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Viagem em busca do passado

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Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação

Desde criança, Limor Bergman sabe que é adotada. À época, mesmo ao questionar os pais e se interessar pelo assunto, não tinha ideia de que ela e sua família haviam sido alvo de um grande esquema de tráfico de bebês no Brasil. Foi na adolescência, ao investigar, que descobriu a falsidade dos dados. Sofreu bullying na escola, por ser adotada do Brasil.

Hoje, aos 28 anos, Limor quer saber quem são seus pais biológicos, o que motivou a lhe doar e como funcionou todo o esquema no País. 

Em dezembro de 1990, um mês depois do bebê nascer, a mãe adotiva de Limor, que é de Eilat, em Israel, viajou ao Brasil para o dia tão sonhado e esperado. O dia em que pegaria nos braços o bebê que não pôde gerar em seu ventre. 

Os pais de Limor não sabiam que os documentos e passaportes eram falsos, nem tão pouco que a adoção era ilegal e que estava envolvida com tráfico de bebês. Ao viajar para o Brasil, sozinha, a mãe se deparou com uma situação que não esperava. Dois traficantes estavam com o bebê, e ao fazer o check-in, a mãe teve problemas, pois não estava com os documentos. Neste instante, a companhia aérea solicitou a Polícia Federal. Eles fugiram para um hotel. 

Dois dias depois, os traficantes, segundo relato, subornaram uma outra companhia aérea e conseguiram fazer com que mãe e bebê embarcasse para Israel com a filha nos braços. “Não teve nenhuma fiscalização. Meus pais me contam que uma mediadora de Israel organizou um hotel para que ela se hospedasse no Brasil. Quando ela me viu, sentiu uma conexão e quis me adotar”.

Para que fosse possível escrever essa matéria, eu e Limor contamos com o apoio de Fernando Silva, de 27 anos, um paulista, de Cotia, que mora há cinco anos na mesma cidade de Limor. Os dois se conheceram por um amigo em comum. Como Fernando é estudante de cinema e televisão, em Israel, viu na história de Limor potencial para transformar em documentário a saga dela em busca da família biológica. 

Há oito meses, começaram as gravações. Entre os relatos e documentos, todos os caminhos levam Limor à Santa Catarina. Assim, começara uma corrida para arrecadar dinheiro, quando se foram três meses, até o dia 26 de junho para conseguir recursos para pagar passagem aos dois e também a Daniel Campos, colega de faculdade de Fernando, venezuelano que vive em Israel desde criança. Ele será o cinegrafista. 

A viagem para Santa Catarina, em busca da família biológica para entender o passado de Limor, está marcada para 26 de agosto. O trio deve passar por São Paulo, Curitiba e, por fim, Santa Catarina. Para isso, Limor pede ajuda a quem tenha uma história de roubo de bebê no ano de 1990, na região de Barra Velha, que entre em contato e a ajude encontrar seus pais biológicos a registrar sua história. Eles pretendem conversar com famílias que perderam os bebês para gravar e, também, convidar para fazerem os exames de DNA.

“Não tenho provas, tenho informações. A advogada que conectou meus pais aos vendedores de crianças falou comigo no telefone, disse que os documentos são falsos e que eu não tenho como encontrar minha família biológica. A mesma advogada foi responsável pela adoção ilegal de muitos brasileiros em Israel, todos a conhecem e sabem que trabalhou com Arlete Hilu”, comenta a jovem.

Na década de 1980, Curitiba ficou famosa por abrigar um das maiores grupos de tráfico de crianças do país. Arlete Hilu era considerada a principal responsável pela quadrilha e chegou a ser presa naquela mesma década. Estima-se que 3 mil crianças tenham sido enviadas somente para Israel, mas havia receptadores também no Canadá e Estados Unidos.

As crianças da Região Sul do Brasil eram as mais desejadas por serem brancas. As que tinham olhos claros valiam mais neste mercado. Limor só tem a foto do passaporte, que ela nem sabe se trata dela mesma. Os documentos são totalmente falsos. Para enviar um vídeo ao Correio Lageano, Fernando treinou com Limor o vocabulário português. 

Tráfico internacional

Um novo relatório da ONU revelou em janeiro que o tráfico de pessoas está avançando no mundo, com a exploração sexual das vítimas sendo a principal causa por trás do fenômeno. Segundo o levantamento, que analisou dados de 142 países, as crianças representam 30% de todos os indivíduos traficados, com o número de meninas afetadas sendo bem maior que o de meninos.

Produzida pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), a pesquisa aponta um crescimento consistente na quantidade de pessoas traficadas desde 2010. A Ásia e as Américas foram as duas regiões com o maior aumento de vítimas detectadas. Isso pode ser explicado por melhorias nos meios de identificação e registro de dados sobre o crime ou por uma elevação real na quantidade de vítimas.

Segundo o documento, em 2016, quase 25 mil pessoas foram traficadas no planeta — 70% eram do sexo feminino, com as meninas representando 20% de todas as vítimas em nível mundial. A exploração sexual continua sendo o principal objetivo do tráfico e responde por cerca de 59% do total dos casos. O trabalho forçado foi identificado em 34% das ocorrências.

Para meninas e meninos, um padrão diferente foi detectado. Embora as crianças sejam em sua maioria vítimas do tráfico para trabalhos forçados (50%), muitas também são vítimas de exploração sexual (27%) e outras formas de exploração, como mendicância forçada, recrutamento em tropas e grupos armados e atividades criminosas forçadas. As meninas foram vítimas de exploração sexual em 72% dos episódios analisados. Casos de trabalho forçado envolvendo as jovens menores de idade equivaliam a 21% do total.

 

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