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Moradores de rua: nem todos dizem sim

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Fernando Spíndola é artesão e está de passagem por Lages, dorme embaixo da marquise do Banco do Brasil no Centro - Foto: Bega Godóy

Era noite e os termômetros marcavam 5°C quando Fernando Spíndola foi abordado pela equipe da Secretaria de Assistência Social de Lages. Apesar da calçada gelada, o rapaz improvisou uma cama sob a marquise do Banco do Brasil, no Centro de Lages e recusou o convite para pernoitar no abrigo temporário de inverno.

Assim foi o início do trabalho da assistente social, Danielle Hoffman, e do motorista André Delgado, que percorreram a cidade em busca de pessoas que estavam em situação de risco em função do frio intenso. Na noite de quinta-feira (12), eles tiveram a companhia da reportagem do Correio Lageano.  

Despachado e receptivo, Fernando contou que veio, há dois dias, de Porto Alegre para vender seus artesanatos no Calçadão da Praça João Costa. Ele quer conseguir uma passagem para Florianópolis, onde deslumbra melhores oportunidades.

Enquanto a viagem não se realiza, se vira como pode. Ele ajeitou uma cama com vários cobertores e não se desgruda de sua mochila, onde carrega seus pertences e matéria prima para produção de suas peças.

A medida que as buscam avançavam, o frio era mais intenso. Afinal, foi uma das madrugadas mais frias do ano. Em duas horas foram feitas quatro abordagens. Os profissionais também estiveram em rotas pré-estabelecidas, denominadas pela equipe como “mocó”, na Praça Joca Neves, Praça João Ribeiro e em casas abandonadas. São locais onde habitualmente as pessoas buscam por abrigo.

Cliente quase assíduo

Acostumado a usar o serviços da abrigo temporário, G.K foi acolhido pela terceira vez essa semana. O homem de 31 anos, é de Lages, e contou que está “brigado” com a esposa. Disse que mora no Bairro Copacabana, não recebe nenhum benefício do Governo e passa por tratamento de saúde em função de um acidente com arma branca.

Estava na Emergência do Hospital Nossa Senhora dos Prazeres e chamou a equipe de abordagem para levá-lo ao abrigo, assim que foi liberado do seu tratamento. Durante o trajeto, falou muito e principalmente em “tomar um rumo na vida”. Chegou com fome, jantou e foi dormir.

Por entender que a vida nas ruas é um fenômeno bastante complexo a equipe de abordagem é paciente e como as abordagem são diárias, a equipe conhece cada um e seus esconderijos

Equipe é persistente

A equipe é incansável e insistente. Mesmo diante de recusas de ajuda anteriores, voltam ao local.  Quase toda noite seu Wilson Floriani de Lima recebe a visita. Há seis meses em situação de rua, recolhe-se num cantinho de uma loja na Avenida Luís de Camões, no Bairro Coral.

Beneficiário do Bolsa Família, o homem de 37 anos tem familiares em Lages e, segundo ele, não os procura porque não quer incomodar. “Eles têm a vida deles”, argumenta ao contar que tinha emprego num sítio, mas com a morte do patrão teve que voltar para a cidade.

Pai e filho peregrinam há décadas

Outro caso curioso é do seu Ubiratan José Gomes, o Bira  e seu filho Alican. Eles vivem em situação de ruas há décadas. Seu Bira foi o primeiro a usar a rua como moradia, mais tarde o filho o acompanhou. A dupla dorme na frente da Igreja São Cristóvão, no bairro de mesmo nome.

Na entrada montaram praticamente um acampamento. Lá tem de tudo, uma bicicleta, uma “gaiota” para carregar seus objetos durante a peregrinação diária e outras coisas que não não foram identificadas, pois estavam debaixo e uma lona preta.

No começo da abordagem ambos foram receptivos. Seu Bira, tentando impressionar ao usar palavras difíceis e às vezes incompreensíveis e bem fora do contexto,  colaborou até se chatear e cismar que alguém queria tirar algo dele. O filho entre uma cochilada e outra tentava acalmar o pai. Sem sucesso. O jeito foi deixar os dois se entenderem. Quando a equipe se retirou ele gritou: “O que eu quero é uma casa para morar”.

Maioria são lageanos

Cada pessoa em situação de rua tem história e motivação diferente para estar nesta condição, porém, o uso de substância psicoativa está quase sempre relacionada. A maioria é de homens lageanos com idades entre 20 a 40 anos.

As desculpas para não ir para o abrigo também são muitas: vão trabalhar, buscar a família, estão esperando resposta de um negócio, e interessante: tudo previsto para o outro dia. Há quem argumente que tem animais de estimação e não podem levá-los. Esse pretexto não “cola mais”, pois no abrigo há três casinhas para cães e os animais são acolhidos também.

Frio intenso

A frente fria que derrubou as temperaturas nos últimos dias, em Lages, preocupa a equipe de abordagem. O atendimento à população em situação de rua foi intensificado . A ação começou na segunda quinzena de junho e, pelo terceiro ano consecutivo, os profissionais identificam as pessoas em situação de rua para convidá-las a usar o serviço do abrigo temporário de inverno.

Não é uma tarefa fácil. Nem todos estão dispostos a aderir, uma  vez que, não é uma imposição. O serviço não tem limitação, ou seja, pode ser usado todos os dias. Naquela noite, 42 pessoas estavam no abrigo. O uso dos serviço não tem limitação, ou seja, pode ser usado todos os dias. A equipe é composta por uma assistente social, uma psicóloga e dois motoristas.

Sem imposição

O serviço da abordagem social deve garantir às necessidades imediatas da pessoas atendidas, faz os encaminhamentos para a rede socioassistenciais e nas demais políticas públicas, na perspectiva da garantia dos direitos.

“Algumas pessoas não adere aos serviços por causa do uso de substâncias psicoativas, pois nestes espaços não podem fazer o uso e com isto não permanecem para os atendimentos e encaminhamentos que são propostos a eles”, explica a assistente social, Danielle Hoffman.

Juntos, segundo Danielle se constroem um caminho de superação das vulnerabilidades e riscos. Por isso, a importância de ouvir as pessoas, entender seus desejos, demandas e necessidades, para inseri-las nos serviços públicos da cidade, como saúde, educação, habitação e cultura, entre outros.

Recursos mantém o serviço

Para custear o acolhimento no abrigo temporário, os recursos vêm do Cofinanciamento Federal, através da Fundação Nacional de Assistência Social do Ministério do Desenvolvimento Social. Segundo diretora da Proteção Especial de Alta Complexidade, da Secretaria de Assistência Social, Jamile Araújo Yared, em caixa a secretaria tem  R$ 97 mil, mas a quantia não é suficiente e terão que ser completados com recursos próprios da prefeitura.

Jamile lembra que além do serviço de Proteção a Situação de Emergência (abrigo temporário de inverno), há outros serviços ofertados pela secretaria, como a abordagem social, o Centro Pop, (Acolhimento Pop 24h) um serviço de acolhimento institucional para adultos e famílias.

Várias demandas

Para o abrigo temporário de inverno são levadas as pessoas que aceitam a abordagem, demandas espontâneas, as encaminhadas pela Polícia Militar e Defesa Civil e migrantes que desembarcam na rodoviária e não têm dinheiro e nem para onde ir. O local tem capacidade para 100 pessoas e acolhe inclusive mulheres. A ideia é que o espaço esteja disponível para esse público até outubro.

Onde procurar ajuda

A equipe de assistência social faz a abordagem tentando aliviar um pouco a vida dessas pessoas. Em Lages, além do abrigo temporário há o Centro de Referência para População em Situação de Rua (POP). Coordenado por Mara Rita da Silva, fica na  Rua Juca Antunes Lucena, perto do Ambrósio Material de Construção no Bairro Copacabana. Esses serviços estão previstos na Lei de Tipificação dos Sistema Único de Assistência Social (SUAS)

Como ajudar

Situações de risco à vida humana nas vias públicas da cidade podem ser comunicadas através do plantão de abordagem social pelos telefones: 98406-2980 e 99921-1125. É importante o solicitante ter o nome da rua e o ponto de referência para indicar ao atendente.  O abrigo oferece refeições, pernoite, banho, roupas e produtos de higiene pessoal. Funciona das 18 horas às 7h, nos sete dias da semana.

No Centro de Referência para População em Situação de Rua (POP) são oferecidos atividades, alimentação, assistência social e psicológica. O usuário conta com cuidador e educador social. Atende de segunda-feira a sexta-feira das 8h às 18h.

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