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O desafio será equiparar a Educação em um país desigual

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Fotos: Camila Paes

Uma das principais premissas da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), é que todas as salas de aulas brasileiras de mesmo ano, estarão aprendendo o mesmo conteúdo, quase que simultaneamente. O documento se declara como uma forma de democratizar e tornar o ensino brasileiro, de alguma forma, igual para todos.

Entretanto, sabemos que na prática não funciona dessa forma. O sucateamento da educação pública, por vezes, impede que o ensino seja adequado para determinado ano, que a escola tenha a estrutura necessária e até mesmo, as condições familiares podem atrapalhar o desenvolvimento educacional.

Nas salas de aula de escolas particulares o cenário é outro. Há estrutura, não faltam materiais, não faltam professores e alunos e familiares são acompanhados pelos mais diversos profissionais. Será que é um documento, aprovado em 2017 e que deverá ser colocado em prática até 2020, que irá igualizar o ensino brasileiro?

Ao comparar uma escola particular e uma pública, as diferenças estruturais são muitas. Porém, o barulho de crianças brincando, jogando bola, dando risada, o carinho dos professores e dedicação, é praticamente o mesmo.

A Escola Municipal de Educação Básica Izabel Thiesen Roseto, no Bairro Vila Maria, em Lages, precisou reviver nos últimos dois anos. A professora Alexsandra Schlemper foi eleita para dirigir a escola e quando chegou, em 2016, lembra que não sabia por onde começar. Não havia sala de professores, nem secretaria. Uma cozinha funcionava do jeito que dava e apenas quatro salas recebiam os 60 alunos que estavam matriculados.

Alexsandra Schlemper fala dos desafios em estruturar a escola

Com muito esforço da equipe, arrecadações de dinheiro, busca de recursos, a escola voltou a tomar forma. Construíram e equiparam a cozinha, uma sala de professores, começaram a preparar a biblioteca, que é um dos sonhos a se realizar e no ano passado, ganharam um parquinho.

Até então, a recreação dos alunos era feita num pátio de pedra brita. As aulas de educação física ainda são realizadas neste espaço, mas a expectativa é que, aos poucos, consigam trazer ainda mais melhorias.

O apoio da comunidade contribui para transformar a realidade das escolas, exemplo disso é a doação de um terreno ao lado do Emeb Izabel Thiesen Roseto, para a construção das salas do centro de educação infantil (Ceim) do bairro. Com as melhorias, o número de alunos quase triplicou e há filas de espera para uma vaga na escola.

Além das reformas estruturais, Alexsandra também iniciou um processo de aperfeiçoamento da equipe. Em 2016, começaram encontros mensais com professores, onde trazem planos de estudos e discussões pertinentes para melhorar o desempenho de professores e alunos nas salas de aula.

Neste meio tempo, o projeto passou a discutir sobre a Base Nacional Comum Curricular. A professora revela que a escola tem uma situação atípica de outras do sistema municipal, onde a grande maioria dos funcionários são contratados e a rotatividade é grande. Assim, as discussões precisam ser frequentes, para que envolvam os novos profissionais.

A diretora ressalta que a implementação da base, mesmo com sua obrigatoriedade, é uma busca pessoal e profissional de cada professor. “A base bem estudada, bem direcionada. É um porto seguro para atender as especificidades”

Edna Flores Nunes Koerich já iniciou a discussão em sua escola

Resultado depende do comprometimento das pessoas

Há 27 anos, a Escola Mundo Encantado foi aberta pela professora Edna Flores Nunes Koerich. Há mais de 20 anos, está localizada no Bairro Sagrado Coração de Jesus. Ela deixou o cargo como professora do Estado para abrir uma escola, onde uniu a vontade de ficar próxima da família e continuar em sala de aula. Começou na garagem de casa e então, foi expandido até chegar na estrutura que está hoje. São 136 alunos, da educação infantil ao ensino fundamental.

Com a chegada do documento de 400 páginas da Base Nacional Comum Curricular, a escola realizou dois estudos. Com isso, percebeu que, em muitos aspectos, já estão enquadrados. Com isso, estão buscando colocar em prática, as competências de cada disciplina, para ativar o que já está sendo trabalhado.

A BNCC não alterou a rotina da escola, significativamente, mas sim, ampliou a discussão para o aperfeiçoamento do trabalho já realizado. Sempre pautada no respeito do ser humano, Edna ressalta que a criança é um ser que atrás dele há muitos outros.

“É um estudo constante, sempre buscando a melhor forma de trabalhar. Pessoas comprometidas com a educação, é uma sequência de aperfeiçoamento”, acrescenta. A professora acredita que tudo vem para somar e o documento só fará diferença com o comportamento das pessoas. “Tudo é possível, basta querer”, ressalta.  

Unificação está prevista na Constituição

O mestre em Educação e professor universitário, Gilberto Sá, explica que a Base já estava prevista na constituição de 1988 e no Plano Nacional de Educação, de 2014. Até o momento, o que se existia eram os parâmetros curriculares. Agora, o enfoque é a superação das desigualdades sociais, nas competências e os mesmos componentes – pelo menos minimamente – nas redes pública e privada. Gilberto ressalta que é um documento transformador, que servirá de referência para todo o ensino brasileiro, trabalhando em suas 10 competências.

“Fará uma avaliação da aprendizagem, dos professores. De uma educação totalmente conteudista, focará nas competências”, acrescenta. Será uma forma de empregar nas crianças, a habilidade de resolução de problemas, sendo desenvolvido da educação infantil até o ensino médio.

A questão é: Os problemas de diferenças da qualidade da educação brasileira serão resolvidos? Para Gilberto, trará muitas mudanças na formação de professores, infraestrutura das escolas, uma nova arquitetura geral. O que garantirá isso é que a BNCC não é uma política de Governo e sim de Estado. Tem amparo legal e é obrigatório ser implantada até o final de 2019 e aplicada no início de 2020.

Com isso, tornará a aprendizagem mais ativa e o professor deverá, cada vez mais, deixar de ser o centro da aula. Uma das questões mais desafiadoras, segundo o professor Gilberto, é que os alunos e suas famílias deverão saber desde o começo do ano letivo, o que irão aprender até o final do ano.

É uma nova forma de olhar e pensar na educação, mudando o pensamento engavetado, de cada disciplina ensinará uma única coisa. Será preciso passar a pesar em áreas do conhecimento, que segundo Gilberto, progressivamente serão superadas as ideias de disciplina. “É um diálogo interdisciplinar, que se resolve com o tempo. Será uma geração de novos professores, novas concepções sendo trabalhadas”, ressalta o professor.

Ele ainda acredita que poderá mudar indicadores educacionais, mas isso também está relacionado com o investimento na carreira de professores. “Afinal, que irá fazer tudo isso acontecer, serão os professores”, acrescenta Gilberto.

No município de Lages, assim que o documento foi aprovado no final de 2017, a secretaria de Educação passou a planejar o trabalho de discussão da base, junto com os coordenadores das áreas de conhecimento, para buscar entender as competências solicitadas.

Lages se prepara para a mudança

O diretor de ensino da secretaria de Educação de Lages, Carlos Eduardo Canani e a secretária, Ivana Michaltchuk, explicam que realizam encontros mensais de formação, com discussões referentes a esse documento, sempre tematizado em torno da base.

Canani ressalta ainda, que foi preciso trabalhar no currículo estadual e municipal, que também está previsto na legislação e faz parte de 40% documento. O Estado ouviu professores para adequar as realidades municipais e essas sugestões foram encaminhadas para a Secretaria de Estado de Educação.

Os profissionais ressaltam que a Base é uma forma de tirar os professores do lugar comum, buscando novos caminhos. É uma discussão que ainda não terminou e está em movimento, e as mudanças já podem ser agregadas diariamente nas salas de aulas lageanas. “Os professores têm se mostrado divididos e inseguros com o processo de mudança. Mas há quem esteja esperançoso. Tem causado um movimento”, ressalta Canani.

Carlos Eduardo Canani e Ivana Michaltchuk explicam que Lages está se preparando para o BNCC

Algumas mudanças da BNCC

  • Ensino religioso ganha diretrizes sobre o que deve ser ensinado do 1º ao 9º ano
  • Alfabetização deve ser concluída até o segundo ano
  • Orientações sobre identidade de gênero devem ser discutidas por comissão do Conselho Nacional de Educação (CNE)
  • Redes municipais, estaduais e federal precisam reelaborar seus currículos segundo a BNCC
  • Material didático terá que ser produzido segundo as novas diretrizes
  • Implementação deve estar completa até início do ano letivo de 2020

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