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O Brasil funcionou como uma máquina: em harmonia, superou o México e vai às quartas pela sétima vez seguida

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Neymar fez boa partida: um gol e uma assistência - Foto: Fifa/ Getty Images/ Divulgação

Um time é como uma máquina. Funciona melhor quando as engrenagens trabalham em harmonia. A partida das oitavas de final diante do México, na Arena Samara, em Samara, mostrou que a boa atuação coletiva pode sustentar a aparição da individualidade, uma marca da seleção brasileira.

A vitória por 2 a 0 impôs dificuldades, com o México pressionando na primeira metade da etapa inicial e o Brasil sabendo alterar sua composição tática para superar as adversidades — mérito de Tite. Na defesa, Miranda e Thiago Silva fizeram uma partida firme mais uma vez, com Filipe Luís aparecendo bem e Fágner exposto para defender, em uma participação abaixo das anteriores.

Coutinho foi discreto, Willian acordou e fez sua melhor partida na Copa: foi arisco e complementou o ataque, com capacidade de decidir, especialmente pelos pés de Neymar. O camisa 10 deixou o seu e deu a assistência para Firmino — que pede passagem — fechar o placar.

O México cai e o Brasil avança pela sétima vez seguida nas oitavas. Vai ter que se testar — nas engrenagens coletivas e na capacidade individual — contra o Japão ou a Bélgica nas quartas.

Os times

A última partida da fase de grupos, para o Brasil, foi de tensão. Afinal, com o empate diante da Suíça na primeira rodada e o desenrolar da chave, a Sérvia precisava vencer a Seleção caso quisesse seguir. Não conseguiu, e os 2 a 0 para os sul-americanos deram um novo gás à campanha.

Para a partida das oitavas de final, o técnico Tite seguia suas convicções mais pragmáticas. A intenção era manter a equipe-base que foi utilizada nas Eliminatórias, testada nos amistosos preparatórios e repetida na fase de grupos.

O esquema era o mesmo: 4–1–4–1. No gol, Alisson segurava sua posição. As grandes alterações estavam nas laterais defensivas. Do lado direito, Danilo, contundido, perdeu a vaga para Fágner, que se apresentou bem nas partidas em que esteve em campo.

Já na esquerda, Marcelo começava no banco, depois de acusar uma lombalgia no começo da partida contra os Sérvios. Assim, Filipe Luís era titular. No miolo da defesa, Tite continuava apoiado na experiência, o que poderia trazer algumas dificuldades contra a movimentação mexicana na frente. Com Thiago Silva, autor de um dos gols na última partida, e Miranda, ele procurava entrosar seus defensores.

Casemiro tinha a função de, ao menos no papel, ser o principal volante, mais preso à marcação, com Paulinho ajudando atrás em determinados momentos, mas aparecendo nos espaços à frente como elemento surpresa.

Philippe Coutinho, principal nome brasileiro na Copa do Mundo, aparecia centralizado como o homem de criação pelo meio. Tarimbado pelo belo gol na rodada de estreia, repetiu a dose de bico na partida brigada com a Costa Rica e deu a assistência para o gol de Paulinho, que abriu caminho à vitória.

Depois da boa atuação, Douglas Costa saiu lesionado, e tinha tudo para conseguir a vaga do lado direito do ataque. Sem ele, William foi mantido, com mais características de afunilar para o meio. Na ponta esquerda, buscando as associações e trocas de passes, além das jogadas individuais, Neymar, apoiando também Gabriel Jesus, mantido como referência ofensiva mesmo sem ainda ter marcado gols no mundial.

Do lado Mexicano, se sabe que Juan Carlos Osorio é um estrategista e monta seus times de acordo com o adversário. Contra o Brasil, não seria diferente. E a escalação se iniciava com um velho conhecido da seleção: Guillermo Ochoa.

De atuação brilhante, foi uma muralha e impediu que o 0 a 0 saísse do marcador contra a canarinho. Nas laterais, Jesus Gallardo e Edson Álvarez, a princípio, precisariam se posicionar mais defensivamente, prevendo as subidas dos pontas brasileiros. Entretanto, não abririam mão das subidas à frente.

Como ponto positivo, Osorio daria à defesa uma proteção extra. A principal alteração vinha no meio, onde aparecia o capitão e referência Rafael Márquez, zagueiro, improvisado como volante. Aos 39 anos, na quinta Copa, era titular pela primeira vez no mundial para dar mais presença e experiência na faixa central, com uma postura de mais posicionamento e estrutura defensiva, liberando Hector Herrera e Andrés Guardado, ambos com boa qualidade na recomposição e também predicados criativos na construção das jogadas.

A trinca no meio serviria outro trio mais à frente. De uma Copa interessante até o momento, principalmente pelas características do jogo, o ataque mexicano aproveita que os centro-americanos jogam sem a bola para partir nos contra-ataques para ganhar campo na velocidade. Mesmo Javier Hernández, centralizado, não tem características de centroavante.

Com uma defesa exposta, o camisa 14 é inteligente para participar do jogo com os chutadores e criativos Carlos Vela — que voltou à La Tri depois de tempos fora, canhoto de habilidade e Hirving Lozano, de ótima temporada no PSV, na Holanda, extremamente veloz. Era um jogo de xadrez.

O campinho de Brasil x México (Fifa.com)

O jogo

Juan Carlos Osorio não mentiu quando disse que o México iria para cima do Brasil. Nos primeiros momentos foi assim, e quem chegou com mais perigo primeiro foi La Tri. Guardado apareceu pelo lado esquerdo e superou a marcação de Willian para mandar para a área. O cruzamento saiu fechado e Alisson deu um soco na bola, afastando sem tanta força. Carlos Vela pegou o rebote dentro da área, mas teve o chute travado por Miranda.

O clima era intenso, e já partia das arquibancadas. E Neymar já aos cinco minutos começou a testar Ochoa. O camisa 10 apareceu à altura da meia-lua e bateu de chapa. A bola veio variando e Ochoa defendeu estranho, rebatendo para o lado.

As duas equipes tentavam sair jogando, mas a opção mexicana era pela marcação mais intensa já com pressão na saída de bola, obrigando o Brasil a rifar a bola. No campo, Osorio espelhava o esquema de Tite, com Vela caindo pela esquerda e Lozano pelo outro lado, em cima dos laterais.

E, assim, o México começou melhor, mandando a seleção para dentro do próprio campo de defesa. O Brasil conseguia trocar passes no campo de defesa e arriscava as bolas longas, sem sucesso. Enquanto os centro-americanos tinham a bola, davam amplitude ao jogo, especialmente com a participação de Guardado e Herrera na faixa central. E os comandados de Tite não conseguiam ligar os contra-ataques, optando por reduzir o ritmo — exatamente o oposto dos mexicanos. Quando aceleravam, sempre procuravam Vela pela esquerda do ataque, explorando a marcação de Fágner.

Quando tinham a bola, as duas equipes tinham comportamentos diferentes na construção das jogadas. O México procurava passes curtos e aproximação entre os jogadores, sempre seguindo às pontas. Já o Brasil, errava muitos toques. Quando acertou, deixou Neymar no mano a mano. O camisa 10 se livrou de dois marcadores com um corte seco e bateu de chapa, buscando o canto oposto, mas Ochoa fechou bem o ângulo.

Na cobrança de escanteio, Paulinho subiu para tentar o cabeceio e o arqueiro mexicano afastou. Gabriel Jesus ficou com a sobra e arriscou o chute, travado. No cruzamento para o outro lado, a bola escorada para Coutinho parou na marcação. Era um abafa quando havia calma para trabalhar o jogo.

A canarinho cresceu a partir do momento em que se posicionou com duas linhas de quatro jogadores, com Casemiro e Paulinho mais atrás, Willian e Coutinho pelos lados, soltando Neymar para se aproximar de Gabriel Jesus.

Com essa mudança de quadro, o México se irritou, e um lance serve para ilustrar a situação: Já fora do campo, Layún deu um pisão no tornozelo direito — que foi operado — de Neymar. Ele valorizou, os mexicanos fizeram pouco caso, mas a agressão aconteceu, de forma covarde. Nem amarelo o juiz deu.

Guillermo Ochoa pegou o que pode, mas não foi como em 2014 (Getty Images)

Aos 32, Ochoa apareceu bem novamente. Thiago Silva avançou até o centro do gramado e deu um passe arriscado mais à frente. Depois do corta-luz, Gabriel Jesus pegou a bola e correu pela esquerda para bater forte. O arqueiro defendeu, mas espalmou para o meio, e por muito pouco Neymar não pegou o rebote. Conseguiu amarelar seu principal marcador, Álvarez, que chegou atrasado em uma jogada pelo lado esquerdo. Os laterais-direitos tendo problemas: Álvarez com Neymar, e Fágner com Vela, ganhando os duelos individuais.

Na primeira etapa, o México foi melhor, e quando caiu de ritmo, o Brasil conseguiu criar na individualidade, mas faltava ser mais eficiente na ligação com o ataque — a aproximação entre os jogadores fez com que a produção ofensiva brasileira melhorasse em parte, explorando o cansaço do meio de campo mexicano, talvez um trunfo com Rafa Márquez por ali. Entretanto, é preciso ressaltar: Willian, mais uma vez, errou demais.

E Paulinho era o nem-nem. Não apoiava a marcação junto a Casemiro e, quando podia partir à frente, só acionava o ponta e corria para a área. Já os comandados de Juan Carlos Osorio saíram em vantagem principalmente pelas pontas, se equivocando nas tomadas de decisão e no último passe, nos lances decisivos.

O segundo tempo

Na segunda etapa, Osorio fez suas mudanças. Tirou Álvarez, amarelado, da marcação sobre Neymar, mandando Miguel Layún àquela faixa de campo. Quem saiu foi justamente Rafa Márquez. E foi numa jogada por lá que o camisa 10 conseguiu o escanteio. Dentro da área, Coutinho pegou a sobra, cortou para o meio e bateu firme, mas Ochoa estava bem posicionado para espalmar para fora.

A pressão inicial do Brasil surtiria efeito aos 5 minutos. Neymar recebeu pela ponta esquerda e conduziu a bola. Puxou a marcação para cima, trouxe para o meio e, já na meia-lua, deu de calcanhar para Willian.

O camisa 19 não estava bem na partida, mas foi decisivo: arrancou para dentro da área pela esquerda e bateu de esquerda para o meio. A bola passou por Ochoa, passou por Jesus, que chegava de carrinho, mas não por Neymar, que escorou para as redes se lançando na bola. 1 a 0 para o Brasil.

O momento do gol, com dois carrinhos simultâneos (Getty Images)

O México precisava ir à frente, então Osorio mudou. Colocou Jonatham dos Santos e Raul Giménez nas vagas de Chicharito Hernández e Álvarez. E quem ameaçava mais, com espaços, era o Brasil. Willian pegou a bola pela direita e Fágner fez a ultrapassagem. Recebeu e bateu para a área, rasteiro. Paulinho veio de trás e chapou de primeira no contrapé, mas Ochoa espalmou bem.

Aos 17, mais uma vez Willian, que cresceu no jogo, surgiu bem no ataque. Ele recebeu pela direita e soltou o pé, em chute cruzado, firme e pelo alto. Ochoa se esticou para mandar por cima da baliza. Uma mudança completa de atitude do camisa 19.

Ele avançou pela esquerda e acionou Neymar pelo meio. O camisa 10 tinha espaço pouco à frente da meia-lua e bateu de esquerda, colocado. Com desvio, a bola passou raspando a trave. A seleção mantinha o domínio da partida, e Willian ainda conseguiu mais um arremate de longe, para encaixe seguro do arqueiro mexicano.

O jogo caiu de ritmo quando se aproximava do fim. Com bastante calor em Samara, Tite andou Fernandinho a campo na vaga de Paulinho para recompor a marcação. Deixava Casemiro em campo, mesmo amarelado. E também Roberto Firmino, junto a Gabriel Jesus, no lugar do desgastado Philippe Coutinho.

E foi justamente o camisa 20 que deu números finais à partida. A jogada nasceu dos pés de Fernandinho, que viu bem a passagem de Neymar à esquerda. O camisa 10 avançou, esperou a passagem do centroavante e finalizou de bico. A bola ainda raspou na sola da chuteira de Ochoa, mas passou, e com o gol aberto era só escorar. México para casa. Brasil nas quartas.

Firmino foi às redes com pouco tempo para mostrar serviço (Getty Images)

O(s) cara(s) da partida

Willian e Neymar. O jogador do Chelsea não vinha fazendo uma boa Copa. De atuações apagadas na fase de grupos e na primeira etapa, mudou completamente na volta do intervalo e teve uma participação brilhante, recolocando o lado direito do ataque nos trilhos. Em parte, também foi responsável por liberar espaço para que Neymar pudesse decidir, com o gol e o passe para Firmino. Na primeira jogada, inclusive, deu de calcanhar e mudou os rumos do lance.

Comemoração ao estilo Quico chorando (Getty Images)

O caminho das seleções: a queda e o próximo passo

Brasil

O caminho brasileiro na Rússia não começou exatamente da maneira que se esperava. A tensão da estreia colocou os comandados de Tite em uma condição complicada: abriu o placar em um lindo chute de média distância, a marca registrada de Coutinho, mas oscilou e levou o empate da Suíça e aumentou a desconfiança, mesmo com as reclamações sobre a falta em Miranda no lance do gol.

Na segunda partida, a Costa Rica se fechou ao longo dos 90 minutos com uma linha de cinco atrás, mais quatro no meio de campo. O Brasil se soltou um pouco mais, mas o clima ainda era tenso. E se falamos em 90 minutos é porque, justamente nos acréscimos da segunda etapa, Coutinho marcou de bico por baixo das pernas de Keylor Navas, e Neymar completou o passe de Douglas Costa para as redes.

Na terceira partida, as condições eram pesadas: não poderia perder para os sérvios. Conseguiu mais o controle de jogo, anulou as armas dos europeus e marcou seus gols, aproveitando o declínio físico dos adversários.

México

Ao contrário do Brasil, os mexicanos começaram a caminhada no país soviético com uma surpresa. Trabalharam demais na marcação e souberam usar os espaços exatos para explorar as deficiências alemãs e sair com a vitória por 1 a 0 na primeira rodada.

O desgaste foi enorme, mas o ganho de ânimo foi maior. Já com os três pontos contra a atual campeã mundial — que veio a cair já na fase de grupos -, usou das suas duas principais armas para superar também os sul-coreanos: contra-ataque e velocidade. La Tri foi para a terceira partida aparentemente tranquila, mas corria riscos de, com uma combinação de resultados, ficar de fora.

Não aconteceu. Mas quando Osorio repetiu o time contra os suecos, levou um 3 a 0 sonoro e não foi para casa por detalhes, justamente porque os sul-coreanos superaram os alemães. Para as oitavas, a busca era por reavivar o sentimento e tentar marcar, pela primeira vez, um gol em um confronto decisivo contra o Brasil.

O embate

Interessante notar se a posição das duas equipes ao longo da partida seria a mesma adotada na fase de grupos. Ao contrário do que fez nas três primeiras partidas, o México foi intenso nos primeiros minutos e colocou o Brasil contra a parede.

Explorando principalmente o espaço das alas, o time de Osorio pressionou e obrigou Tite a reposicionar a equipe em campo. Depois disso, o Brasil sofreu, mas conseguiu construir seu caminho para o primeiro gol. Suportou mais pressão e matou o jogo já no final.

Tem alguns problemas para a próxima partida, a serem corrigidos. As falhas de cobertura, deixando Fágner isolado no mano a mano e a ausência de Casemiro para as quartas são preocupantes. A opção óbvia é Fernandinho, que é mais móvel, mas menos marcador

Se ficar como único volante, pode ficar sobrecarregado com a ofensividade da Bélgica ou a compactação e o ataque em bloco do Japão. Avança com méritos e aspectos elogiáveis também, especialmente pelo crescimento do ataque e a participação dos jogadores que vieram do banco, com Fernandinho iniciando e Firmino concluindo a jogada que fechou o placar. Conseguiu se adaptar no meio da partida, liberando Willian e Coutinho.

Atrás, a solidez da defesa colaborou bastante. Thiago Silva fez mais uma ótima partida e complementou bem as ações de Miranda. Filipe Luís também se mostrou útil, esforçando-se para cobrir os avanços mexicanos — por isso mesmo, saiu amarelado. Mas adiante, vale ressaltar, terá mais dificuldades. Cabe a Tite tomar a melhor decisão novamente.

Ao México, fica o processo de renovação no meio do caminho. Ainda manteve alguns medalhões, que fizeram uma boa Copa, como Guardado, e a representatividade de Rafa Márquez, provavelmente em sua última aparição em mundiais.

Também Chicharito, Ochoa vão repensar sua participação no próximo ciclo. Herrera foi uma boa surpresa, deu solidez defensiva. E Lozano é realmente um nome jovem de uma Copa consistente que pode ser um dos jogadores a puxar a juventude à seleção. Desde 1986, tenta passar às quartas de final. Mais uma vez, para nas oitavas.

Tite arrumou o time e consertou o jogo (Getty Images)

Como fica o chaveamento

O Brasil encara o vencedor de Bélgica e Japão nas quartas: o jogo será sexta-feira (Fifa.com)

Ficha Técnica

Brasil 2×0 México

Local: Arena Samara, em Samara (Rússia)

Árbitro: Gianluca Rocchi (Itália)

Gols: Neymar aos 6’/2T, Roberto Firmino aos 43’/2T (Brasil)

Cartões amarelos: Filipe Luís, Casemiro (Brasil), Edson Álvarez, Héctor Herrera, Carlos Salcedo, Andrés Guardado (México)

Cartões vermelhos: nenhum

Brasil

Alisson; Fagner, Thiago Silva, Miranda e Filipe Luís; Casemiro, Paulinho (Fernandinho aos 35’/2T) e Philippe Coutinho (Roberto Firmino aos 41’/2T); Willian (Marquinhos aos 46’/2T), Neymar e Gabriel Jesus. Técnico: Tite

México

Guillermo Ochoa; Edson Álvarez (Jonathan dos Santos, 10’/2T), Hugo Ayala, Carlos Salcedo e Jesus Gallardo; Rafael Márquez (Miguel Layún, intervalo), Héctor Herrera e Andrés Guardado; Carlos Vela, Hirving Lozano e Javier Hernández (Raúl Jiménez aos 15’/2T). Técnico: Juan Carlos Osorio

Por Luiz Henrique Zart

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