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Ribeirinhos do Carahá: Inundações fazem parte da vida do lageano

Fotos: Reportagem - Susana Küster; Capa - Gugu Garcia/ Divulgação

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Quando a chuva engrossa e a água do Rio Carahá sobe, muitos moradores começam a erguer seus pertences em casa e levam o que é mais valioso para um lugar seguro.

Se o nível da água atinge as residências, eles vão para abrigos ou recorrem a amigos e parentes. Essa situação se repete, praticamente, todos os anos e, em alguns, mais de uma vez, desde que a região ribeirinha começou a ser ocupada, há décadas, por moradores.

Mesmo assim, grande parte das pessoas continua vivendo no mesmo local, a maioria porque não tem condições financeiras de morar em outro lugar. Porém, há aqueles que continuam porque gostam do bairro.

É o caso da família de Camila Amarante, 18 anos. Ela mora no Bairro Habitação desde que nasceu, em um lugar que sempre alaga quando o Rio Carahá sai da caixa. Vive com os quatro irmãos e a mãe, em uma casa de quatro cômodos e conta que apesar de sempre perderem tudo, quando há alagamento, não querem se mudar.

Camila (menina) e família enfrentam enchentes e não querem se mudar

Isso porque, possuem uma boa convivência com os vizinhos e a pé, levam cerca de meia hora para chegar ao Centro. Mesmo se a prefeitura oferecer outra casa, não querem sair dali. “Eu trabalho no bairro e meu irmão também. Aqui é ruim só quando dá enchente, eu e meus irmãos estudamos aqui também”, justifica.

A casa em que moram é pequena, mas Camila diz que é deles, e que seria muito difícil alguém querer comprar um bem, em uma região que alaga. “Há 20 anos nossa família mora aqui e não queremos sair. Quando perdemos tudo, lutamos para conquistar de novo”.

Outro caso de família que escolheu viver em região ribeirinha é a de Jackson da Silva. Eles moravam no Bairro Morro Grande e não sofriam com inundações. Porém, há quatro anos residem no Bairro Caça e Tiro e enfrentam o problema com frequência.

A mudança ocorreu para ficarem mais próximos de parentes. Na última inundação, em junho do ano passado, a casa deles foi atingida e entortou. Apesar disso, e de terem perdido todos os bens, não pensam em se mudar. “A gente recupera tudo aos poucos, aqui é bom de morar, um lugar tranquilo”.

Jackson da Silva se mudou para área que alaga para ficar perto da família

Ela quer mudar

Shaiane Santos Huller, 28 anos, perdeu tudo com alagamentos mais de sete vezes. Ela diz que até gostaria de morar em um lugar que não alagasse, mas afirma que não tem dinheiro para comprar outra casa. Ela não considera que sua casa, no Bairro Habitação, esteja em um lugar ruim.

“Não tem iluminação pública e ligação de esgoto, além de um matagal ao lado facilitar o uso de drogas durante a noite. Mas só é ruim de morar, quando alaga e ocorre tão rápido, em meia hora, a água sobe, não dá tempo de salvar nada”.

Shaiane Santos Huller, perdeu tudo com alagamentos mais de sete vezes

Pesquisa aponta motivos e soluções

Uma dissertação de mestrado da Universidade de Federal de Santa Catarina (UFSC), e coorientada pelo professor da Udesc de Lages, Silvio Rafaeli, foi feita por Víctor Luís Padilha e mostrou os caminhos para minimizar ou acabar com os alagamentos do município.

O estudo analisou as inundações ocorridas em 2005, 2008 e 2011. Estas foram as escolhidas porque Padilha tinha um mapeamento da Defesa Civil mostrando a mancha da inundação, que é a área atingida pela água.

A inundação ocorre de três formas

  1. Quando o Rio Carahá encontra o Rio Caveiras, no ponto mais baixo da Bacia do Carahá, fazendo com que a água acumule e se espalhe.
  2. Quando a chuva ocorre dentro da Bacia do Rio Caveiras, que abrange vários municípios e principalmente quando é torrencial, porque é muita água em pouco tempo.
  3. Quando as águas do Rio Carahá não conseguem entrar no Caveiras, que tem mais força e volume.

“Então, as águas do Carahá voltam e depois ficam paradas, além disso entra a água do Caveiras no Carahá”, explica Padilha.

Este movimento é chamado de hidrodinâmico, e, segundo ele, até os moradores que são atingidos dizem que a água sobe em média 30 centímetros por hora.

Esse tipo de situação pode ocorrer de cinco em cinco anos. Para chegar a essa conclusão, ele conta que foram coletados os dados gerados no Rio Caveiras, através do controle de monitoramento feito pela Celesc e da Agência Nacional de Águas (Ana).

Outros problemas

Há alagamentos que ocorrem na cidade por conta da má drenagem urbana, pois a pavimentação não deixa a água infiltrar no solo, direcionando direto para o rio através dos bueiros.

“Como não há galerias e bueiros com dimensões adequadas, quando há por exemplo, uma chuva torrencial, a água que cai nos bueiros não chega a entrar no rio porque o leito está cheio. Um exemplo disso na prática é próximo da Apae”.

Através da dissertação que fez, Padilha percebeu que é necessário transferir os alagamentos para o ponto de menor altitude da bacia hidrográfica, onde é a foz do rio, que fica no Bairro Habitação.

“Para isso acontecer é necessário saber onde estão as tubulações da cidade e isso não é a realidade daqui e de muitos municípios. Mas é possível fazer um planejamento. Em cidades maiores, já são colocados sensores em bueiros e se consegue mapear onde está passando a correnteza”.

Sensores instalados nos rios ajudarão no combate a enchentes

O Centro de Ciências Agroveterinárias (CAV), da Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) em Lages, instalou um sensor hidrológico no Rio Caveiras, em agosto de 2016, em conjunto com a Defesa Civil do município.

O equipamento, chamado de EcoLog 800, coleta dados para estudo e a indicação de medidas para enfrentar enchentes.

O aparelho foi posicionado próximo à ponte do município de Painel, onde inicia a planície de inundações que se estende até Lages.

O sensor avalia em qual velocidade o nível do rio sobe em dias de enxurrada e, para isso, armazena os dados a cada 15 minutos.

As informações são avaliadas a cada 15 dias pela empresa júnior do curso de Engenharia Ambiental da Udesc Lages, a Projeta Ambiental Junior, e, pela Defesa Civil.

O aparelho permite mensurar o volume de água e, a partir do índice de vazão combinado a outros dados, será possível elaborar um sistema de alerta à população das áreas sujeitas a inundações.

Um segundo sensor foi instalado no município de Lages, no Rio Carahá. Os dois equipamentos foram adquiridos pela Udesc Lages, por meio de convênio com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), ao custo de R$ 18 mil cada um.

Sensor está instalado na ponte do Bairro Caça e Tiro

Saber como agir é essencial

Sair de um local de risco quando se percebe a possibilidade de desabamento ou deslizamento; separar o lixo reciclável e soltar os cães quando o local pode alagar.

Estas e outras atitudes foram aprendidas pelos estudantes da escola municipal Bom Jesus, através do projeto Defesa Civil nas escolas: Educar para prevenir.

Ele foi desenvolvido durante três meses na instituição de ensino, por meio de parcerias feitas pelo órgão com empresas privadas.

Antes do projeto, a estudante Maria Julia de Oliveira Barbosa, 11 anos, diz que via muitas crianças jogando lixo no rio e nas ruas.

Além disso, ela conta que agora sabe a necessidade de tirar fios elétricos das tomadas para evitar curto circuito, que podem ocorrer durante temporais. “Também não pode soltar pipa perto dos fios de energia e como moro numa área que pode deslizar, quando chove muito vamos para minha avó, que é seguro”.

Seu colega de classe, Eveline Barbosa da Silva, 10 anos, diz que entendeu a importância de separar o lixo reciclável e o estudante, William Cauê da Silva, 11 anos, alerta que percebeu a necessidade de soltar os cães quando estão presos e há risco de alagamento.

Os estudantes aprenderam que é preciso ficar em ambientes pequenos, pois estes locais são um dos mais resistentes diante de vendavais.

Também entenderam a importância de se enrolar em cobertas ou colchões e ficar em posição fetal para minimizar o risco de se machucar com destroços.

Estudantes da escola municipal Bom Jesus participaram do programa da Defesa Civil, chamado Educar Para Previnir

Conhecimento será multiplicado

Marcelo Airton de Oliveira, que faz parte do corpo técnico da Defesa Civil do município, afirma que mais estudantes devem entender mais sobre prevenções, pois a intenção do projeto é abranger outras escolas em 2018 e desenvolver as atividades de forma mais rápida para que o projeto não fique caro e atinja o maior número de estudantes.

Também, em relação a conscientização, há o programa Carahá de Cara Nova, do Instituto José Paschoal Baggio, que foi criado em 2007.

Deste então, várias ações aconteceram tais como: Abraço ao Rio Carahá; Concurso de fotos do rio; criação de lei municipal que instituiu o Dia do Rio Carahá; Passeio Ciclístico; Plantio de Mudas; Suplemento Especial; Manual Ecológico; Selo Escola Protetora do Meio Ambiente e um concurso fotográfico com o tema Mata Atlântica.

Ações de combate às cheias

A primeira interferência no curso do Rio Carahá, com o objetivo de minimizar as inundações em Lages, foi na década de 1980.

Em matéria publicada na edição do Correio Lageano, de agosto de 1983, o então prefeito Paulo Duarte e o ex-diretor de planejamento da prefeitura, Marcos Nerbass, foram até Brasília entregar o projeto para canalizar os rios de Lages. A obra iniciou no mesmo ano e custou em torno de 1,6 bilhão de cruzeiros (moeda corrente na época).

Consistia, além da canalização do Rio Carahá, desde a sua nascente até o Rio Caveiras; toda a retificação do Rio Ponte Grande; a canalização do Rio Passo Fundo e duas retificações em duas curvas do Rio Caveiras, que na época acreditava-se que acabariam com as enchentes.

Na gestão do Fernando Coruja, 1993 a 1996, foi retirada uma curva do Rio Caveiras e criada uma área de descarga, nas proximidades da Chácara do Battistella.

Essas ações reduziram em muito os alagamentos, principalmente na região do Fórum, onde as casas ficavam submersas a cada chuva forte.

Outra interferência no rio, ocorreu na gestão de Renato Nunes de Oliveira. No dia 22 de outubro de 2010 foi aberto um novo canal na foz do Carahá, que desemboca no Rio Caveiras. O canal tem 650 metros de extensão, 25 metros de largura com cerca de 4,5 metros de profundidade.

O objetivo foi despejar as águas em um ponto de menor resistência, como se fosse uma pista de aceleração em uma rodovia. Isso reduziu as inundações, que antes eram mais frequentes.

O problema é que da ponte do Caça até a foz, a queda é de apenas 60 centímetros e não tem correnteza. Desta forma, qualquer volume de água no Caveiras, tranca tudo.

Uma das soluções é construir uma barragem

Réguas de monitoramento ao longo do Rio Carahá poderiam informar quanto choveu. A estação automática implantada na ponte que fica no Bairro Caça e Tiro gera dados, mas segundo Padilha, ainda não há histórico suficiente para prever quando o Caveiras servirá como barreira para o Carahá.

Uma das ações viáveis é a construção de barragens. Barragens foram feitas para segurar os volumes de água na região de Ituporanga e Rio do Sul, o que poderia ser feito em Lages.

Uma barragem no Caveiras para segurar a água, até que o nível do Rio Carahá baixe e possa receber o volume de água sem inundar seria uma opção.

Funcionaria para uma chuva distribuída, ou seja, se ocorrer uma chuva forte no Rio Carahá e Caveiras. Caso a chuva ocorra só onde o Rio Carahá está, a barreira no Caveiras não resolve nada.

Há um projeto de construir uma PCH na Garganta do Diabo, em Painel. Além de gerar energia e captar água, o objetivo seria também de controlar a vazão do Rio Caveiras em época de chuva.

A PCH deverá ficar um pouco acima da Garganta do Diabo, mas ainda não há informação sobre capacidade de geração de energia que se terá do empreendimento. 

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