Cotidiano

Boicote à aula foi para exigir providências por parte da escola

Reclamações referentes ao comportamento de uma menina de três anos teria sido o motivo de tal mobilização

 Era um dia como outro qualquer. Guilherme Moreira Thomazi saiu com a filha de casa para levá-la à escola. Uma escola particular, em Lages. A pequenina e o pai chegaram e foram brincar no parquinho, como de costume, antes de a aula começar.

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Thomazi percebeu que havia algo diferente, e a confirmação de sua desconfiança se daria horas mais tarde quando foi buscar a criança. Às 17h30, ao chegar na sala de aula, percebeu que ele era o único pai da turma de sua filha, e ela, a única criança. Estavam com a menina, a professora e uma auxiliar. “Perguntei se eu havia chegado tarde, o que eu sabia não ser o caso, mas estava espantado e a professora assistente me comunicou que minha filha havia sido a única criança a ir à aula naquele dia. Logo eu soube que os pais dos demais colegas haviam, em segredo, combinado boicotar o dia letivo, tendo como alvo minha filha, de três anos.”

Histórias como essa acontecem todos os dias nas escolas de todo o país, mas com uma diferença: esse caso veio à tona a partir da publicação de um artigo escrito pelo pai da criança, em um jornal de circulação estadual, no qual se posiciona de maneira corajosa sobre o episódio. Segundo ele, a partir disso, foi procurado tanto por pais da classe de sua filha, pedindo desculpas (explicavam-se, diziam terem sido ludibriados por algumas mães, quanto à forma e conteúdo do boicote); quanto por pais de outras classes, colégios e até de cidades diferentes, parabenizando e comentando situações semelhantes.

Uma das mães que procurou Thomazi para pedir desculpas disse que “estava confusa e se colocava à disposição para conversar. Que deixou se levar, ser manipulada pelas demais. Estava com medo da perseguição se voltar contra o filho dela. Outra mãe telefonou para a escola no dia do acontecido e disse que o filho não foi à aula por estar doente, e que não concordava com a atitude dos demais. E houve uma mãe que se aproximou de mim, fez-se de desentendida, mencionando que as outras se reuniram para combinar o ato, e com algumas perguntas que lhe fiz, caiu em contradição. Permiti que escapasse da situação com um pretexto qualquer, dizendo que conversaríamos outro dia – o que não ocorreu, nem ocorrerá.”

De acordo com o pai, na semana seguinte ao ocorrido, ele e a mãe da pequenina e os outros pais e mães começaram a ser chamados e atendidos separadamente na escola. “O comportamento de rebanho que os pais dos colegas de minha filha demonstram não é um espanto. Nem o fato de não haver alguém digno, que pudesse, com uma mensagem, comunicar o ato de estupidez, e mitigar seus efeitos perversos o é. A covardia é uma das características deste comportamento. Age-se em grupo, dilui-se a responsabilidade e a culpa, e como agravante, age-se à distância, sem se mostrar. A intenção foi a de exposição e constrangimento público de uma criança e seus pais. O espanto é não sentirem vergonha.”

O motivo

No dia do ‘boicote’ a escola recebeu um comunicado dos pais, informando que as crianças não compareceriam à aula naquele dia, como forma de protesto à “falta de eficiência das atitudes tomadas [pela escola] e a omissão de uma resolução efetiva com os problemas da turma”. Nesse mesmo documento, os pais alegavam ter apresentado, à instituição, reclamações anteriores sobre problemas de comportamento da menina. E, ainda, exigindo que as escola tomasse providências.

Ministério Público

Entre as ações tomadas pelo pai da criança, está um documento entregue ao Ministério Público informando a situação e que a instituição de ensino foi surpreendida pela ação dos pais. Ele coloca que percebeu que a filha estava angustiada e, por diversas vezes, queria saber o motivo pelo qual os colegas não tinham ido à escola.

 Thomazi explica que elaborou este documento para “frear desdobramentos piores, ou algum tipo de perseguição”. Ainda que o Ministério Público deverá pedir explicações da escola. Além disso, entende que, sem isso, não teria força para seguir em frente.

Posição da escola

Procurada pelo Correio Lageano, a escola preferiu não se manifestar sobre o caso.

 

Posição de especialistas

Gisele Willrich Narciso Agostini, Mestre em Ambiente e Saúde, Psicóloga / Neuropsicóloga Clínica

“Respeitando as fases do desenvolvimento, a criança inserida na educação infantil encontra-se na fase oral e, por sua vez, possui a boca como representação para conhecer o mundo, ou seja, uma fonte de descobertas. A mordida está associada à forma de manejar os impulsos e sentimentos do universo da criança.

Muitas vezes, o ato da mordida, pode estar envolvido em vários fatores comportamentais e sociais e, muitas vezes, equivocadamente, está associado à maneira da própria família demonstrar afeto com brincadeiras representadas pela mordida.

No contexto escolar, a equipe pedagógica, juntamente ao professora, tem a função de acolhimento tanto à família da criança que mordeu quanto às famílias das crianças que foram mordidas, resguardando a integralidade física e emocional desses alunos. Nesse momento é importante não julgar ou rotular os pais desta criança que cometeu o ato da mordida, esse olhar só intensifica o problema de exclusão e prejudica a convivência escolar. Cabe uma presença maior dos pais na escola, como auxílio nas estratégias, a fim de, juntos, minimizar o comportamento existente.

Ao professor deve agir de maneira assertiva, mostrando para a criança que mordeu o quanto machuca, dói, deixa marcas, legitimando, assim, o sentimento da criança que sofreu a agressão e jamais deixar passar a situação sem a intervenção do adulto e/ou professor.

Em outros momentos, propiciar também elogios à esta criança, reconhecendo o comportamento funcional que a mesma apresenta em outras situações escolares.
Em contrapartida, hoje vivemos, infelizmente, na educação entre pais e filhos, uma inversão de valores, onde os pais assumem uma postura de superproteção e colocam seus filhos numa bolha e perdendo, com isso, o significado entre desejo e direito nessa forma de educar.”

 

Kauane Miranda Lass Pereira, Psicóloga

“Neste contexto compreende-se que assim como a escola, a família é também uma instituição importante no desenvolvimento da socialização e educação. Assim, orientações deveriam ser fornecidas da escola às famílias, no sentido de superar dificuldades comportamentais, como o descrito, onde percebe-se que a criança enfrenta uma situação de sofrimento e expressa da forma que pode. Assim, faz-se necessário, também, os pais utilizarem o apoio verbal e o acompanhamento das atividades diárias realizadas.”

 Raquel Angeli, Professora, especialista em Psicopedagogia Clínica e Institucional e Educação Especial e Inclusiva, mestranda em Educação, Políticas Públicas.

“Na minha opinião, os pais que realizam essa atitude de descriminação a uma criança de apenas trê anos, que está passando por um momento emocional delicado, estão passando aos seus filhos que nesse mundo o problema do outro não pode influenciar na sua vida.

 Os pais estão ensinando seus filhos a serem individualistas, pois a criança, em uma situação de dificuldade, tende a chamar a atenção dos pais de alguma forma, e regredir no seu desenvolvimento. Isso é muito comum. Na verdade, essa criança pode ter voltado à fase oral, na qual é normal as crianças se morderem, pois estão conhecendo o mundo pela boca.

 Os pais deveriam realizar um grupo no WhatsApp para tentar ajudar e não causar problemas. Estamos vivendo em um mundo extremamente individualista, não sei se este fato aconteceu em uma escola pública ou privada. Muitas vezes, a discriminação não veio somente pela mordida, mas sim por fatores socais”.

 Estudo

A ONG Save the Children, voltada para a infância, tem a seguinte definição: “A violência contra a infância é definida como a ação ou a omissão que produz dano e que ocorre em uma situação de impossibilidade de defesa ou de desequilíbrio de forças”.

O bullying é o mau trato físico e/ou psicológico deliberado e contínuo no tempo recebido por uma criança ou adolescente da parte de outros, com o único objetivo de prejudicá-lo e submetê-lo, a fim de alcançar um objetivo determinado ou simplesmente para satisfazer o impulso violento do agressor. Pode significar silêncio, ameaças, agressões físicas, gozações, rechaço, exclusão.

 Costuma ser iniciado e liderado por outra criança e seguido por um grupo de cúmplices, que se tornam necessários. Algumas têm parte ativa, seguindo as instruções do agressor, enquanto as demais, a maioria, preferem olhar para outro lado a fim de “não se meter com problemas”. A vítima se sente só e muito indefesa, enquanto os adultos referenciais, ou seja, pais e professores, dão pouca importância às queixas da criança agredida ou nem sequer ficam sabendo do ocorrido.

 Desabafo do pai (Em fragmentos)

“As pessoas deixaram de ver normalidade nas disputas entre crianças, que não sabem ainda lidar com as emoções. Em tempos de superproteção tóxica, quando duas crianças brigam, os pais ficam ofendidos uns com os outros e divulgam pelos grupos em redes sociais suas imprecações. Enquanto isso, as crianças já voltaram a brincar juntas -Até que os pais as separem!

Era costume das crianças na sala da minha filha, chamar a professora quando houvesse um desentendimento. Fui informado por duas mães (em separado) que os colegas de minha filha foram instruídos pelos pais a bater nela, especificamente, diante de qualquer conflito. E, no convívio e relato das crianças, isto também foi alertado a mim pelas professoras. (…)

(…)Minha filha é uma criança muito física. Vivemos em uma chácara em contato com a terra e os animais. Muitas vezes, quando frustrada, usava sua força em alterações com colegas, mas trabalhamos no primeiro semestre para corrigir seu temperamento impulsivo e as agressões (sendo represálias ou não) cessaram. Ela é forte e carinhosa. Foi dar um abraço em uma coleguinha e a machucou. Correu para dar um beijo em outra (que fugiu por brincadeira) e aquilo que conseguiu agarrar foi uma mecha de cabelo, e pronto, a amiguinha veio ao chão e chorou (presenciei este episódio e, na sequência, acompanhei a coleguinha de mãos dadas com minha filha até sua mãe para que explicássemos o episódio e houvesse o pedido de desculpas).

 Ensino e demonstro à minha filha como realizar gestos de respeito, cuidado e deferência. Demonstro como cumprimentar a todos, agradecer e se desculpar. Ela é reconhecida em todos os ambientes que frequenta por estes aspectos, seu carinho e educação.

 Neste segundo semestre minha filha esteve envolvida em três episódios dignos de registro no diário de classe. No primeiro, uma colega bateu sua cabeça contra o armário com força o suficiente para que a fizesse chorar e gerasse um galo. No segundo episódio, outra colega mordeu seu braço, deixando marcas perfeitas de todos os dentinhos. E minha filha, como já há meses deixou de retribuir uma agressão, não fez mais que chorar.

 De minha parte, não há nada a fazer em relação a estas agressões. Essas coisas são normais. Diversas vezes, encontrei minha filha com arranhoes e mordidas. Caso julgasse necessário, em situação de agressões recorrentes, procuraria aumentar junto aos demais pais o convívio das crianças em expediente extra-classe, para que aprofundassem laços e o problema se resolvesse naturalmente (E isso já fiz com sucesso na escola anterior, com duas colegas de minha filha.

 Uma a agredia, a outra era sua vítima. Mas as meninas não se desgrudavam em sala! -E continuam amigas hoje). Jamais me ressentiria com os pais ou cobraria deles. Mas quando o contrário ocorre, a coisa torna-se uma ofensa pessoal.
No terceiro episódio, durante uma brincadeira de pega-pega minha filha arranhou por acidente um coleguinha ao lhe agarrar a camiseta (presenciei o pai do menino tomando satisfações da professora de modo opressor e moralmente agressivo, em porta de sala de aula diante de outros pais que buscavam seus filhos).

 Pronto. Foi a gota da água. Essas três crianças eram parte do núcleo de convívio mais próximo em sala de aula, amigos entre si. Acontece que o menino é filho de um casal que fomentou o episódio de 22 de setembro, e que tão logo desencadeou o gesto, levando de arrasto por efeito manada os demais pais, debandou e matriculou o garoto em outro colégio.

(…)Não me apego ao superficial e a conceitos e ícones fáceis que me desobriguem ao rigor por justiça e reflexão em minhas opiniões e posições morais, e busco incutir isso em minha filha. Nunca teria aderido a uma atitude que expusesse uma criança da forma como fizeram à minha filha, nem a seus pais (ainda que estivessem em suas opiniões rigorosamente certos acerca da monstruosidade da criança.

Errados no mérito e no procedimento), onde no dia 22 de setembro, diante de todo um colégio, pais de outras classes ficassem constrangidos por aqueles covardes que se escondem, sem nunca terem procurado a mãe de minha filha ou a mim para conversar sobre alguma discordância ou problema de convívio entre nossos filhos – coisa que não há. As crianças se adoram e têm um convívio perfeitamente normal, de muitos risos e eventuais choros. (…)”