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Entrevista com o vereador Jair Junior

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Foto: Marcela Ramos

A pouco mais de um ano das eleições municipais, o Correio Lageano inicia uma série de entrevistas com os vereadores de Lages. A ideia é fazer com que o eleitor conheça os legisladores que, atualmente, são os responsáveis em elaborar as leis da nossa cidade, já que muitos deles devem se candidatar à reeleição e também, porque já se colocam os nomes à disposição à candidatura a prefeito da maior cidade da Serra Catarinense.

As entrevistas serão publicadas às segundas-feiras. Destacando que todas elas já foram gravadas e serão publicadas na ordem em que ocorreram. A primeira conversa foi com Jair Júnior, do PSD. A entrevista com ele aconteceu no início do mês de junho. 

Correio Lageano: O senhor é do PSD, partido do ex-governador Raimundo Colombo e do prefeito de Lages, Antonio Ceron. Por que o senhor escolheu esse partido para se candidatar ao cargo de vereador?

Jair Júnior: Na realidade, porque é necessário um partido para ser candidato. Não é possível candidatura avulsa, teria que escolher um partido entre as agremiações com chance em Lages. Fui (para o PSD) por ‘N’ fatores, sou filiado ao PSD desde 2011 quando foi criado o partido (a sigla existia no século XX, era o partido de Nereu Ramos), tinha identificação pela postura mais democrática, e também porque o PSD iria eleger uma bancada grande e a chance de ser eleito era maior. 

Que idade o senhor tinha quando se filiou ao PSD? Foi sua primeira filiação?

Eu tinha 16 anos. Sim. 

Agora, o senhor quer sair do partido?

Não necessariamente. Há dentro do partido um isolamento pela minha postura, acreditam que a minha postura prejudica o governo. 

Como o senhor explicaria esse isolamento?

Por exemplo, eu fui líder do partido durante seis meses (fevereiro a agosto de 2017) na Câmara e o estatuto do partido diz que, em todas as reuniões do Executivo, o líder do partido tem de ser convocado, e avisei o presidente (do partido) e em nenhuma das reuniões fui convocado. 

O senhor considera que a sua atitude de oposição ao Executivo foi mais pelo isolamento ou sua postura na Câmara causou o isolamento?

Na realidade a minha postura não é de oposição, ‘a gente’, na Câmara, tenta ajudar o prefeito, tenta apontar as falhas e o que tem de melhorar. O prefeito foi eleito democraticamente e tem que cumprir o mandato dele. ‘A gente’ tem de respeitar a vontade das urnas. Mas fui eleito para cobrar posturas corretas do prefeito, do secretariado e da gestão. Acredito que, pela minha postura, não identificada como isso, ou talvez o partido queria um cordeirinho na Câmara, por conta disso causou esse isolamento, o que ocasionou uma postura mais crítica da minha parte. 

O senhor não ficou com receio de ser expulso do partido?

Não, porque pela lei da infidelidade partidária, se me expulsarem, eu não perco o mandato. Não tenho medo de expulsão, até porque, não tem causa para isso. Criticar o secretário que comete uma irregularidade não é causa para expulsão. O estatuto não diz isso. 

O senhor acha que algumas vezes exagerou, julgando atitudes, indo além de fiscalizar, já dando o veredito das situações?

Tudo que ‘a gente’ levantou foi com base em provas. Recebo três ou quatro denúncias por semana no meu gabinete, não damos andamentos a todas, filtramos. Das denúncias que ‘a gente’ recebe, somente 1% damos andamento. Tem muitas irregularidades, difícil é  provar, o que efetivamente conseguimos provar, divulgamos. Tudo que fiz, tudo que divulguei foi com base em provas, não em achismos. 

O impeachment do vice-prefeito Juliano Polese não saiu.

Não saiu porque foi uma vontade política, é um processo político-administrativo. Poderia o Juliano ter roubado e desviado milhões, se a Câmara votar que não, é não. ‘A gente’ sabe que a vontade lá é uma vontade política. O processo teve andamento porque tinha respaldo jurídico. Eu fiz uma peça muito bem fundamentada, de 11 páginas, com base em fatos jurídicos, mas o julgamento não é jurídico, se fosse assim, seria um julgamento no Fórum [Justiça]. 

O Ministério Público está investigando?

Sim. Todas as denúncias que ‘a gente’ levou ao Ministério. 

Em que situação estão?

Todas foram dadas [seguimento] a inquérito civil. Por exemplo, do nepotismo do Juliano [Polese, vice-prefeito], o Ministério Público orientou que demitisse, e foram demitidos o cunhado e a esposa dele. 

O senhor não acha que faz um pouco de alarde demais nessas questões. O papel é fiscalizar, mas o senhor não estaria exagerando na hora de divulgar isso, como se fosse uma espécie de salvador da pátria?

Não, porque o povo tem de saber o que acontece, e o povo tem de saber quando tem irregularidade. O povo me paga para isso, e para a gestão agir de acordo com a lei. Qualquer alarde, qualquer divulgação, não pequena, o povo tem de saber. 

Então o senhor está em um partido que comete irregularidades?

O partido não, as pessoas que estão no partido, sim. 

Esse seria um motivo para o senhor sair ou o isolamento?

Também o fato do isolamento, esse o maior motivo. 

Para que partido o senhor pretende ir?

Não tem definição ainda, porque está longe ainda [a janela partidária é abril de 2020]. 

PDT e PSL são possibilidades?

Há vários convites, de 13 agremiações partidárias. Convite tem. Mas isso vou analisar mais à frente. 

Algumas pessoas têm um pouco de dificuldade em entender o que é esquerda, direita e centro, na política. O senhor está mais à direita ou mais à esquerda?

Mais ao centro, na realidade. Vejo benesses de ambos os lados, me preocupo com a parte social, e tenho algumas preocupações com a parte econômica que são mais liberais. 

O senhor é situação na Câmara de Vereadores, mas a sensação é que se comporta como oposição. No Diretório Central do Estudante (DCE) da Uniplac, o senhor batia de frente com a Reitoria. Faz parte da sua característica, o confronto? 

É um pouco da característica também, mas se formos analisar os projetos que vêm do prefeito, de 10 projetos, um eu voto contra. É uma pequena parcela que ‘a gente’ se opõe. O prefeito não faz só coisa ruim, não são encaminhadas apenas leis ruins para a Câmara, há leis muito boas. A gente não é a favor de todas, e não achamos que tudo que o prefeito faz é bom. Sou rotulado como oposição porque não há oposição na Câmara. Se tivesse uma oposição formada, essa sim seria a oposição. Eu não sou contra tudo e contra todos. 

Quantas vezes o senhor sentou com o Executivo, como vereador?

A gente conversa com o prefeito. Na semana passada, inclusive, encontrei ele na visita às obras da UPA [essa entrevista foi realizada em junho] e conversamos um pouco. 

E no gabinete, quantas vezes o senhor foi?

Talvez umas, não sei se saberei contar, sete ou oito vezes.

Como que o senhor vê o diálogo do Executivo com o Legislativo, acha importante?

Sim, com toda a certeza. Mas se tem hoje? O responsável pelos diálogos entre Executivo e Legislativo é o líder do governo. Mudou até a liderança do governo [vereador Jean Pierre] e eles continuam tentando empurrar projetos “goela abaixo’. O líder do governo traz projetos, às vezes, na segunda para votar na terça. 

A sua atuação ficou muito marcada pela fiscalização, o pedido do Impeachment do vice-prefeito, questões com secretários. Esse é o papel do vereador, na sua opinião?

A principal função do vereador é essa, de fiscalização. 

E quais seriam as outras?

Propor projetos de lei, que não onerem os cofres públicos, e isso restringe bastante a função do vereador. A Constituição Federal dá muito poder para a União, menos poder para o Estado e menos poder ainda para o município. Ao município compete uma pequena parte da legislação e, dessa pequena parte, compete aos vereadores menos ainda, que é fazer leis de interesse municipal que não mexam em dinheiro, então, a gente só pode disciplinar a vida da pessoas. 

Sendo do mesmo partido do prefeito, tem certas vantagens, de sentar e conversar sobre projetos. O senhor não usou dessa vantagem para propor algum projeto?

Teve projeto de lei que foi aprovado na Câmara e vetado pelo Executivo. 

Nesse sentido, o senhor não conversou com o prefeito e usou dessa vantagem em benefício desse projeto?

Na realidade é o seguinte, projeto oriundo da Câmara de Vereadores pode ser projeto que não envolva dinheiro, só pode projeto para disciplinar a vida das pessoas. No meu ponto de vista, já tem leis demais. Eu ficar na Câmara sendo um fazedor de leis? Não vou ser. Por conta disso, essa não é uma vantagem. A função que o povo quer que eu execute é a que prometi em campanha, de fiscalizar. O vereador pode fazer lei? Pode. Mas eu, antes de fazer leis, tento adaptar as leis que o Executivo manda, proponho muitas emendas. Acho que a gente pode melhorar as leis que o Executivo manda. Mas leis minhas, propusemos algumas, a maioria não passa na Câmara, três foram aprovadas. Penso que não tenho que me concentrar em ficar fazendo leis e disciplinado a vida das pessoas. Já temos um estado muito burocrático. Temos que fazer as leis serem cumpridas e aperfeiçoar as que têm. 

O senhor é um vereador conhecido como fiscalizador, que projetos o senhor propôs que mude a vida da comunidade?

Foram três projetos de leis aprovados. Um foi matéria do jornal Correio Lageano, que a gente disciplinou o uso das mesas na Via Gastronomia. Um projeto que permite que a prefeitura limpe terrenos baldios, multe e cobre a limpeza do proprietário. E um que refere-se aos funcionários da Câmara que são obrigados a serem ficha limpa. Apresentei mais 33, se não estou enganado, um deles que também teve no Rio de Janeiro, que foi declarado constitucional pelo STF (Superior Tribunal Federal), obrigando a prefeitura a colocar câmeras de vigilância nas escolas. Aqui não passou na Comissão de Constituição da Câmara. 

O senhor acha importante colocar câmera de vigilância nas escolas?

Sim, nos portões de entrada e saída. A gente propôs também a diminuição do recesso parlamentar de 60 para 30 dias, que não foi aprovado. Teve outro projetos que posso mandar para você.

O senhor comentou que vários não foram aprovados na Câmara. O senhor sente que tem dificuldade com os vereadores?

Absolutamente. A maioria está a serviço do Executivo, mesmo quem não é o partido do prefeito. Quando estão a serviço do Executivo, só aprovam aquilo que o ele quer. 

O senhor está sozinho na Câmara, ou tem alguns vereadores que propõem algo juntos?

Tem alguns vereadores que a gente tem um bloco informal, Amarildo (PT), Bruno Hartmann (PSDB), Bugre (Osni Freitas-PDT), Ivanildo Pereira (PL). 

Um bloco de resistência?

A gente se considera um bloco independente, não estamos atrelados à vontade do Executivo. 

O senhor recebe muitas críticas das pessoas do seu partido, pela sua postura?

Muitas

O senhor fica incomodado?

Não, porque ‘a gente’ recebe uma resposta positiva das pessoas. É natural, quando a gente começa a criticar uma gestão, há críticas por parte da gestão. Apensar que não seja todo mundo da gestão, tem pessoas que elogiam nossa postura. Quando a população começa a dar resposta positiva percebemos que estamos no caminho certo. 

Voltando à questão da sua saída, não está certo que o senhor sairá do PSD?

Não está decidido, farei isso em março (2020). 

O senhor admite que há uma situação complicada dentro do partido?

Sim, muito complicada. 

O senhor é muito atuante nas mídias sociais, há quem diga que o senhor é o responsável pelo movimento Lages Livre. O senhor faz parte desse movimento?

Não. A página (Facebook) existe desde 2014 e o movimento Lages Livre critica a gestão municipal e a estadual também, críticas para todos os lados. Como ‘a gente’ critica bastante a gestão municipal, colocam vídeos nossos, como colocam de outros vereadores também. Não tem partido nenhum do Movimento Lages Livre. 

São atribuídas ao senhor, outras páginas no Facebook, para criticar a administração municipal. O senhor tem páginas no Facebook para fazer críticas?

Não. Já provei por ‘A mais B’ que o que preciso falar eu falo. Uso a tribuna, a minha imunidade parlamentar, sempre que preciso, uso também as redes sociais. O que preciso fazer faço com a minha cara. Não preciso criar página e me esconder. 

Foi criado um grupo no Whatssap, ‘Bairros e promessas’, alguns jornalistas foram incluídos, também atribuíram ao senhor a participação. O senhor estava envolvido neste grupo que tinha como proposta denunciar e cobrar melhorias da prefeitura?

Eu fui contratado para fazer um programa, a ideia foi de um cidadão, eu só iria apresentar o programa. O nome do programa era Bairros e promessas. Ele não conseguiu vender o programa e foi encerrado. Ele tinha um número (telefone) e criou esse grupo no Whatsapp. Eu não tinha envolvimento, nem sabia, a hora que vi, tinha sido adicionado e o grupo já tinha acabado. Não fui eu que criei, mas a pessoa quem me contratou, Marcelo, o nome dele. 

Todas essas ações no seu mandato, e as críticas nas redes sociais, já é pensando nas próximas eleições em 2020?

Não, falam bastante sobre isso, mas eu, desde o primeiro dia mantive a mesma postura. Não venha dizer que desde o primeiro dia eu já estava em campanha para prefeito. Agora, começou a borbulhar nas redes sociais sobre a campanha do ano que vem, falam meu nome, e de outros também. A minha postura continua a mesma dos anos passados. Eu vou falar em campanha, se for falar, o ano que vem. 

O senhor será candidato a prefeito?

Meu desejo é esse. 

O senhor gostaria de ter, na Câmara, um vereador como o senhor, se fosse o prefeito de Lages?

Sim, porque que vejo a minha postura como um auxílio ao Executivo. Agora, se o prefeito compactua com nepotismo, aí não é culpa do vereador, é culpa do prefeito. Se ele não sabia que tinha nepotismo na administração e na hora que um vereador denuncia, ele exonera, o vereador está ajudando. Se ele não sabia, e a hora que ele sabe, continua com o nepotismo, a culpa não é do vereador. 

O senhor, sendo do partido do prefeito, poderia ter conversado com ele antes de expor a situação. Como vereador da situação não deveria zelar pela administração? O senhor conversou com o prefeito antes?

Foram ações e reações. Algumas ações do Executivo mostraram que não adianta tentar conversar, tem de ser por meio de denúncias. E outra, as irregularidades, elas precisam ser expostas. Não basta, se tem nepotismo lá dentro, o prefeito saber, o fato de o prefeito nomear, a população tem de saber o que está acontecendo. Mais que o prefeito saber, a população também precisa. Eu não sou um leva-e-traz do prefeito. Sou uma voz da população. Na divisão dos poderes, o poder Legislativo representa o povo. Se tem alguma irregularidade temos de expor para o povo. 

Então o prefeito é conivente com o nepotismo?

Acabou sendo conivente com nepotismo. O do caso do Juliano (vice-prefeito) acabou exonerando, mas o Ministério Público teve de pedir. Tem outros casos de nepotismo que estão acontecendo, nepotismo cruzado. 

Em relação aos vereadores?

Também. Eu fiz um vídeo, inclusive, o presidente da Câmara (Vone Scheuermann – MDB) está com a esposa na prefeitura. Apesar de que isso é uma outra discussão, se é nepotismo ou não, mas entendo que, mesmo que não seja ilegal, é imoral, o vereador indicar a esposa para cargo na prefeitura. 

O senhor quer ser prefeito, mas não tem experiência no Executivo, tem no Legislativo e no DCE…

Não falo sobre experiência, talvez não seja o momento, e vou tentar me resguardar. Cuide bem na hora de colocar no jornal porque pode ser considerada campanha antecipada. A respeito do cargo de prefeito, da exigência, se fosse necessário que tivesse uma experiência, seria por concurso público. O cargo é escolhido pela vontade popular, e se o povo entender que eu ou outro, seja alguém que nunca esteve no Poder Executivo, será.  O prefeito está mostrando que experiência não está valendo de nada, porque ele tem uma vasta experiência na área pública e privada e a gestão não é boa. Temos que respeitar a vontade popular. 

Se o senhor fosse candidato, teria algum partido que não faria parte da sua coligação?

De novo, a gente tem de cuidar bastante, por conta da campanha antecipada. Mas o meu pensamento é que, coligações, do modo que está a prefeitura, hoje, não são benéficas. O prefeito fez coligação com 12 ou 13 partidos, e acabou devendo uma vela para cada santo, nomeando secretários que não são da confiança dele, mas do partido e que ele não pode exonerar. Essas coligações demais não são benéficas. Se eu tenho algum partido que não faço coligação, isso vamos falar lá na frente. 

O seu discurso em relação às negociatas, tem um pouco do que defende o presidente da República Jair Bolsonaro (PSL). O que o senhor acha da postura do presidente e dessa dificuldade que ele tem de dialogar com os poderes. O senhor acha que é necessário o diálogo, o que o senhor defende?

Aí é outro ponto, eu acho que é necessário o diálogo. Tenho uma crítica muito grande aos filhos do Bolsonaro que ficam criticando o chefe dos outros poderes, e é uma coisa que atrapalha. O presidente da República, e quem está na chefia do Poder Executivo, tem de entender que representa todas as esferas, não apenas o seu grupo político. Tem de ter diálogo. Entendo que é possível administrar sem fazer negociatas, muito mais aqui em Lages, em que os vereadores representam mais bairros, e mais parcelas da população. Para o presidente da República é mais difícil administrar, porque há outros interesses, mas aqui no município é mais fácil conversar, porque são bases, vereadores representam bairros e segmentos. 

 

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