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Eloir trabalha na Ferrovia, em Lages, desde 1992

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Foto: Susana Küster

Depois de duas décadas, o governo ainda tenta fechar a Rede Ferroviária Federal, que no seu auge, operou em 39 mil quilômetros de ferrovias e teve 120 mil funcionários, treinados em 30 escolas. Criada em 1957, a rede incorporou 18 empresas regionais.

Em Lages, na década de 1960, contribuiu para desenvolver toda a região, inclusive originando um dos bairros mais antigos da cidade, o Ferrovia.

Ainda há moradores no bairro que trabalharam na rede. Um deles, Eloir Dal Pizzol, 64 anos, trabalhou 37 anos na ferrovia. Começou em Joaçaba em 1972, e foi transferido para Lages em 1992.

A tradição de trabalhar em ferrovia é de família, foi o primeiro emprego dele, do avô e do pai. Ele atuou como supervisor de operações e como chefe geral durante seu trabalho na rede ferroviária. Também precisava sair para vender frete.

Lembra que, como chefe, era responsável em organizar o trabalho dos cerca de 100 funcionários, sendo que 32 eram maquinistas e a equipe era dividida em três turnos. Em média, ele conta que passavam 25 trens por dia na estação de Lages.

Na época, diz que era descarregado adubo para cooperativas, trigo para o Letti e 60 mil litros de diesel a cada dois dias. “Podiam usar melhor a ferrovia, transportar grãos e outros produtos”.

Pizzol diz que todos davam o sangue pelo trabalho. Lembra que quando privatizou, foi preciso jogo de cintura para saber lidar com as diferenças de uma empresa estatal e privada.

“Eu ficava pensando de madrugada como resolveria os problemas. O pessoal que trabalhou lá não gosta muito de mim, porque eu era chefe e precisava cobrar”.

Antes da rede ferroviária privatizar, foi pedido para ele dizer nomes de funcionários que mereciam promoção. As pessoas que ele não indicou foram demitidas.

“Eu não sabia dessa intenção deles, mas foi tudo premeditado”. Ela acredita que se não tivesse privatizado estaria trabalhando até hoje.

A casa em que ele e a família moram hoje foi cedida pela empresa enquanto trabalhava, mas quando se aposentou, decidiu comprar. Ele acredita que de Mafra até Lages, deve ter cerca de 300 casas abandonadas e deterioradas.

 

Uma vida construída com o trabalho na ferrovia

Aos 71 anos, José Braga do Nascimento lembra com saudade do tempo que trabalhava na ferrovia, que foi de 1971 até a privatização, em 1997, que foi quando também se aposentou.

Ele atuou como conservador de linha, calibrador de pneu de vagão, cuidava do abastecimento e da circulação de trens e depois foi para o escritório cuidar de questões burocráticas.

Mas não desempenhou todas as funções em Lages, antes trabalhou nos municípios catarinenses de Calmon, Caçador e Porto União. “Eu era que nem cigano, em Lages comecei em 1984”.

Mesmo acostumado com a vida na roça antes de ir para ferrovia, a parte mais difícil do trabalho foi quando atuou como conservador de linha.

Fazia um serviço braçal, como troca de dormento, nivelamento e limpeza de valetas e das linhas.

A casa em que mora hoje com a família fica na Rua Francisco Pinheiro Melo, criada para implantar as residências de trabalhadores da ferrovia.

 

Patrimônio não se restringe somente a vagões

Apesar de ser uma ferrovia, a Rede Ferroviária Federal possui um estádio de futebol em Curitiba (PR), um terreno de 227 mil metros quadrados, que fica próximo a um porto, em área nobre, e uma ilha em Angra dos Reis.

Muitos imóveis vieram junto com as 18 empresas absorvidas, pois os novos donos são obrigados a tomar posse de tudo o que há nele.

A situação patrimonial da rede ferroviária mostra a desorganização dos ativos públicos. Muitos terrenos e bens da companhia não foram registrados.

A posse de um local por usucapião, que acontece depois de cinco anos, foi uma das coisas que protege os bens das empresas públicas e favoreceu a negligência da administração em não registrar as propriedades.

Devido a falta de registro, desde 2007, o governo federal tem 236 servidores e o gasto de R$ 12 milhões neste ano para identificar os imóveis e os terrenos da rede. O inventário até agora levantou R$ 11,6 milhões.

O governo deu até julho para o inventário ficar pronto, mas os responsáveis disseram que não terminam até dezembro. Afinal, ainda faltam entre outras ações, analisar 35 quilômetros lineares de papéis da estatal. O trabalho de inventário começou em 2007.

Mas, depois de identificar os bens, vem outro problema, o que fazer com eles. Para pagar ações trabalhistas contra a rede, algumas propriedades no valor equivalente a R$ 1,4 bilhão foram depositadas em um fundo da Caixa Econômica Federal.

O dinheiro arrecadado com a venda de imóveis ficaria como forma de pagar as ações perdidas na justiça. Porém, dez anos se passaram e a soma dos imóveis vendidos chegou a R$ 250 milhões. A ideia agora é fechar o fundo e entregar as propriedades para a Secretaria de Patrimônio e União.

Os processos, que já foram 37 mil em 2007, hoje tratam de 250 assuntos diferentes. Os principais temas são: remuneração e verbas indenizatórias, penhora, avaliação ou indisponibilidade de bens.

 

Questão ambiental

Este é outro problema, pois o grupo do inventário fez um estudo em 80 áreas em instalações desativadas, como usinas de tratamentos de peças e pátios de abastecimento.

Foram identificados vazamentos de óleo em solos. Ainda é preciso fazer um estudo para o governo saber quanto que custaria para resolver o problema.

 

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