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Vinhos e Vinhedos: A cultura da uva na Serra Catarinense

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Série de três reportagens irá abordar os principais destaques do setor vitivinicultor na Serra Catarinense - Fotos: Vinicius Prado

Depois de uma hora de viagem, o ar frio que entra pela janela do carro denuncia que estamos chegando a São Joaquim. O asfalto novo serpenteia entre vales e colinas, algumas cobertas de branco. Mas não se engane. As geadas e neve, fenômenos comuns no inverno na Serra Catarinense, somente serão vistas nos próximos meses. Trata-se das coberturas dos vinhedos, que a cada ano, surgem em maior número.

Relativamente nova, a produção de vinhos de altitude é encontrada também em Urupema e Campo Belo do Sul, mas se concentra em São Joaquim onde estão instaladas mais de uma dezena de vinícolas. Em menos de 20 anos, os empreendedores conseguiram índices de produtividade e qualidade obtidos somente em séculos por outros países. Prêmios nacionais e internacionais referendam esse potencial.

A notoriedade dos vinhos produzidos na Serra Catarinense contribui também para o enoturismo, o turismo do vinho. Com cerca de 1,4 milhão de garrafas o setor fatura R$ 150 milhões a cada safra, sem contar o movimento em hotéis, bares, restaurantes e comércio em geral. O potencial deste setor também pode ser conferido a cada Vindima, festa que celebra a colheita da uva. Neste ano, a expectativa é atrair 55 mil pessoas.

A uva já pode ser considerada o terceiro maior cultivo a ser introduzido em São Joaquim. O município, que colheu a batata-semente e a maçã, sendo essas as principais produções agrícolas durante o século 20, viu na uva um potencial chamariz econômico à Serra Catarinense.

Diferentemente das outras duas culturas, esta fruta chamou atenção pelo seu valor agregado: os vinhos. O que começou movimentando financeiramente algo em torno de R$ 170 milhões, quando chegaram as primeiras garrafas, em 2006, atualmente ultrapassa os R$ 600 milhões, segundo a Secretaria de Estado da Fazenda e Federação Catarinense dos Municípios (Fecam).

Tal magnitude se deve principalmente ao terroir joaquinenses, ou seja, os solos deste município serrano. A altitude de mais de 1.300 metros acima do nível do mar, aliada às terras de São Joaquim, atraíram empresários amantes do vinho para investir nessas terras.

Investimento 100% italiano na terra das uvas de altitude da Serra Catarinense

Atualmente, são 15 empreendimentos no ramo, instalados pela região do município. Alguns trabalhando somente com vinhedos, outros executando o ciclo completo, da colheita a vinificação. Assim como alguns estão completando quase duas décadas, outros estão chegando aos 10 anos de existência.

O que motivou estar nesse terroir de altitude, na maioria das vezes – senão em todas, é a paixão por essa bebida milenar. Um exemplo é o engenheiro agrônomo e enólogo, Saul Bianco, de 66 anos. Descendente de italianos, o empresário, depois de dedicar 32 anos de sua vida a uma empresa que não era sua, decidiu empreender e montar sua vinícola.

De família de vitivinicultores, a lida da uva sempre esteve na veia. “A história da família sempre esteve muito ligada a uva e ao vinho”, ressalta Bianco. A ideia de ter uma vinícola começou muito cedo, pois já tinha a tradição familiar de plantar uvas. “O meu avô, que nasceu na Itália, veio para o Brasil para colonizar a região de Caxias do Sul (Rio Grande do Sul). E lá, plantaram uvas e fizeram seus próprios vinhos”, conta.

Inspirado, decidiu cursar engenharia agrônoma em Porto Alegre. Mas uma mudança profissional lhe colocou numa grande empresa, onde trabalhou mais de 30 anos, em Florianópolis. “O sonho nunca se perdeu, sempre ficou vivo”, frisa Bianco.

Enquanto trabalhava na Capital, viu de lá o desenvolvimento exponencial da Serra, em especial de São Joaquim, para os vinhos. Depois de sair da empresa na qual trabalhava, Bianco e a esposa procuraram um terreno na região joaquinense. Encontraram, há oito quilômetros do Centro do município, próximo ao Morro Agudo, um terroir ideal para instalar a vinícola Leoni di Venezia.

Em 2007, o terreno foi adquirido e já no ano seguinte, as primeiras parreiras foram plantadas. “Terminamos há quatro anos de plantar. Hoje tenho cinco hectares de parreiras”, comenta.

Saul sempre desejou atuar na produção de vinhos

Potencial da Serra atrai investidores

A vinícola Leoni di Venezia é recente, foi concluída em 2016, após quatro anos em obras. Foi inaugurada naquele mesmo ano. Lá se encontram somente variedades de uvas italianas, como as tintas Sangiovese, Montepulciano, Refosco Dal Peduncolo Roso, Primitivo, e as brancas Gewurstraminer e Garganega. De 24 castas, inicialmente pesquisadas e testadas para cultivar, a vinícola está com 12, em definitivo, segundo Bianco.

Porque São Joaquim?

Saul Bianco destaca que o município tem potencial de desenvolvimento. “É uma região muito nova e tenho a convicção que a uva e o vinho vão dar um desenvolvimento vertiginoso para essa região”, diz. Para ele, o terroir específico, as paisagens e os vinhos de qualidade vão trazer a maior consequência do ciclo: o turismo. “Nós acreditamos tanto nisso, que estamos fazendo toda a operação: plantamos as parreiras, fizemos os vinhos aqui e para proporcionar essa experiência, temos as hospedagens”, completa.

Esse turismo também é um dos atrativos para os investimentos em vinícolas e vinhedos da região. São Joaquim, há 10 anos, perdia em movimento econômico para Otacílio Costa (R$ 270 milhões) e Correia Pinto (R$ 218 milhões). No final de 2016, o município aparece na frente desses dois municípios, ficando atrás somente de Lages.
Os números evoluem, também, devido as grandes safras da uva. Com exceção de anos em que geadas tardias e condições climáticas, como o granizo, afetam a quantidade de produção, a colheita é geralmente boa para os produtores.

Este ano, safra da uva teve crescimento de 30%

Para 2017, por exemplo, espera-se um crescimento de 30% da safra, com previsão de chegar a 1,6 milhão de toneladas. “A safra vai ser muito boa, em relação ao ano passado, tanto em volume como qualidade”, analisa Bianco. Com este resultado, a produção das vinícolas deve chegar a 1,4 milhão de garrafas e faturamento estimado em R$ 150 milhões.

O presidente da Vinhos de Altitude

Produtores Associados e diretor comercial da Vinícola Villaggio Grando, de Água Doce, Guilherme Grando, acredita que ano que vem, se a safra for novamente boa, conforme a expectativa, as vinícolas terão atingido, novamente, um patamar de colheita habitual. “O nosso crescimento com os vinhedos novos e tudo o que os associados vem fazendo indicam que chegaremos a dois milhões de garrafas na safra”, avalia Grando.

De modo geral, as condições climáticas e geográficas da região são muito favoráveis ao vinho e não há dúvidas pelo número de empreendimentos do setor instalados por lá. “Pessoas de todos os ramos começaram a investir na questão de produção de uva e vinho”., comenta o presidente. E para Grando, ao contrário de uma questão cultural e com vícios, os vitivinicultores do Estado começaram do zero com tecnologia e pesquisas, sabendo o que estava sendo feito. “A gente ganhou um bom caminho frente às demais regiões,” conclui.

Os vinhos em números

Das 35 vinícolas produtoras de uva da área de atuação da Vinho de Altitude, 20 produzem e comercializam cerca de 160 rótulos, alguns deles premiados no Brasil e no exterior. As principais uvas produzidas são Cabernet Sauvignon, Merlot, Chardonnay e Sauvignon Blanc, mas a partir deste ano começam também ser colhidas as variedades italianas (Sangiovese e Montepulciano) e portuguesas (Touriga Nacional).

Inovação e pesquisa

Na década de 1990, a Epagri já tinha percebido a vocação de São Joaquim para o cultivo de uvas e à vitivinicultura, quando iniciaram os primeiros estudos da empresa, nas terras joaquinenses. Precisamente em 1991, o órgão notou a adaptação de cultivares vitis viníferas da região.

Em 2010, a Epagri abriu um espaço próprio para o estudo e pesquisa da enologia, na região de São Joaquim. Desde então, o pesquisador em enologia e agrometeorologia, João Felippeto, de 49 anos, atua com projetos voltados aos vinhos e vinhedos joaquinenses.

Formado pelo Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), Felippeto escolheu a área com base na história da sua família, que estava ligada ao setor vitivinícola no Rio Grande. Natural de Bento Gonçalves (RS), passou boa parte da vida num ambiente ligado as uvas, típico desta região da Serra Gaúcha. “Além disso, considero que a área da Enologia traz consigo uma enorme gama de oportunidades de crescimento, especialmente em Santa Catarina, onde a cadeia, apesar de recente, já mostra um imenso potencial de crescimento”, comenta.

Essa expansão pode ser percebida nos investimento em estudos, que vão desde ações em campo, onde são acompanhadas as fases de desenvolvimento da uva, os processos de microvinificação no laboratório, até o controle de qualidade e tudo o que se refere a microbiologia do vinho.

As parcerias com as empresas do setor, permitem ainda que o pesquisador possa atuar com demandas vindas das vinícolas da Serra Catarinense. O trabalho funciona por meio de acordos de cooperação técnica, para atender determinadas necessidades do produtor. “O objetivo final, tudo o que se destina, é a ajuda ao produtor”, destaca Felippeto.

João Felippeto trabalha na Epagri desde 2010, quando surgiu o laboratório de enologia

Diversos estudos

O trabalho não para no campo da pesquisa, por isso é comum haver diversos estudos ocorrendo ao mesmo tempo. Felippeto conta que, atualmente, há dois em andamento, sendo um aprovado recentemente. Um desses se refere a busca de novas variedades de uvas, para cultivo na região joaquinense. “Vamos ter de buscar variedades que se adaptem à São Joaquim, normalmente, italianas. Elas são pesquisadas no sentido de adaptação ao clima, ao terroir, digamos assim”, explica o pesquisador.

Pesquisas em vinícolas

Um exemplo de investimento nessas variedades é da Leoni di Venezia, que trabalha especificamente somente com essas castas (Italianas). Mas, uma das vinícolas mais tradicionais e conhecidas da região e do Brasil, Villa Francioni, foi quem deu o start no cultivo dessas uvas italianas. Como trazer novas variedades para São Joaquim é uma forma de inovação, e também de pesquisa, a Quinta Santa Maria, testou e conseguiu produzir vinhos portugueses. Entre as variedades se encontram a Touriga Nacional, Tinta Roriz e Touriga Franca.

Primeiro sorvete à base de uva de altitude

Uma novidade chega à Vindima no próximo final de semana. O primeiro sorvete feito à base de uva de altitude, a mesma fruta utilizada para a produção de vinhos e espumantes. Durante os dias 24 e 26 de março, os visitantes da feira, que encerra a 4ª Vindima terão a responsabilidade de provar e aprovar o sorvete produzido em dois sabores: branco à base de uva Vermentino, e tinto à base de Malbec. Se o público gostar, a produção deve ganhar novas proporções para chegar ao mercado como novidade para a próxima safra de uva.

O sorvete surgiu por meio de uma parceria entre a Vinícola Abreu Garcia e a Fábrica de Sorvetes Ypy, o resultado com o desenvolvimento do novo produto surpreendeu. Será mais um sorvete na lista de produtos já comercializados em grande escala pela Ypy Sorvetes Premium. Já para a Vinícola Abreu Garcia, será uma novidade, afinal a linha de produção sempre foi de bebidas. “Mas tudo vai depender da aprovação do público”, ressalta Ernani Garcia, proprietário da Vinícola.

Ernani Garcia (esq), da vinícola e Marcelo Baracuhy, dono da Ypy Sorvetes – Foto: Divulgação

Valor agregado

Para tornar ainda mais conhecidas as vinícolas da região, o empresário do setor e um dos sócios-proprietários da Quinta da Neve (São Joaquim), Acari Amorim, defende ainda uma maior agregação de valor para as uvas e aposta num polo de produtos de beleza a partir do extrato dessa fruta.

Amorim não só enxerga novos produtos agregados a uva, como também a maçã, outra cultura de grande relevância e ainda principal força motriz de desenvolvimento de São Joaquim. “A nossa maçã é a melhor do Brasil e certamente está entre as melhores do mundo. Nossos vinhos seguem por esse caminho. Então, temos que ligar a qualidade da maçã e dos vinhos com a cidade para fortalecer todo o turismo”, diz.

O empresário ainda considera da máxima importância a criação na cidade de um centro de tecnologia e inovação com foco na uva/vinho, maçã e no turismo. “Com isso, a cidade teria uma estrutura para construir novas empresas, gerar novos empregos e assegurar um maior desenvolvimento econômico e social, de forma duradoura e sustentável”, completa.

Entre as vinícolas que já inovaram está a Sanjo Cooperativa Agrícola de São Joaquim. Além dos vinhos, produz o suco de maçã e uva Cabernet Sauvignon. Segundo a própria descrição da empresa, a fusão entre as frutas origina um suco bem característico, predominando os aromas da uva que são complementados com aromas da maçã. No paladar a maçã suaviza a acidez e doçura elevada da uva, equilibrando o sabor.

“Consertando” uvas

Dentre as pesquisas capitaneadas por Felippeto, na Epagri, uma se destaca. Analisando a situação climática da região e os grande períodos chuvosos, ele percebeu que as bagas das uvas acabam inchando, interferindo no processo de maturação da fruta, diluindo todos os componentes.

Se a baga incha, consequentemente essa água também estará presente na vinificação da uva. “Qual o objetivo desse projeto: é ter a possibilidade de tratamento pós-colheita, ou seja, independentemente da quantidade de chuva que ela teve durante a maturação, trazer para o laboratório, fazer um tratamento osmótico, deixando numa condição convectiva, ou seja, fazer a desidratação dessa uva, até a condição que eu quero, para depois fazer o vinho”, conta Felippeto. Ele chama de “um conserto” que pode revolucionar a forma de se fabricar os vinhos. “Não é algo inédito. Foi testado em alguns lugares do mundo, inclusive no Brasil, mas em São Joaquim não”, completa.

Série
  • Sábado e Domingo (18 e 19) Investimentos, inovação e pesquisa
  • Segunda-feira (20) Emprego, renda e pioneirismo
  • Terça-feira (21) Enoturismo
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