era o Hospital São José, em Bocaina do Sul. Em sua lotação máxima, chegava a atender 70 internamentos, mas nos últimos dias que antecederam o seu fechamento, estava com capacidade para 30.

Em 2014, foi interditado pela Vigilância Sanitária do Estado, pois a estrutura já não estava apta para receber pacientes. Além disso, apresentava problemas nas partes elétrica e hidráulica. Com as portas fechadas, os pacientes psiquiátricos da Serra precisam ser encaminhados para outras cidades no Estado, de acordo com a disponibilidade de leitos.

A secretária de Saúde Waldrich explica que Lages oferece quatro serviços de saúde mental: Centro de Atenção Psicossocial Infantojuvenil (Caps I), Centro de Atenção Psicossocial (Caps II), Centro de Atenção Psicossocial Álcool e outras Drogas (CapsAd) e o Residencial Terapêutico.

Ela também comenta que não têm filas para o atendimento. “Todo o paciente que chegar será atendido nesses Caps. Todos eles têm médico psiquiatra e a equipe multifuncional, com enfermeiro e assistente social, técnico de enfermagem, artesão, médico e psicóloga, que dão suporte para os pacientes e familiares”. Além da equipe multifuncional, os Caps disponibilizam um carro para buscar e levar os pacientes. 

Em Lages, segundo Odila, são mais de 900 pacientes nos três Caps. E uma média de 40 a 60 estão aguardando leitos. “Temos uma dificuldade muito grande para o internamento desses pacientes”, conclui Odila.

Entrevista 

Psiquiatra Inês Gullich  

Quais os casos mais atendidos? 

Os problemas mais frequentes que atendo em meu consultório, em primeiro lugar, são de ansiedade. Inclusive, foi uma surpresa para mim. Pois quando abri o consultório, pensava que ia atender mais casos de depressão do que ansiedade.

Dentro dos transtornos ansiosos têm os seus subtipos: o pânico e a ansiedade generalizada. Em segundo lugar, são os transtornos de humor: Depressão e Bipolaridade. Em terceiro lugar, é a dependência química, a qual engloba todas as drogas. E, em quarto lugar, são as psicoses ou transtornos psicóticos.

Quando o paciente precisa de internamento? 

Casos de depressão grave, transtornos bipolares e mania. A pessoa precisa de uma internação, como quando a pessoa tem pânico e não consegue mais trabalhar, não consegue sair de casa, já está em uma fase estagnada e não consegue mais fazer nada.  Em casos de psicose, quando o paciente tem alucinações, perdeu a noção da realidade, comum em esquizofrenia.

Nos transtornos de alimentação, quando a pessoa têm bulimia e anorexia, a qual a pessoa se encontra num estágio de Índice de Massa Corporal (IMC) muito baixo. E o mais importante de todos, tentativa de suicídio! Toda tentativa de suicídio deveria ser tratada com internação. São todos esses casos que precisam de internamento.

Por que o paciente precisa ser internado? 

Porque em psiquiatria, geralmente, os remédios demoram alguns dias para fazer efeito, uma média de 15 dias. Nesse tempo, é uma forma de proteger a pessoa no hospital psiquiátrico, pois ela estará recebendo a medicação correta no horário correto e também estará sob vigilância, para que ela não cometa nenhum ato perigoso. 

Qual grupo você mais atende? 

A doença mental ocorre em todas as faixas etárias. Mas existe uma maior incidência nos jovens e nos idosos. As mulheres também são mais acometidas por doenças psiquiátricas. 

Qual a recomendação para os pais de adolescentes e jovens?

Recomendo que eles fiquem mais atentos e presentes na vida dos filhos. Atendo vários adolescentes com casos de tentativas graves de suicídio. Aí os pais me dizem que não perceberam nada de diferente, mas quando você conversa e detalha a história, você percebe que sim, existiam os sinais. O adolescente estava recluso, não saia mais do quarto, não tinha mais amigos, ficava sem tomar banho e tinha alimentação inadequada. Muitos pais pensam que é apenas uma fase. Vale um alerta, para os pais prestarem mais atenção em seus filhos. 

A situação é que em muito lares, a TV, o videogame, o celular, substituem a conversa. Temos jovens que ficam 24h conectados, mas de forma virtual. Eles não estão ali convivendo com o pai e a mãe de forma presente emocionalmente, apenas fisicamente. Isso pesa bastante, pois a adolescência é uma fase de muitas influências. 

Quando procurar ajudar? 

Se você tiver algum sintoma que esteja prejudicando a tua vida busque ajuda. Por exemplo, a ansiedade. Ela é um problema? Não, pois é normal ter ansiedade, todo mundo tem, mas até um determinado ponto. Pois a ansiedade normal faz você evoluir na vida. Mas se a ansiedade é tão grande e está impedindo você de fazer as coisas, então, você precisa procurar ajuda. 

Um outro exemplo é a depressão, todo mundo tem seus dias tristes, é normal ficar triste. O problema é quando essa tristeza dura mais de duas semanas e lhe derruba, e tudo começa ficar difícil. Sair de casa é difícil, se arrumar é difícil, ir trabalhar é difícil, começa ficar irritado com tudo e nada está bom e a vida simplesmente perde o colorido.

A pessoa precisa buscar ajuda, e se propor a fazer o tratamento de maneira correta. Pois a psiquiatria é a área mais linda da medicina, ainda é uma arte, pois resolvemos os problemas por meio da conversa e, através desse diálogo, nós psiquiatras escolhemos os medicamentos de forma individualizada para cada paciente. 

No Brasil

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) mostram que 5,8% dos brasileiros sofrem de depressão taxa que está acima da média global (4,4%). Estima-se, ainda, que entre 20% e 25% da população teve, tem ou terá depressão, sendo essa a doença psiquiátrica com maior prevalência no Brasil. 

 

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