Quem caminha pelas ruas de Lages ou senta à mesa de um bar tradicional da cidade, certamente já ouviu expressões como “hóme do céu“, “mazáá“, “acarcou” ou “carque ficha“. Essas e outras palavras fazem parte de um verdadeiro dialeto local: o lageanês, uma forma única de se comunicar que mistura sotaque, regionalismos e herança cultural. A linguagem, falada com orgulho pelos moradores da maior cidade da Serra Catarinense, é tema de uma das matérias especiais em homenagem aos 259 anos de Lages, celebrados em 22 de novembro.
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Mais do que sotaque: um modo de ser
O lageanês não é apenas um jeito de falar. É uma manifestação da identidade serrana. Segundo o educador e contador de histórias Adilson de Oliveira Freitas, esse tipo de oralidade carrega a memória de povos que formaram Lages: indígenas Xokleng e Kaingangs, tropeiros paulistas, negros escravizados, colonos italianos e alemães. O contato entre essas culturas, especialmente ao longo dos caminhos de tropas, moldou um vocabulário próprio que resiste ao tempo e continua vivo no cotidiano.
“Temos que preservar esse jeito de falar. Ele diz de onde viemos, quem somos e como nos relacionamos com o mundo”, diz Adilson. Palavras como “piá véio“, “puizóia“, “periga“, “mazumeno” e “bah…caxi” são exemplos da riqueza dessa fala, que também se destaca pela musicalidade, pelas interjeições e pelo uso exagerado da fonética nas últimas sílabas.
O bar e o restaurante como pontos de resistência
Lugares como o Bar Snoker, na rua Manoel Thiago de Castro, e o Restaurante Galpão Gaúcho, na avenida Duque de Caxias, são verdadeiros pontos de resistência e celebração do lageanês. No Bar Snoker, em funcionamento desde 1976, o proprietário Isaulino Cardoso Filho, o Filho, é uma figura conhecida por manter vivas as tradições linguísticas entre os frequentadores da sinuca, da cachaça e da boa prosa.
No Galpão Gaúcho, o empresário e músico Romualdo Bohrer acolhe visitantes com seu jeito campeiro e com uma coleção de 18 tipos de cachaças artesanais com nomes típicos da região, como “Tatu Mulito“, “Sartá os Butiá” e “Suco de Sogra“. Ele até transformou palavras do lageanês em música, com a canção “Num Estilão bem Lageano“, apresentada em edições da Sapecada da Canção.
Um patrimônio em forma de fala
A linguagem lageana transcende a gramática. É expressão cultural, ferramenta de inclusão e, ao mesmo tempo, marca de distinção local. No dia a dia, está presente nos diálogos das ruas, nas piadas, nos causos, nos conselhos de vó e nas conversas entre amigos. E mesmo quem não nasceu em Lages, como Isaulino e Romualdo, acaba adotando o jeito de falar e se sentindo parte da comunidade.
A oralidade, segundo especialistas, deve ser vista com o mesmo valor da linguagem escrita. Ambas têm sua complexidade e função social. Mas é o modo falado, o informal, que mais conecta as pessoas à sua identidade e à sua história.
Como isso impacta sua vida?
Falar lageanês é mais do que usar gírias. É carregar nas palavras o orgulho de uma cultura própria. Reconhecer o valor dessa linguagem é preservar a história de um povo, fortalecer os laços comunitários e garantir que as futuras gerações continuem se expressando com autenticidade. Em tempos de padronização cultural, valorizar o jeito lageano de se comunicar é um ato de resistência e pertencimento.