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#CLentrevista a poeta Marina Mara

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Foto: Jordana Boscato

Correio Lageano: Você trabalha com poesia em diferentes formatos, como grafite, quadrinhos, cinema, artes visuais, teatro, intervenções urbanas. Como é que você faz toda essa mistura e ainda assim dá certo?

Marina Mara: Eu gostaria de ter uma fórmula e passar para as pessoas a forma ideal de expressar a poesia. Mas, na verdade, eu sou tomada por essas linguagens e, às vezes, tem um tipo de poesia que não é bem um poema que precisa estar escrito em um livro, de uma forma tão convencional. Então, às vezes, trabalhar com tirinhas, com estêncil nas ruas, como já coloquei poesia dentro de banheiros, que inclusive foi meu primeiro livro “Saruel Sanitário”, que mesmo com essa intenção de mostrar que assim como o uso de banheiro público a poesia também deveria ser democrática e também deveria estar em todos os lugares. E, desde então, fui experimentando outras linguagens, me formei em Arte e Tecnologia pela UNB. Meu foco foi estudar o aplicativo PoeMap, que é o mapa da poesia do Brasil. Eu criei em 2017, dentro da UNB. Então, a tecnologia e a poesia utilizando as novas linguagens e as novas mídias para poder alcançar um número maior de pessoas.

Quando a gente pensa em poesia, soa como algo erudito. Mas isso é mais um preconceito do que a realidade, porque há diversas formas de fazer poesia, de entender poesia. Fala um pouco disso pra gente.

A poesia tem esse ‘Q’ erudito, essa coisa de estar dentro das paredes, da biblioteca, no silêncio. Mas de uns anos pra cá, a poesia vem passando por um processo de popularização, até por conta dos sarais, dos slams; e nas periferias, principalmente do Brasil, junto ao pessoal do rap e do movimento ativista, a poesia está mais contemporânea do que muitas outras artes tidas como tal. Mas esse ranço existe sim, ainda tem essas pessoas que têm esse preconceito de achar que a poesia precisa ser calminha ou chata, porque quando a gente aprende poesia na escola, pelo menos na minha época, era muito chato. Porque tem uma forma de ler poesia que é a partir do encantamento. E quando você está na escola você precisa ler, entender e logo tem uma prova, o pessoal se assusta e logo pensa: “será que eu entendi?”, quando na verdade a poesia não é para entender, é pra sentir, se divertir. Brincar com os sentidos do que realmente ser entendida.

E, na escola, os poetas mais antigos, homens geralmente, têm uma linguagem que a gente não entende, então precisamos nos aproximar dos artistas e dos poetas contemporâneos e de quem está agora, certo?

Exatamente. Eu leio bastantes poetas vivos. Já li muita gente dos clássicos, são ótimos e acho que devem ser lidos sim. Mas tem muita gente produzindo hoje, o país está numa efervescência e um retrato disso é “A Arte da Palavra”, aqui do Sesc que, inclusive, eu vim pra Lages, me trouxeram de Brasília, pra dar essa oficina. O nível da turma é de alegrar, porque não são somente pessoas que estão ali só para passar o tempo, são escritores, têm livros, com texto muito coeso e forte até pela idade, por ter pessoas mais novas na sala. Então quando a gente vê que tem gente produzindo, eu por exemplo, gosto de comprar livros, comprar zines dessas pessoas, acessar suas redes sociais, porque assim a gente consegue dar um suporte maior para esses artistas, para que mais pessoas possam ter acesso. É tão potente a gente ouvir um poema, às vezes, arrebata e muda o sentido da caminhada.

Então, nessa linha que você está falando, qual é o poder da poesia? 

Olha, a poesia tem um poder de trazer a gente para nossa melhor versão, que é a versão humana. Que muitas vezes, por conta do corre-corre, as notícias tristes que a gente vê sempre, ligando a TV, essa cultura do medo em que a gente está vivendo, então, a poesia é como se te ajudasse a passar por todas essas camadas, da feiura, da ruindade, dos medos, dos não sociais e aflora esse lado nosso que faz a gente sorrir. Não falo de gargalhada, é a alma que faz a gente pensar: “Poxa, eu sou humano. Eu to vivo e tenho esse poder de me encantar”. E não falo só dessa poesia bonita, das borboletas, às vezes, até uma poesia social, uma poesia que convida a gente pra pensar e falar algo que a gente nem sabia que gostaria de expressar. Às vezes, a gente vê muito o movimento feminista, com cada vez mais mulheres publicando, mulheres negras, que não tinham espaço e agora estão conquistando com muita luta, mostrando para o que vieram. Ótimas artistas e escritoras, que têm muito o que dizer. Então, hoje, com o advento da internet e das redes sociais, as pessoas podem se expressar e acessar os seus públicos sem depender de uma editora, um canal de TV ou veículos culturais. Isso que eu acho legal, do momento tecnológico que a gente está vivendo.

Você acredita no poder da arte como transformação social?

Acredito muito. Porque assim, a cultura é educação e quando a gente fala de cultura vem muitas vezes a arte em primeiro plano, essa expressão artística de um povo. Mas cultura é a forma de ser, de pensar de um povo, e isso é expressado através da arte. Quando esse povo perde essa conexão consigo mesmo, com suas histórias e suas expressões, acho que aí é o momento do humano quase que desaparecer. Então no momento que a gente está em contato com a arte, seja produzindo, seja apreciando, eu sinto que estamos mais potentes e menos vulneráveis a tantas feiuras sociais, políticas que a gente está vivendo, violência que a gente passa e vive. A arte serve para que a vida seja suportável. Arte é educação, é lapidação humana. Então quanto mais arte tiver, seja poesia, seja fotografia ou teatro, acredito que o mais potente é o povo e menos o cetivel a sucumbi como seres humanos.

Colaborou: Jordana Boscato

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