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Dívidas abalam saúde emocional e vida social

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58% dos brasileiros passaram a se sentir mais ansiosos depois que ficaram devendo - Foto: Núbia Garcia | Enquete - Fotos: Marcela Ramos

Seis em cada 10 pessoas inadimplentes (58%) passaram a se sentir mais ansiosos depois que ficaram devendo. O dado é resultado de um levantamento feito pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), em todas as capitais do país. De acordo com a pesquisa, além de aprofundar os problemas financeiros, as dívidas em excesso podem ocasionar problemas emocionais e de comportamento, abalando a vida social e a saúde emocional.

O levantamento constatou que 31% dos brasileiros endividados sentem vergonha de parentes e amigos; 22% desenvolveram algum vício (cigarro, comida ou álcool) por causa de dívidas e 41% sofreram com efeitos na autoestima.

Outros sentimentos que a maioria dos inadimplentes passou a vivenciar em algum grau foram a insegurança em não conseguir pagar as dívidas (59%) e o estresse (52%). Há, ainda, uma parcela considerável de devedores que passaram a se sentir angustiados (47%), com sentimento de culpa (46%) e desanimados (41%) após as pendências.

No quesito saúde emocional, os principais efeitos incluem ficar facilmente irritado (40%) ou mal-humorado (40%), além de ter menos vontade de sair e de se socializar (32%). O estudo constatou que as pessoas podem reagir de diferentes formas ao abalo emocional por causa das dívidas. Enquanto uns têm insônia (33%) e mais vontade de comer (26%), outros sofrem com perda de apetite (16%) e vontade de dormir fora do normal (24%).

Outra esfera afetada em decorrência dos atrasos no pagamento de contas é o relacionamento familiar e com amigos. Duas (19%) em cada dez pessoas que devem há mais de 90 dias afirmaram ter ficado desatentas e pouco produtivas no trabalho ou nos estudos, e 15% passaram a perder mais facilmente a paciência com colegas de trabalho. No relacionamento com familiares e amigos, 16% têm estado mais nervosas, cometendo agressões verbais e 8% já partiram até mesmo para agressões físicas.

Comportamento merece atenção e orientação

A psicóloga Cláudia Waltrick Machado Barbosa explica que ninguém gosta de ficar devendo e a maioria não faz isso de propósito, ou seja, na prática, são bons pagadores. Porém, há situações adversas, como uma doença na família, problemas com o carro ou a casa, que culminam no descontrole econômico e em dívidas.

“A gente precisa ter em mente que a dívida é um problema que acarreta outros. A sociedade tem dificuldade para entender que não é confortável e que muitas pessoas não devem porque querem. São circunstâncias que levam às dívidas e isso envolve questões emocionais ligadas aos valores pessoais, culturais e morais, além de processos emocionais muito relevantes”, avalia.

Além da vergonha de familiares e amigos, ansiedade, insônia ou sono em excesso, Cláudia também chama a atenção para quadros mais graves, que podem levar à depressão e, em situações extremas, ao suicídio, por ser visto como uma alternativa rápida para sanar os problemas.

“Há vergonha por não conseguir cumprir com seus deveres e por ver-se com o próprio caráter desmoralizado mediante os outros. As pessoas julgam muito sem conhecer o contexto”, explica.

Geralmente, quando uma pessoa está endividada, ela se esconde e evita falar sobre o problema. Por isso, a psicóloga reforça que é importante identificar os sinais (como as mudanças emocionais) e oferecer ajuda para quem se encontra nesta situação. Esta ajuda pode vir em duas frentes: por meio de consultoria financeira, para organizar as contas, mas também com apoio de um psicólogo.

“A ajuda psicológica é importante para o sujeito tentar entender como entrou nessa situação. Ele tem um transtorno? É compulsivo ou foi a circunstância? Entendendo estas questões, o sujeito vai compreender como sair da situação. A gente trabalha primeiro para entender o por que chegou nesse estado e depois orienta para que busque ajuda de alguém que possa, por exemplo, fazer uma planilha de custos, para dar mais noção de quanto ganha e quanto gasta, quais as contas prioritárias e o que pode tirar do seu dia a dia para conseguir quitar a dívida.”

Para complementar, Cláudia reforça que é preciso desconstruir um mito sobre o endividamento: estes casos são muito comuns em todas as faixas salariais. “O endividamento, mesmo quando se tem dinheiro, pode indicar problemas emocionais muito fortes, conflitos internos, problemas não resolvidos. Para muitas pessoas, comprar é uma forma de preencher aquilo que lhe falta”, completa.

Enquete: Como você se sente quando não consegue pagar uma dívida?

Graciano Gomes, 48 anos, autônomo – “Já aconteceu comigo, me senti muito mal, perdia o sono. Era muita preocupação porque queria pagar, mas não tinha como.”

Marcia Custódia de Souza, 50 anos, professora – “Me sinto frustrada, porque, às vezes, acontece algo que sai da rotina, mesmo que a gente se organize, e isso desestabiliza tudo.”

Alceu Pereira – Fico bem nervoso, a ponto de perder o sono. Graças a Deus, aconteceu poucas vezes e sempre consegui resolver. Hoje tá tudo sob controle.”

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