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80 anos da Segunda Guerra Mundial: Imigrantes são perseguidos pelo governo em Santa Catarina

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Ernest Ludwig Rosenfelder, ao centro, idolatrava Hitler e foi preso em Florianópolis - Fotos: Arquivo Público de Ibirama

A Segunda Guerra Mundial iniciou há 80 anos, em 1º de setembro 1939, quando a Alemanha invadiu a Polônia. O fim do confronto foi só em 1945. Depois que o Brasil entrou na Guerra, em 1942, contra os países do Eixo, Alemanha Itália e Japão, imigrantes desses países tiveram que enfrentar a desconfiança do Estado brasileiro.

Em Santa Catarina, moradores dessas colônias foram obrigados a falar português. A política nacionalista do Estado Novo, que tinha como ditador, Getúlio Vargas, foi implacável com essas pessoas. Em Santa Catarina o interventor estadual era o lageano Nereu Ramos, que fez valer a determinação federal com a perseguição a possíveis simpatizantes do nazismo e do fascismo. 

A historiadora Juçara de Souza Castello Branco, em sua dissertação, “Alemães em Lages: uma trajetória de conflitos e alianças guardadas pela memória,” afirma que na região Sul a política de nacionalização relacionou o uso da língua ao sentimento de brasilidade.

Segundo ela, “O projeto homogeneizador do Estado Novo viabilizou um controle sobre a sociedade, centralizou as informações e difundiu padrões homogêneos de conduta. A partir de então, teuto-brasileiros e ítalo brasileiros que aqui viviam foram obrigados a abandonar o uso do alemão e do italiano, mesmo quando não tinham o domínio do português.” 

Pesquisas indicam que nem todos os alemães e italianos, e seus descendentes, eram simpatizantes dos regimes autoritários. Por outro lado é verdade que haviam núcleos nazistas e fascistas no Estado de Santa Catarina.

A historiadora, doutora em história cultural, Sara Nunes, fez uma pesquisa na cidade de Ibirama, antiga Hansa-Hammonia, uma referência a empresa colonizadora alemã, e descobriu muitos registros fotográficos com a suástica, símbolo nazista, e com pessoas fazendo a posição de saudação “Heil Hitler.”

No Estado Novo (1937 a 1945), Nereu Ramos, interventor nomeado por Getúlio, foi um dos grandes expoentes da política de nacionalização implementada pelo Governo Federal como forma de perseguir os alemães, italianos e japoneses. “O interventor foi muito presente e atuante. Há registro fotográfico das visitas constantes que ele (Nereu) fazia nos locais de Santa Catarina de colonização alemã, como Blumenau, Joinville, atual Ibirama, antiga Hansa-Hammonia,” explica Sara.

Ao mesmo tempo que existia uma perseguição as populações de origem alemã, muitas vezes, de forma absolutamente arbitrária, havia os simpatizantes do nazismo. “Os alemães quando vieram para Santa Catarina, nas empresas colonizadoras, vieram para uma região que era desassistida pelo Estado, houve um choque muito grande de culturas e extermínio de indígenas,” comenta.

Mas por outro lado, segundo Sara, havia total desassistência do Estado em relação a esses colonos que para cá vieram, e isso fez com que esses colonos construíssem suas próprias escolas em torno das igrejas, já que não existia escola com língua portuguesa.

“Eles não sabiam falar português, muitos deles, e com a política de nacionalização da Era Vargas, durante a Segunda Guerra Mundial, essas pessoas que não sabiam falar o português correto, começaram na noite para o dia a serem obrigadas a falar, caso contrário eram presas como suspeitas. Muitas foram presas apenas por não saberem falar o português, não significava que eram adeptas ao nazismo,” diz.

Ela também afirma que de fato existia foco muito forte de pessoas adeptas ao nazismo. “Em Ibirama, eu fiz um trabalho onde achei várias fotos com o símbolo da suástica, tenho depoimento da neta de Ernest Ludwig Rosenfelder que era, declaradamente, fã do Hitler, inclusive tinha o bigode igual ao líder do nazismo e que acabou morrendo na prisão em Florianópolis.” 

Alemães em Lages

A historiadora Juçara de Souza Castello Branco afirma que desde o início do século XX, em Lages, havia, entre os intelectuais, quem acreditasse que a Alemanha possuía projetos imperialistas para o Sul do Brasil, e particularmente em Lages, no início do século XX.

“Em 1903, o jornalista e político lageano Otacílio Costa, em dois artigos intitulados: Colonização Allemã (sic) – Germanização, aponta para o mito do perigo alemão, considerando seus projetos expansionistas”. Há de se lembrar que a oligarquia dos Ramos, no Planalto, e dos Konder, no Vale eram adversários políticos, e o Vale era formado por imigrantes alemães. 

“A mentalidade de contar com os norte-americanos como amigos e com os alemães como inimigos, encontrou eco na sociedade lageana na ocasião em que o Brasil rompeu as relações comerciais e diplomáticas com o Império Alemão, em 17 de abril de 1917, logo após o afundamento do navio brasileiro Paraná, incidente atribuído aos alemães,” relata. 

Segundo a pesquisa, até 1942, ano em que o Brasil entrou na Guerra, filhos, netos e bisnetos de alemães que viviam em Lages se identificavam como alemães, independentemente de terem nascido no Brasil.

“Em Lages este conflito foi particularmente significativo após a implementação da política de nacionalização durante o Estado Novo. Esta política defendia a idéia de homogeneidade étnico-cultural-religiosa entre os cidadãos brasileiros.”  

Um velório na cidade de Ibirama, Santa Catarina onde aparece a suástica na bandeira

A Segunda Guerra Mundial

A Segunda Guerra Mundial teve os conflitos centrados na Europa, mas também fora dela, com batalhas no norte da África, e países asiáticos. Foi durante a Segunda Guerra Mundial que aconteceu o Holocausto judeu. 

A Alemanha, na década de 1920 passou por uma crise econômica, a inflação estava descontrolada e havia muitos desempregados. Uma condição excelente para que o líder populista, Adolf Hitler, do Partido Nacional Socialista da Alemanha, conquistasse mais poder.

Seus discursos que atraíam multidões, eram baseados na ideologia anti-semita, tinha como promessa recuperar a economia e a força militar do país. A Europa já havia sofrido com a 1º Grande Guerra (1914 a 1918), e países como França e Inglaterra queriam evitar confronto armado, porém, o governo alemão pensava justamente o contrário.

Em 1º de setembro de 1939, as tropas nazistas invadiram a metade ocidental da Polônia. França e Inglaterra, cumprindo o compromisso assumido com o governo polonês de garantir a integridade territorial daquele país, declararam guerra à Alemanha. 

Perseguição aos judeus

O anti-semitismo, uma política de estado no período Nazista, ganhou mais força, especialmente na Alemanha, por causa de teorias biológicas racistas. Os judeus eram classificados como uma “raça deformada”, uma ameaça à “raça ariana”.

Nessa visão preconceituosa, não apenas os judeus que deveriam ser exterminados nos inúmeros Campos de Concentração, mas também ciganos, os deficientes físicos e homossexuais. Para se aprofundar mais sobre o assunto há inúmeros livros e filmes sobre o tema (ver ao lado).

  • O Diário de Anne Frank (livro e filme)
  • O Pianista  (filme e livro)
  • A Lista de Schindler (livro e filme)
  • O Brasil na Mira de Hitler (livro)
  • O Piloto de Hilter (livro)
  • Todas as mulheres de Hitler (livro)
  • Resistência, A História de uma mulher que desafiou Hitler (livro)
  • A Vida é Bela (filme)
  • Olga (filme)
  • Olga Benario Prestes. Uma Comunista nos Arquivos da Gestapo (livro)
  • Noite e neblina (filme)
  • O Menino do Pijama Listrado (filme)

O Brasil vai à Guerra

A 2º Guerra Mundial terminou em 1945. A batalha reuniu de lados opostos Alemanha, Itália e Japão, representando o Eixo e do outro, Estados Unidos, Inglaterra, Rússia (União Soviética) e França – os países Aliados.

O Brasil só declarou Guerra aos países do Eixo em 1942, quando o país era governado por Getúlio Vargas, na Ditadura do Estado Novo. O ditador brasileiro demonstrava mais proximidade com o líder Nazista, porém, tanto Alemanha quanto Estados Unidos eram os importantes aliados comerciais do Brasil.

O ministro das relações exteriores, Osvaldo Aranha, foi determinante para definir o lado brasileiro na guerra. Defendia uma aliança com os Estados Unidos. Os navios torpedeados pelos submarinos alemães também contribuíram, porque muitas pessoas morreram, e a população brasileira foi para a rua manifestar, exigindo uma atitude no governo. 

De acordo com informações do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), o rompimento de relações diplomáticas do Brasil com os países do Eixo tornou os navios brasileiros alvo de ataques dos submarinos alemães. Segundo a pesquisa, nesse momento foi de fundamental importância a ação de patrulhamento do Atlântico Sul realizada pela Força Aérea Brasileira (FAB), que mais tarde também iria atuar no front italiano. Os torpedeamentos fortaleceram a campanha em favor da entrada do Brasil na Guerra. 

Correio Lageano foi fundado no ano da Guerra

O jornal Correio Lageano foi fundado em 21 de outubro de 1939, menos de dois meses após o início da Segunda Guerra Mundial. Nas primeiras edições, os assuntos variavam entre notícias locais, estaduais, nacionais e algumas em referência a Guerra.

O nazismo na atualidade 

Mas o nazismo não é assunto restrito ao passado. Tanto em países da Europa, como no Brasil há o crescimento da extrema direita, e vários grupos neonazistas, um movimento de resgate do nazismo na atualidade, de uma forma, digamos, repaginada.

A antropóloga, Adriana Abreu Magalhães Dias, em sua tese, “Observando o ódio”, levantou números de sites, postagens, downloads em redes, inscritos e postagens em fóruns, integrantes em comunidades como Facebook e Twitter.

“Há uma postagem antissemita no Twitter; a cada quatro segundos; uma postagem em português contra negros, pessoas com deficiência e LGBTs; a cada 8 segundos,” explicou, em entrevista ao Jornal da Unicamp em setembro de 2018. O Jornal, Folha de São Paulo, divulgou, recentemente, uma reportagem sobre grupos de whatsapp de extrema direita, onde são compartilhadas fotos de Hiltler e a saudação “Heil Hitler”, a negação do Holocausto judeu, hostilidade aos imigrantes e defesa do nacionalismo. 

1 Comentário

1 Comentário

  1. MR8 MR8

    02/09/2019 at 20:18

    E centenas de milhares de cristãos também foram para os campos.
    Porque será que se omite sempre os cristãos?? Só interessa repetir propaganda do racismo, do anti-semitismo e dos fóbicos!!!! A verdade não interessa, né!!!

    Aliás, há alguém que o hitler popou a não ser massónicos e maigos sionistas que o financiaram?

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