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Lageanos ganham uma nova praça

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Foto: Vinicius Prado

Paulo Roberto Padilha de Carvalho, que hoje tem 60 anos, guarda com carinho as lembranças da infância e da adolescência, lá pelos idos das décadas de 1960 e 1970, em especial do tempo que passeava com a família pelas ruas do Centro de Lages. Ele lembra, por exemplo, de como era a continuidade da Rua Marechal Deodoro, que no fim da década de 1970 foi fechada dando lugar ao Calçadão da Praça João Costa.

“Aqui só tinha a rua de paralelepípedo e o colégio. O calçadão, que foi feito com aquelas pedrinhas, veio no tempo do Dirceu Carneiro. Quando fecharam a rua e fizeram o calçadão, o povo gostou porque tinha ‘onde’ passear com as criança, mas também reclamou porque complicou o movimento ‘pros carro’”, comenta, lembrando que, naquele tempo, nas ruas Nereu Ramos e Correia Pinto, o tráfego de veículos era possível nos dois sentidos.

Se há mais de 40 anos ele apenas assistiu às mudanças estéticas provocadas no Centro da cidade por causa da construção do Calçadão, agora é uma das pessoas responsáveis pela atual reformulação da praça.

Ao lado de outros 49 profissionais, o pedreiro Paulo trabalhou na revitalização daquele espaço, que será inaugurado neste sábado, 23 de novembro, como parte das comemorações do aniversário de Lages.

Foram 13 meses entre o início e a conclusão da obra. Paulo faz parte desta história desde o começo, pois foi um dos funcionários que instalou os tapumes, antes mesmo do começo dos trabalhos. “Quando cheguei com a turma pra colocar os tapumes, o pessoal passava na rua e perguntava o que ia ser feito, alguns até reclamavam”, lembra.

De riso fácil e bastante despojado, Paulo conta que durante o período da obra, diversas vezes foi abordado por conhecidos enquanto trabalhava, que o paravam para “prosear” e, curiosos, tentavam sondá-lo para saber como a praça estava ficando.

Sem muitos rodeios, ele pedia licença e dizia que precisava voltar ao serviço. “A hora que abrir esses tapumes, vai ser ‘ue nem’ uma boiada aqui dentro, porque o pessoal tá curioso”, brinca.

Orgulho em participar das obras de revitalização

O sentimento de orgulho por ser parte da equipe que está transformando o Centro de Lages (a obra do Calçadão é apenas uma das etapas da revitalização) transborda pelos olhos de Paulo, que tem um carinho muito especial pela Praça João Costa.

“Sempre gostei de vir aqui com meus netos ‘pra eles tomar’ sorvete ou comprar pipoca ‘pra eles jogar pras pombinha’. Muitas vezes ‘vim’ só pra engraxar o sapato”, comenta, em referência aos engraxates que trabalhavam na praça.

Saudoso, Paulo afirma que, se pudesse fazer a sua própria restauração no calçadão, colocaria engraxates, pra “lembrar dos bons tempos”, e plantaria mais árvores. “Me dá um orgulho porque eu sei que não vou viver por muito tempo mais, mas meus netos e filhos vão passar por aqui, daqui anos, e dizer ‘olha, o pai/vô ajudou a refazer o calçadão’, e vão se lembrar do meu trabalho”, diz, emocionado.

Mas a história de Paulo e o sentimento que ele tem pelo Centro da cidade não se resumem ao calçadão. Ele também lembra com carinho do tempo em que, ainda menino, vinha a pé no Centro comprar mercadorias para vender na mercearia da família.

“Me criei andando por aqui. Por isso, lembro bem da rua que tinha antes de ser calçadão. Por muito tempo a gente vinha buscar café ali atrás da antiga HM (hoje Pittol Calçados) pra vender no armazém da família, lá na Várzea.”

Outra pessoa da família de Paulo que, anonimamente fez história, foi seu avô. Leandro de Carvalho era dono de alguns loteamentos na área central da cidade e, no século passado, foi quem plantou o lendário carvalho que ficava na esquina das ruas Vidal Ramos Júnior e Caetano Vieira da Costa.

Paulo cresceu brincando na rua que foi fechada para dar lugar ao Calçadão da Praça João Costa, na década de 1970, e agora, foi um dos responsáveis pela revitalização da mesma praça – Foto: Adecir Morais

Uma praça e 253 anos de história

Por Suzane Faita (pauta@correiolageano.com.br)

Quem chega a Lages pela primeira vez e se depara com a Praça João Costa e o calçadão que a integra, não saberá, a menos que tenha lido os registros históricos, ou esteja acompanhado de um nativo das ‘Lagens’, que esse local tem muita história. Nesse espaço, decisões políticas foram articuladas e comícios realizados. O lageano Nereu Ramos – único presidente catarinense – quando vinha para Lages, discursava no local e, desde 1957, tem uma estátua sua, esculpida por outro lageano importante, o artista Malinverni Filho. 

A Praça João Costa, nome de um político influente na primeira metade do século XX, foi concebida nos tempos da fundação da vila, na época, Nossa Senhora dos Prazeres das Lajens. O jornalista, autor da coletânea O Continente das Lagens (1982), Licurgo Costa, afirma que a formação inicial da póvoa estabelecia ‘dois arruamentos, em forma de esquadro, formando-se na junção deles uma pequena praça, que tem sido, desde então, uma espécie de fórum da cidade’. A praça a qual ele se refere, segundo a arquiteta e especialista em Patrimônio, Lilian Louise Fabre Santos, foi denominada na primeira planta do local como Praça Quadrada, atual João Costa, e abrigava a Casa de Câmara e Cadeia, o pelourinho, a loja maçônica e o teatro São João. 

Segundo o livro Memórias do Legislativo Lageano, as atividades do Poder Legislativo iniciaram-se em maio de 1771, quando o povoado foi elevada à categoria de vila. A primeira sede conjunta dos Poderes Legislativo e Executivo estava localizada no encontro de duas ruas que existiam na atual esquina entre as ruas Presidente Nereu Ramos e a Marechal Deodoro (hoje calçadão), na Praça João Costa. Era um sobrado, e no térreo situava-se a cadeia pública. Permaneceram neste espaço até o ano de 1896. 

No século XX, na década de 1930 esses prédios ‘vieram abaixo’, literalmente, para receber a Escola Normal que, posteriormente, veio a chamar-se Colégio Aristiliano Ramos, primeiro exemplar arquitetônico do estilo art déco, bastante presente em Lages. O prédio, que era considerado como patrimônio histórico, teve sua lei alterada pela a Câmara de Vereadores que o retirou da Lei Orgânica Municipal, possibilitando, assim, a sua demolição, em 2018, depois de ficar sete anos interditado. 

No livro ‘A cidade e seus tempos. O processo de constituição do processo urbano em Lages’, a autora, Zilma Peixer, conta que no local, durante muito tempo, permaneceram os bares e cafés, ‘espaço de reunião de fazendeiros, políticos e comerciantes’. Segundo o livros, ‘os cafés e as calçadas eram ponto de encontro dos moradores que ali discutiam os acontecimentos do dia, fechavam negócio e olhavam atentamente o movimento’. Na primeira metade do século XX, acontecia o footing, quando as pessoas caminhavam na praça, para verem e serem vistas. Zilma relata que, aparentemente, não existia local mais democrático, mas cada grupo tinha seu espaço delimitado; ‘de um lado os negros e pobres, no meio os que se consideravam classe média e no outro lado os ricos’. 

Na década de 1970, aconteceu outra intervenção no espaço, dessa vez, para privilegiar as pessoas, com a construção do calçadão na praça, mais o Túlio Fiúza de Carvalho. Nessa revitalização, foram construídos banheiros públicos, no subsolo de uma construção que até uns anos atrás recebeu a base da Política Militar. Segundo o ex-prefeito Dirceu Carneiro (MDB – 1977-1982), as obras começaram na administração do ex-prefeito Juarez Furtado (MDB – 1973 – 1977), em 1976 e foram concluídas em 1977. 

Dirceu foi quem cuidou do projeto de revitalização do espaço, com auxílio de Marcos Lenzi. Uma das principais necessidades da época, segundo ele, era o banheiro público, mas também construíram um quiosque para uma associação de artesanato. “A primeira manifestação da Festa Nacional do Pinhão foi ali (quando era o prefeito), tinha um quiosque de bracatinga (madeira). O cartaz feito pelos funcionários da Prefeitura. Quando a gente saia da prefeitura, dirigia-se à praça, para esse quiosque”, lembra. 

Destaque no CL

Na edição de 16 de julho de 1976, a capa do jornal mostrava o início das obras. A reportagem apontava que a Prefeitura do Município começava os serviços de infraestrutura no calçadão da Praça João Costa. O local receberia pavimento em Iadrilho meia-lua, em branco e preto, floreiras, escadas, entre outras coisas. 

Historicamente, a Praça João Costa recebeu inúmeros comícios e também foi palco de decisões políticas. Na imagem, o público prestigia a inauguração do monumento em homenagem a Nereu Ramos, em setembro de 1957 – Foto: Acervo do Museu Histórico Thiago de Castro/Divulgação

Obras trazem novos elementos à praça

A praça que será inaugurada neste sábado (23), em nada se parece com o calçadão que os lageanos conhecem. Sem o prédio da escola Aristiliano Ramos (demolido em 2018), o espaço obviamente está muito maior, e da estrutura original, apenas a estátua de Nereu Ramos, o busto de Otacílio Vieira da Costa e algumas árvores ainda compõem o visual.

Os ladrilhos do chão deram lugar a uma nova calçada, feita com pedras de basalto. As placas que anunciavam os filmes em cartaz no Cine Marrocos (aquelas que ficavam bem pertinho do prédio da escola, ali na frente da Rua Nereu Ramos) deram lugar a murais gigantes que retratam parte da história de Lages (os Tropeiros) e estão ladeados por fotos que remontam as mudanças pelas quais passaram a Praça João Costa. A tradicional Banca Central não está mais lá. O pipoqueiro, o sorveteiro, o tio do churros e o engraxate também não – e ninguém sabe dizer quando (e se) poderão voltar.

Por ora, o comércio da nova praça se limita a uma sala onde acontecerá a venda de artesanato local, e uma cafeteria/revistaria. Este último ainda não teve a licitação iniciada e, por isso, não há previsão para a abertura do estabelecimento.

De acordo com o secretário de Planejamento e Obras de Lages, João Alberto Duarte, o processo licitatório da cafeteria/revistaria tramita na Secretaria Municipal de Administração e na Procuradoria-Geral do Município (Progem), e deve ser lançado ainda em 2019. Porém, ele não especifica qual o prazo para que o vencedor do processo seja conhecido e comece a atuar no local. “Estamos fazendo o trâmite, vai ser para o ano que vem que vai ser aberto e, quem vencer, vai fazer toda a parte interna.”

Outra indefinição diz respeito ao comércio de ambulantes, como pipoqueiro e sorveteiro, dentre outros. De acordo com o prefeito Antonio Ceron, este tipo de comércio será liberado apenas depois que a Câmara de Vereadores aprovar uma lei que regulamenta o comércio ambulante em toda a cidade.

“Hoje estamos envolvidos em entregar a praça pronta. A ocupação a gente ainda tem que ter um pouco de cuidado, por causa da legalização. Não vai começar nada fora da lei. O que valer para a cidade toda, vai valer para cá também. Não existe no mundo praça sem pipoqueiro, sem picolé, mas essa é uma etapa seguinte”, afirma o prefeito.

Foto: Acervo do Museu Histórico Thiago de Castro/Divulgação

Projeto inicial recebeu alterações

A reforma do calçadão da Praça João Costa iniciou-se em novembro de 2018 e faz parte do projeto de modernização, reforma e revitalização do Centro de Lages, que compreende, também, as ruas Nereu Ramos, Coronel Córdova e Correia Pinto, além do Calçadão Túlio Fiúza de Carvalho e da Praça João Ribeiro. Custeada com recursos do Governo do Estado, a revitalização completa tem investimento de R$ 13 milhões.

Toda a revitalização do Centro será feita pela Terra Engenharia. Nas obras da João Costa, inicialmente, a mão-de-obra de 35 trabalhadores foi utilizada. Porém, nas últimas semanas, com a proximidade da data de inauguração, o processo precisou ser agilizado e um total de 50 pessoas trabalharam no local.

Para o prefeito Ceron, revitalizar esta praça é uma forma de resgatar a história de Lages. “Nós tivemos um cuidado no executar o projeto. Além de fazer adequações, sempre com a comunidade envolvida e sempre conversando com a imprensa, para achar o modelo ideal.”

De acordo com João Alberto, o projeto inicial passou por algumas alterações durante a execução. Na edificação que fica em frente à Rua Nereu Ramos, por exemplo, foi invertida a localização do posto da Polícia Militar e da casa de artesanato.

No projeto original, a PM ficaria na sala situada à direita da edificação (do lado do mural que retrata parte da história do município). Porém, como o posto terá uma central de monitoramento, ficou definido que ocupará a sala do meio, que é maior; e a casa de artesanato ficará na sala da direita.

Outra mudança com relação ao projeto original diz respeito à edificação construída onde ficava o ginásio da Escola Aristiliano Ramos, que deveria ser ocupada por um restaurante. Recentemente, a prefeitura anunciou que aquele local abrigará um centro cultural, e receberá o nome de Aristiliano Ramos, em alusão à escola, e será administrado pela Fundação Cultural de Lages.

Os jardins centrais também sofreram mudança: no seu entorno, foram construídos bancos de pedra basalto, que não estavam previstos inicialmente. O paisagismo recebeu mais árvores do que o proposto no começo.

Calçadão é um presente pelos 253 anos de Lages

A entrega da revitalização da Praça João Costa para a comunidade é o ápice das comemorações pelos 253 anos de Lages. A solenidade acontecerá a partir das 9h30 deste sábado (23) e contará com ampla programação. Na ocasião, acontecerá a assinatura da ordem de serviço para revitalização do Calçadão Túlio Fiúza de Carvalho e da Praça João Ribeiro, situada em frente à Catedral.

Na ocasião, uma cápsula do tempo será enterrada em frente ao prédio do novo centro cultural. Esta cápsula conterá documentos de Lages na atualidade, como jornais, revistas e outros informativos, além de cartas escritas por alunos da rede municipal de ensino. O objetivo é que o invólucro seja aberto em 22 de novembro de 2066, data em que Lages completará 300 anos.

Entrega da revitalização da Praça João Costa

Quando: Sábado, 23 de novembro, a partir das 9h30

Onde: Centro Cultural da praça

O quê: haverá apresentações artísticas e culturais

Programação

9h30: Éder Goulart e grupo

10h30: Cerimônia oficial

11 horas: Oswaldir e Quinteto Nativo

13 horas: Apresentações da Escola de Artes da Fundação Cultural

16 horas: Coral Vozes da Liberdade

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